Sunday, March 25, 2007

Esfinges

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Ouvindo algumas músicas, dou graças a Deus pelo fato de certos versos não serem esfinges. Se dependesse de decifrá-los, seria devorada.

É fato que nem sempre os poetas quiseram dizer exatamente aquilo que interpretamos. Caetano Veloso, por exemplo, falou certa vez sobre "Enquanto seu lobo não vem", lançada no disco Tropicália (ou Panis et Circensis). Explicou que a letra faz várias referências políticas, mas não mereceu reprimenda da feroz censura da época simplesmente porque os censores não entenderam. Forçou, né, Caetano? "Há uma cordilheira sob o asfalto" seria, segundo ele, uma referência à guerrilha cubana saída da Sierra Maestra e ao fato de Che Guevara ter ido para a Bolívia depois. Ah, claro, bem que eu tinha percebido!

Como este, há uma enorme gama de versos que deveriam vir com manual de instruções. Alguns compositores são especialmente pródigos em letras enigmáticas, como Djavan, Luiz Melodia e o absolutamente hors-concours Carlinhos Brown. Antes que se apressem os julgamentos, nada contra. Sou partidária da idéia de que a música, como toda forma de arte, tem fim em si mesma, não precisa servir a nada. Se as letras servirem para despertar reflexões, isso é lá com o compositor. Antes de qualquer coisa, arte - e música - é pura fruição.

Mas não resisto à tentação...

Vamos brincar de listar os versos mais incompreensíveis da música brasileira?

Eu começo, vocês continuam.

*

"Obi Obá, que nem zen, czar, shalom, Jerusalém, s´oiaseau"
(de Obi, do Djavan) - isso faz sentido em alguma língua? Aliás, em que língua?, porque consigo contar pelo menos seis neste curtíssimo extrato.

*

"Devo de ir fadas, Inseto voa inseto sem direção"
(de Fadas, do Luiz Melodia) - esta letra é inteirinha Esfinge. Tenho vontade de ouvi-la de trás pra frente para ver se faz algum sentido. Será?

*

"Esse ão de são, hei de cantar, naquela canção"
(de "Uma brasileira", Paralamas e ele, Carlinhos Browm) - essa é outra. Esfinge da cabeça aos pés. Não por acaso, os Paralamas convidaram Djavan para cantar na música. OK, não precisa explicar. Eu não iria entender.

Só para esquentar, vamos lá!

21 comments:

fran said...

ahahhaha muito boa...ESSE ÃO DE SÂO... Sâo Paulo?

Marcus said...

Comentário lateral: nesta mesma música do Caetano (muito linda, por sinal) tem versos bastante claros, como: "Vamos por debaixo das ruas / Debaixo das bombas, das bandeiras / Debaixo das botas", ao som de fanfarra militar!

Aliás, todo esse disco, Tropicália, tem pistas bem claras, tipo o Gil rimando Brasil com fuzil. O livro do Zuenir Ventura sobre 1968 mostra que, apesar dos pesares, antes do AI-5 a ditadura não era uma coisa muito selvagem não.

Gabriel Izar said...

Músicas indecifráveis... pode ser qualquer uma do Djavan, hehehehe.

Pra começar fica essa do 14 Bis, linda Juventude (sinceramente não tem um verso complicado, a música toda parece estar cifrada, não é pra qualquer um entender não):

"Zabelê, zumbi, besouro, vespa fabricando mel
Guardo teu tesouro, jóia marrom, raça como nossa cor
Nossa linda juventude, página de um livro bom
Canta que te quero cais e calor, claro como o sol raiou
Claro como o sol raiou

Maravilha, juventude, pobre de mim, pobre de nós
Via Láctea, brilha por nós, vidas pequenas da esquina

Fado, sina, lei, tesouro, canta que te quero bem
Brilha que te quero luz andaluz, massa como o nosso amor
Nossa linda juventude, página de um livro bom
Canta que quero cais e calor, claro como o sol raiou
Claro como o sol raiou

Maravilha, juventude, tudo de mim, tudo de nós
Via Láctea, brilha por nós, vi...das bo..ni..tas da esqui...na."


Outra música que tem versos emblemáticos e que nunca cheguei a conclusão nenhuma sobre o que ela diz é Música Urbana, da Capital Inicial.

"Contra todos e contra ninguém
O vento quase sempre nunca tanto diz
Estou so esperando o que vai acontecer "


[]'s
Gabriel

Paulo de Tarso said...

Sabe, Alessandra. A coisa é um pouco complexa.
Como disse o Gil, "quando o poeta diz meta, pode estar querendo dizer o inatingível" ou "quando diz lata, pode estar querendo dizer o incontível".
Poesia (e letras de músicas são uma forma de poesia) é assim mesmo. Símbolos, metáforas e - o melhor de tudo - abertas para a interpretação de quem lê (ou ouve).
Nada mais interativo do que poesia. O leitor interage com o poema e forma, com seu próprio conteúdo interno, o resultado final. Cada um tem o seu próprio resultado final, único e diferente dos outros.
Agora, quanto ao Djavan, particularmente, minha leitura é que ele brinca com o ritmo das palavras. Ele usa as sílabas tônicas pra fazer um contraponto com os tempos fortes e fracos do compasso, o que gera uma sensação maravilhosa de ritmo. Não há o que entender. É só curtir essa "pororoca" que forma o encontro das palavras com a música.
Eu adoro.

Andréa N. said...

Eu nao tenho nenhum exemplo de cabeca agora, mas morri de rir com teu post! E adorei a explicacao do Paulo. Eh isso aih mesmo.
Beijo.

valéria mello said...

Pegando uma carona no que o Paulo disse, pensei em uma comparação: muitas vezes as palavras funcionam como as notas de um instrumento, o que vale é o som, não necessariamente o sentido delas.

Abraços.

Alessandra Alves said...

fran: vai saber que são é esse, né?

marcus: bem lembrado. esse disco é cheio de toques sutis contra o autoritarismo e, de fato, beneficiou-se do período pré-endurecimento do AI-5. a música é linda mesmo, um arranjo primoroso de rogerio duprat, as vozes de gal e rita lee no backing vocal. um clássico!

gabriel: essa do 14bis, além de tudo, é um potencial de virundum perfeito.

paulo: concordo com tudo o que você escreveu. como, aliás, reforço no post. nenhum compositor tem obrigação de ser claro ou de passar mensagem alguma. a arte está acima disso. aliás, essa música do gil é maravilhosa, como todo aquele disco de 1982 (um banda um). sua colocação me fez lembrar minhas aulas de lingüística, na faculdade, quando falávamos de significante e significado.

andréa n.: beijo!

valéria mello: putz, tudo a ver isso das palavras serem notas, né? lembrei até de uma entrevista que vi, há uns dois anos, do joão bosco junto com o aldir blanc. eles, que tiveram aquela obra riquíssima nos anos 70, ficaram anos sem compor juntos, e nem se falavam mais. disseram que não houve briga nenhuma, mas o aldir de certa forma localizou a origem da separação. foi quando joão começou a experimentar sons e onomatopéias mais africanos, mais percussivos, mais significante que significado. o disco gagabirô, de 1984, talvez tenha sido essa esquina dobrada. eu entendo o aldir, que sempre foi um poeta absolutamente direto, claro. ele não se achou naquela nova proposta do joão. adoro as onomatopéias do joão bosco, viajo nelas, mas vou sempre muito direto ao ponto, talvez tenha uma necessidade de compreensão formal que me faz querer interpretar, entender o que tal letra (ou poesia) quis dizer. não por acaso, joão aprofundou-se nos sons-significantes, e aldir caiu de boca na crônica. felizmente, eles se reencontraram nos anos mais recentes. será que sai mais coisa dessa parceria?

valéria mello said...

Alessandra, quando eu penso no João Bosco a primeira música que me vem é Linha de Passe, que faz justamente esse jogo com a sonoridade:

"Toca de tatu, linguiça e paio e boi zebu
Rabada com angu, rabo-de-saia
Naco de peru, lombo de porco com tutu
E bolo de fubá, barriga d'água"

E por aí vai.

Valeria said...

"marmelada de banana, goiabada de marmelo..."

Bom, na verdade sempre entendi essas frases indecifráveis como aquele "tubidubidu" de algumas músicas em inglês. Não querem dizer nada, são só uma forma de marcar o ritmo.

Os afro-sambas da dupla Baden-Vinicius tinha muito desse tipo de coisa.

Saco de Gatos said...

E o que dizer de outra pérola djavaniana...

"Açaí / Guardiã / Zum de Besouro / Um ímã / Branca é a tez da manhã"

Alex Sotto said...

"Neblina turva e brilhante em meu cérebro coágulos de sol/Amanita matutina e que transparente cortina ao meu redor/E se eu disser que é meio sabido você diz que é meio pior/E pior do que planeta quando perde o girassol/É o terço de brilhante nos dedos de minha avó/E nunca mais eu tive medo da porteira/Nem também da companheira que nunca dormia só."
Avohai - Zé Ramalho...

E eu acho que nem adianta tentar encontrar sentido, isso é pura enrolação mesmo!


Alex Sotto

Paula Pacheco said...

Alê,

Quase morri de rir aqui, recebi há uns dias uma crônica bárbara (infelizmente sem autoria, e não consegui descobrir o autor)falando sobre o Djavan...vou postar, não dá pra resistir! Beijos

Em tempo: ADORO o Djavan!

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O homem que sabia Djavanês

Eu tinha chegado fazia pouco ao Rio de Janeiro e estava literalmente na miséria. Vivia fugindo de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro. Até que um dia, lendo "O Globo", deparei com este anúncio: "Precisa-se de um professor de djavanês".
A audição das músicas de DJAvan sempre provocou em mim puro mal-estar físico. Mas, enfim, precisava de grana e decidi fazer o possível para vencê-lo.
Naquela semana, fui a todos os barzinhos com música ao vivo da cidade. Perdi a conta de quantas vezes escutei "e o meu jardim da vida ressecou, morreu" ou "amar é um deserto e seus temores". Foram sete dias de tortura; contudo, saí deles com o djavanês na ponta da língua. Em vez de mandar meu currículo, achei que conviria visitar o endereço indicado no anúncio.
Era um triplex de cobertura, decorado com muito dinheiro e mau gosto ainda maior, num dos bairros mais caros do Rio. Apresentei-me como professor de djavanês e, após ser submetido a inquérito pelos empregados, fui levado à presença do patrão, o doutor Albernaz. Ele me recebeu com um sorriso visivelmente irônico.
-- Então o senhor é professor de djavanês, hein?
-- Sim, sou. Formado em djavanês e com mestrado em beregüê. Tive dez com louvor na minha tese sobre a influência de Carlinhos Brown na obra de James Joyce.
A tese, obviamente, não existia, mas o doutor Albernaz pareceu acreditar na conversa.
-- Então, só o senhor pode me ajudar. Ouça isto, por favor - e pôs nas minhas mãos uma coletânea do DJAvan em CD. Ao notar minha cara de ponto de interrogação, ele contou sua história:
-- Pouco antes de morrer, meu pai me entregou esse CD e disse: 'Filho, tenho certeza de que DJAvan canta coisas muito profundas, mas ouvi suas músicas durante anos e nunca consegui entender porra nenhuma. Só podem ser segredos iniciáticos transmitidos da maneira mais hermética possível. Descubra o significado e você obterá a chave da felicidade'.
O doutor Albernaz abriu o encarte do CD e me mostrou uma das letras:
-- 'Obi, obi, obá. Que nem zen, czar. Shalom Jerusalém, z'oiseau'. O que é que significa isso?.
Eu estava tenso com a pergunta do doutor Albernaz.
Tantas músicas do DJAvan e o velho tinha de querer saber o que significava a letra de "Obi"? Desgraçado. Se ainda fosse aquela do "o amor que é azulzinho", mas era tarde. Ele tinha os olhos fixos em mim: queria respostas. Todo o sucesso da minha empreitada dependia de uma explicação convincente e imediata.
De repente, uma idéia. Começo:
-- Veja bem. 'Obi' é certamente uma referência a Obi-Wan Kenobi, o sábio de 'Guerra nas Estrelas' interpretado por sir Alec Guinness. 'Obá', por sua vez, remete a 'Djobi Djobá', sucesso dos Gipsy Kings. DJAvan buscou contrastar o lado luminoso e britânico da força com os mistérios nômades da alma cigana. A mesma tensão dialética pode ser verificada no verso subseqüente, 'que nem zen, czar': a contemplação espiritual dos monges budistas e o poder absoluto dos czares. Perceba como tese e antítese se resolvem lindamente na síntese do verso
seguinte: 'shalom Jerusalém' é a paz do espírito na divina cidade. É ela que faz a alma se elevar aos céus, como um pássaro ('z'oiseau').
Os olhos do doutor Albernaz se arregalaram enquanto eu falava. Dois segundos depois de eu terminar, ele gritou:
-- Que maravilha! Sabia que havia algo de muito profundo nessa letra! O senhor é um gênio da hermenêutica, um mestre do djavanês!
Passei a tarde inventando explicações para todas as outras letras do CD - Açaí guardiã..., Kremlin-Berlim-pra-não-dizer-Tel-Aviv..., índio cara-pálida cara de índio... Citei Joyce, Pound, Oswald, Glauber, Zé Celso, Hélio Oiticica e Odair Cabeça de Poeta: name-dropping é comigo mesmo.
Daí por diante, minha ascensão social estava garantida. Eu era o único intelectual do país capaz de traduzir a transcendência da linguagem de DJAvan. Tinha prestígio acadêmico e subsídio do Ministério da Cultura; gostosíssimas estudantes de lingüística rasgavam as roupas e se atiravam aos meus pés. Mas troquei tudo por um violão, sandálias de couro cru e um penteado novo. Mudei até meu nome graças ao djavanês.
Hoje me chamo Jorge Vercilo e sei que "nada vai me fazer desistir do amor"...

Alessandra Alves said...

valéria mello: pois é, "linha de passe" acho que foi uma introdução do joão bosco nessa linha, né? a-do-ro essa música também!

valeria: muitíssimo bem lembrado o sítio do gil! aquilo é psicodelia pura, um lucy in the sky with diamonds tupiniquim.

saco de gatos: querido r.m., imbatível, imbatível esse djavan, tão lindo na voz de gal, né?

alex sotto: putz, zé ramalho é outro impenetrável que eu adoro. uma das frases dele que me encantam - e não é indecifrável - é "os aviões que vomitavam pára-quedas!". o máximo!

paula: essa crônica foi escrita pelo meu amigo ruy goiaba, do blog puragoiaba. temos pensamentos bastante diferentes, eu e o ruy, mas muitas afinidades. na verdade, a frase que escolhi no post, de "obi", é fruto de um diálogo nosso, meu e e do ruy, sobre djavan.

Edu said...

porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No culme calmo do meu olho que vê
assenta a sombra sonora de um disco voador.

Lilica said...

Valéria, você sabia que houve uma época em que adicionavam banana na marmelada e a goiabada era feita com marmelo? Pois era!
Acredito que seja daí que veio o intrigante verso: "marmelada de banana, goiabada de marmelo".

Anonymous said...

Gabriel Izar said, essa música de 14 Bis Linda Juventude é muito bonita, com a melodia muito bonita e bem feita, cifrada mas bonita, gosto muito e o rítmo é muito massa o rítmo entre os versos é revolucionário (preste atenção no rítmo) um rítmo de atitude e rebeldia, simplesmente "superior" :P

Somos 2 que gostamos de 14 Bis :P
vlw

Dennys said...

Gabriel Izar said, essa música de 14 Bis Linda Juventude é muito bonita, com a melodia muito bonita e bem feita, cifrada mas bonita, gosto muito e o rítmo é muito massa o rítmo entre os versos é revolucionário (preste atenção no rítmo) um rítmo de atitude e rebeldia, simplesmente "superior" :P

Somos 2 que gostamos de 14 Bis :P
vlw

Esqueci de colocar meu nome,

Luciana Amor e Luz said...

Gente adorei o post e os comentários, vcs são demais

Luciana Amor e Luz said...

Sensacional!!!

Luciana Amor e Luz said...

Gente adorei o post e os comentários, vcs são demais

Rogerio Aciole (Nero) said...

Kkkkkkk
Muito bom!!!!