Monday, October 09, 2006

Ciranda de versos

Há algumas semanas, tivemos uma ótima discussão aqui sob o tema "Ciranda de Livros", na qual propus que todos falássemos sobre seus livros preferidos. Resolvi variar um pouco o foco da ciranda e agora proponho que falemos sobre letras de músicas. A idéia é que cada um aborde letras ou trechos de letras de que gostam ou que marcaram suas vidas de alguma maneira. Vou começar com três versos do meu letrista preferido, Chico Buarque, sempre ele, claro...

"Eu te amo"
Chico Buarque - 1980

"(...) Não, acho que estás só fazendo de conta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora, conta como hei de partir."

Os três versos finais da canção "Eu te amo" significam, para mim, mais do que uma canção dilacerada de amor. Contêm outra mensagem, subliminar: desistam, poetas da música brasileira, ninguém jamais fará versos tão geniais quanto estes.

Meu encantamento com esta parte final da canção tem duplo motivo. Em primeiro lugar, são aquilo que se costuma chamar de "chave de ouro" - o encerramento perfeito para uma letra que, desde o começo, apresenta-se como antológica (para ler a íntegra da poesia, clique nos comentários abaixo). Na gravação original, a música é dueto de Chico com a cantora Telma Costa. A mesma letra, com discretíssimas alterações, presta-se ao eu-poético masculino ou feminino ("Meu paletó enlaça o teu vestido/Teu paletó enlaça o meu vestido"). Tem outros versos inesquecíveis, como "Se na bagunça do teu coração, meu sangue errou de veia e se perdeu". Mas o final, ah, o final...

Os três versos que encerram a canção encantam não apenas a mim como admiradora de belas poesias, mas como entusiasta da língua portuguesa. Porque não é nada menos que genial a estratégia de Chico ao usar a palavra "conta". Cumpre-se ressaltar que, na repetição da letra, ao final da gravação, Chico muda para "(...)Não, achos que estás te fazendo de tonta, te dei meus olhos pra tomares conta (...)". Mas vale a pena pensar sobre o uso da palavra "conta" na primeira parte:

Não, acho que estás só fazendo de conta
Aqui, "conta" entra como substantivo, na expressão "fazer de conta", sinônimo de "fazer de brincadeira", "fazer de mentira"

Te dei meus olhos pra tomares conta
Neste caso, "conta" também é substantivo, mas com sentido de cuidado, de atenção

Agora, conta como hei de partir
Finalmente "conta" aqui é verbo, contar, conjugado no imperativo, com sentido de dizer, explicar, informar.

E você, quais são seus versos preferidos?

39 comments:

Alessandra Alves said...

EU TE AMO
Chico Buarque - 1980


Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

Dani Santi said...

Alessandra, belíssima escolha a sua. Só que agora ficou impossível não falar em Chico!

Tem como não suspirar ouvindo As Vitrines?

"Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar"

É lindo. E, assim como Eu Te Amo, termina maravilhosamente:

"Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão"

Ai, ai... Nem vou falar de Tira as Mãos de Mim, Desalento, Olhos nos Olhos, Joana Francesa ("o mar, marée, bateau").

Chico é inigualável.

Valeria said...

Alessandra, bem, eu vivo música, e algumas são inesquecíveis.
Começo com Cartola:
"Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim

Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhava meus sonhos
Por fim"
(não dá pra citar só um trecho dessa música, desculpe)

Ou então, mais Cartola,
"Semente de amor sei que sou desde nascença" (Não quero mais amar a ninguém) - e quero mais que essa semente germine muito.

Renato Russo:"É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há."
E não existe mesmo amanhã, vivemos o hoje sempre.

E quem nunca viveu um amor de carnaval, como este que Chico narra em Noite dos Mascarados:
"Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
Que hoje eu sou da maneira que você me quer
O que você pedir eu lhe dou
Seja você quem for, seja o que Deus quiser(bis)"

Mais Chico (na voz de Bethania,ui):"E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão" - eu sei q é versão, mas a letra da versão é d'Ele - Delirar e morrer de paixão, já fiz isso tantas vezes, e ainda farei outras tantas, se Deus quiser.

E, por fim, uma música que vale como uma definição minha (não é a toa que uso o personagem como avatar do orkut):
"Sou a Mônica, sou a Mônica
Dentucinha e sabichona
Sou a Mônica, sou a Mônica
Tão teimosa e tão mandona
Quando diz que sim, quando diz que não
Mostra ter opnião"

Eu só não sou dentucinha,rss.

Zeca said...

Esta letra do Chico é maravilhosa!

Dele, adoro também "Valsa Brasileira":
"Vivia a te buscar porque pensando em ti corria contra o tempo
Eu descartava os dias em que não te vi, como de um filme ação que não valeu
Contava as horas prá trás, roubava um pouquinho, e ajeitava o meu caminho prá encostar no teu..."

Do Vinícius, "Modinha" (com música do Tom! e recomendo a versão da Zizi Possi):
"Não
Não pode mais meu coração
Viver assim dilacerado
Escravizado a uma ilusão
Que é só
Desilusão
Ah, não seja a vida sempre assim
Como um luar desesperado
A derramar melancolia em mim
Poesia em mim
Vai, triste canção, sai do meu peito
E semeia a emoção
Que chora dentro do meu coração
Coração"

Mais uma vez Vinícius e Tom, "Sem você":
"Sem você
Sem amor
É tudo sofrimento
Pois você
É o amor
Que eu sempre procurei em vão
Você é o que resiste
Ao desespero e à solidão
Nada existe
E o mundo triste
Sem você..."

E da Adriana Calcanhoto, gravado pela Bethânia, "Âmbar":
"Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico
Que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas
Aqui do outro lado
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos".

E esse blog está cada dia melhor...
Zeca

Mauro Chazanas said...

Alessandra of the sky, agora que eu mudo de mala e cuia pro teu blog. Caramba, deixa começar só falando de versos isolados? Depois posso voltar, pra réplica e pra tréplica? Posso voltar mais tarde?
Começando:
"Quando o verde dos teus olhos se espalhar na plantação..."
E, de "Súplica Cearense":
" Oh, Deus, se eu não rezei direito o senhor me perdoe, eu acho que a culpa foi desse pobre que nem sabe fazer oração";
Cazuza:
"Que coincidência é o amor: a nossa música nunca mais tocou";
Alagados:
"...e a cidade, de braços abertos num cartão postal, com punhos fechados na vida real...";
Nelson Cavaquinho:
"Tire o teu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor";
Gil:
"...o coração dizendo: bata! a cada bofetão do sofrimento..."
E, pra mim, o mais inesquecível verso do Chico Buarque, aquele que eu levaria pruma ilha deserta:
"...e cada qual em seu canto, e em cada canto uma dor...".

Alessandra Alves said...

caramba, que vocês todos me deixaram arrepiada!

por hora, vou deixar o barco correr um pouco mais e depois faço mais comentários.

mauro, replique, triplique, quadriple quantas vezes quiser!!! (vale para todos!)

Mauro Chazanas said...

Bem, como eu fui citado nominalmente, vou pro meu direito de resposta (Alessandra, isso não vai tirar meu direito à réplica, à tréplica, enfim, posso ficar cantando aqui até altas horas, né?).
Lá do Chico, novamente:
"Ouve a declaração, oh bela, de um sonhador titã, um que dá nó em paralela e almoça rolimã, o homem mais forte do planeta, tórax de superman...tórax de superman e coração de poeta...";
Ednardo:
"Não temas, minha donzela, nossa sorte nessa guerra é que eles são muitos mas não podem voar";
Caetano:
"...e o meu coração embora, finja fazer mil viagens, fica batendo, parado, naquela estação.";
Ai, agora vai ser pra chorar, e é na voz da Maysa:
"Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver, e a primeira estrela que vier, pra enfeitar a noite do meu bem...";
Caetano again, em "O Estrangeiro":
"e eu, menos a conhecera mais a amara, sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la, estrela, o que é uma coisa bela";
Cazuza, de novo e again:
"...transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro...";
(Só pra lembrar, a canção acima foi feita pra um certo outro governo);
Pra terminar, um verso da brasileira Tuca, de "La Question", tudo bem que é em francês, mas é muito lindo, "La Question" é a mais brasileira das canções francesas (que digo eu? como assim "mais brasileira"? é uma das mais universais, isso sim):
"Chercher te comprendre c´est courir après le vent...".
Puxa, a generosidade da mediadora concedeu-me direito a mais dois versos, então lá vai:
Noel Rosa:
"São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba!";
Aldir Blanc e João Bosco:
"Faces sob o sol, os olhos na cruz, os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã, vão levar ao reino dos minaretes a paz na ponta dos aríetes, a conversão para os infiéis".
Alessandra, enquanto voce não me der um "cata" eu vou ficando. Mas eu ainda tenho direito à réplica, tréplica e quáplica, foi voce quem falou, eu não tenho culpa.
Ah, tem jeito de ter quínplica?
Ok, já vou dormir, tudo bem. Tchau gente, até mais.
"Eu perguntei ao malmequer, se meu bem ainda me quer, ele então me respondeu que não. Chorei, mas depois eu me lembrei, que uma flor é uma mulher, que nunca teve coração...".
Caramba, pessoal, já estou saindo, não precisa empurrar. Tchau, tchau.

Valeria said...

Alessandra, dar direito a réplica, tréplica, quadripla, ou o que seja, é um perigo. Tem um monte de gente "movida a música" por aqui. Eu inclusive.

Tava ouvindo agora, no orkut, essa música com o Rei (é da Isolda):
"Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços o que eu nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado e o mais simples pra mim.
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu
E é por essas e outras que a minha saudade
Faz lembrar de tudo outra vez."
Qual mulher nunca cantou essa música?

Ou esta da Bethania (é d'Ele):
"O terceiro me chegou como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro dentro do meu coração"

Ou esta do Gonzaguina- na voz de Bethania (sou fã assumida de Bethania):
"Quando eu soltar a minha voz por favor, entenda
Que palavras por palavras eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca, peito aberto, vou sangrando"

E o Gil, numa canção que RC recusou: "Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar"

E ainda Gil que me trás tantas lembranças boas: "Marmelada de banana, bananada de goiaba
Goiabada de marmelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Sítio do Pica-Pau amarelo"

Quase ponho Dão tb, mas vc fez uma bela análise do significado dessa música em outro post.

"De jangada leva uma eternidade, de saveiro leva uma encarnação
De jangada leva uma eternidade, de saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosa, leva o tempo de um raio"

Vou terminar com dois hits da adolescência, que os anos 80 foram tudibom ao cubo:
"Vital andava a pé e achava que assim estava mal
De um ônibus pro outro aquilo para ele era o fim
Conselho de seu pai: "Motocicleta é perigoso, Vital.
É duro de negar, filho, mas isto dói bem mais em mim."
Mas vital comprou a moto e passou a se sentir total
Vital e sua moto, mas que união feliz
Corria e viajava era sensacional
A vida em duas rodas era tudo que ele sempre quis"

Cazuza: "Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado"

E vou saindo rapidinho antes que me ponham pra fora,rss.

Dani Santi said...

Marisa Monte, Bonde do Dom:

"A água do mar me bebe
A sede de ti prossegue"

Chico, genial:

"Ele era mil
Tu és nenhum
Na guerra és vil
Na cama és mocho
Tira as mãos de mim
Põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele
Guardado em mim
Te incendeia um pouco"

E a lindíssima O Mundo é um Moinho, inteira, do Cartola:

"Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés"

Alessandra Alves said...

vou acabar transformando isso aqui num blog só de música!

belas citações, todas!

vou acrescentar mais algumas:

do capítulo chico buarque (adoro os versos finais de "as vitrines", dani, adoro!), também destaco:

"quem não fez a patente da espoleta explodir na gaveta do inventor" - almanaque

"me trouxe uma bolsa, já com tudo dentro, chave, caderneta, terço, patuá, um lenço e uma penca de documento, pra finalmente eu me identificar" - meu guri

"é na soma do seu olhar que eu vou me conhecer inteiro, se nasci pra enfrentar o mar ou faroleiro" - tanto amar

"a saudade dói como um barco, que aos poucos descreve um arco, e evita atracar no cais" - Pedaço de mim

"a saudade dói latejada, a saudade é uma fisgada de um membro que já perdi" - idem

"o usineiro faz barulho, com orgulho de produtor, mas a sua raiva cega, descarrega, no carregador" - o malandro

do capítulo caetano (um dia ainda escrevo sobre o que são, para mim, chico e caetano - e eles são coisas muito diferentes para mim...):

"teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios, ou pra ser exato, lábios cor de açaí" - trem das cores

"crianças cor de romã entram no vagão, o oliva da nuvem chumbo ficando, pra trás da manhã, e a seda azul do papel que envolve a maçã" - trem das cores (que é todinha linda!)

"o melhor o tempo esconde, longe muito longe, mas bem dentro aqui" - trilhos urbanos

"pena de pavão de krishna, maravilha, vixe maria, mãe de deus" - trilhos urbanos

"rapte-me, capte-me, it´s up to me, coração" - rapte-me camaleoa

"onde o que eu sou se afoga, meu fumo, minha yoga, você é minha droga, paixão e carnaval, meu bem, meu zen, meu mal" - meu bem, meu mal

ah, falta tanta coisa ainda! que que eu fui inventar!

e esse cazuza:

"não me ofereceram nem um cigarro, fiquei na porta estacionando os carros, não me elegeram chefe de nada, o meu cartão de crédito é uma navalha" - brasil

só mais duas, de autores diferentes:

"não quero acreditar que vou passar desse modo a vida, olhar pro sol, só ver janela e cortina, do meu coração fiz um lar, o meu coração é teu lar, e de que me adianta tanta mobília se você não está comigo?" - no recreio, nando reis

e uma pérola, nada menos que uma pérola:

"e tudo o que eu posso te dar é solidão com vista pro mar" - não sei dançar, alvin l.


pronto, surtei!! hahahaha

Paulo de Tarso said...

Bom iso é difícil prá caramba, mas o Chico não pode faltar. Aliás, pode pegar qualquer uma dele e botar na lista. Como o espaço não permite todas, escolho uns versos de Choro Bandido, que ele fez com o Edu Lobo:

Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim: me leve até o fim, me leve até o fim
.

Outro exemplo, saindo do Chico, é um verso do Caetano, em "Cinema Transcendental". Esse verso sempre me impressionou - e impressiona até hoje - pela rima absolutamente imprevista numa métrica primorosa:

Pena de pavão de Krishna
Maravilha, Vixe Maria, Mãe de Deus..
Será que esses olhos são meus...


Vem cá, gente! Rimar o "sh" da palavra Krishna com o som do "xe" - falado no sotaque nordestino - da expressão Vixe Maria, em uma rima interna é o máximo, não é, não?

Alessandra Alves said...

paulo: que sintonia a nossa, hein?!

Paulo de Tarso said...

Desculpa aí, gente! Errei o nome da música do Caetano,aí em cima e coloquei o nome do disco em que ela foi gravada. Ao invés de Cinema Transcendental, nome do disco, o nome da canção é Trilhos Urbanos.
"Errei sim
Manchei o teu nome"... Hehehe...

Paulo de Tarso said...

É Alessandra...sintonia mesmo.
E achei o máximo essa tua idéia. Como disse, isso dá um blog inteiro. Acho que não vai ter HD com espaço pra tanto post. Bjao.

Mauro Chazanas said...

Bem, à réplica então!
De "Voce não me ensinou a te esquecer":
" e nesse desespero em que me vejo já cheguei a tal ponto, de me trocar diversas vezes com voce, só pra ver se te encontro..."
Trocar "tu" por "voce" eu acho uma coisa linda.
Ah, se minha opinião valer alguma coisa, recomendo a versão de Bruno e Marrone, bem melhor que a do Caetano. Sério.
Vandré:
"Caminhando e cantando e seguindo a canção..."
Vandré, aí mesmo:
"...somos todos iguais, braços dados ou não..."
Vandré:
"Já vou embora, mas sei que vou voltar, amor, não chora, se eu volto é pra ficar..."
Vandré:
"...eu não planto em tempo que é de queimada!"
Sidney Miller, "A Estrada E O Violeiro":
" - Minha estrada, meu caminho, me responda de repente, se eu aqui não vou sózinho, quem vai lá na minha frente?
- Tanta gente tão ligeiro, que eu até perdi a conta, mas lhe afirmo violeiro, fora a dor, que a dor não conta, fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro!"
Ainda de "A Estrada e o Violeiro":
"Parece um cordão sem ponta, pelo chão desenrolado! Rasgando tudo o que encontra, a terra de lado a lado..."
Ai, ainda de "A Estrada e o Violeiro" (a estrada está falando isso pro violeiro):
"Guarde sempre na lembrança que essa estrada não é sua, sua vista pouco alcança, mas a terra continua, segue em frente violeiro, que eu lhe dou a garantia, de que alguém passou primeiro na procura da alegria, pois quem anda noite e dia, sempre encontra um companheiro!"
Pra terminar esta curta réplica(foi curta, né Alessandra?): Ednardo, again:
"Arrepare não, mas enquanto engomo a calça eu vou lhe contar uma história bem curtinha, fácil de cantar, porque cantar, parece com não morrer, é igual a não se esquecer, que a vida é que tem razão..."
Alessandra, posso mesmo voltar mais tarde? Inté mais, boa noite pra todas e todos, boa noite pra mim mesmo, que me chamo Mauro.
Êpa, eu me citei nominalmente, então eu tenho direito de resposta pra mim mesmo, né, Alessandra?
Então, lá vai:
"Um Pierrot apaixonado, que vivia só cantando, por causa de uma Colombina, acabou chorando, acabou chorando..."
Um dos versos mais tolos do nosso cancioneiro, e no entanto tão bonito, tão brasileiro, tão cantado e dançado e tão verdadeiro.
Até mais tarde (posso, né?).Tchau.

Alessandra Alves said...

errata: "rapte-me, adapte-me, capte-me, it´s up to me, coração" - rapte-me camaleoa

(acho que errei de propósito, só para ter de escrever essa jóia de novo)

Zeca said...

Tá faltando um pouco de Djavan nesta conversa aqui! E o direito réplica vale pra todos, certo? :-)

"O luar, estrela do mar, o sol e o dom, quicá um dia, a fúria desse front, virá lapidar o sonho, até gerar o som, como querer caetanear, o que há de bom" - Sina

"Quanto querer, cabe em meu coracao... mas hoje eu tô tao feliz! dizem que o amor atrai´" - Samurai

"Um olhar, uma luz, ou um par de pérolas, mesmo sendo azuis, sou teu e te devo por essa riqueza... sinto você assim, sensual, árvore, espécie escolhida prá ser a mao do ouro, o outono traduzir, viver o esplendor em si..." - Outuno

"...te seguir, e poder chegar, onde tudo é só meu, te encontrar, dar a cara pro teu beijo, correr atrás de ti feito um cigano, me jogar sem medir, viajar entre pernas e delícias..." - Cigano

E do Orlando Moraes, com música do Dja e gravada pelo próprio.
"...o frio é o agasalho que esquenta, o coracao gelado quando venta..." - Rota do Indivíduo

E uma do mestre Gil, que o Dja também gravou.

"Por ser de lá do Sertao, lá do cerrado, lá do interior do mato, da caatinga, do rocado, eu quase nao saio, eu quase nao tenho amigo, eu quase que nao consigo, ficar na cidade sem viver contrariado" - Lamento Sertanejo, imortal na voz do Gil

Zeca said...

E também Paulinho da Viola tá faltando!

"...meu mundo é hoje, nao existe amanha prá mim, eu sou assim, assim morrerei um dia, nao levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia..." - Meu mundo é hoje

"silencio por favor, enquanto esqueco a dor no peito, nao diga nada sobre meus defeitos, eu nao me lembro mais quem me deixou assim, hoje eu quero apenas, uma pausa de mil compassos... quem sabe tudo nao fale, quem nao sabe nada se cale..." - Para ver as meninas (que tristeza, e a pausa de mil compassos é eterna!)

Zeca

Alessandra Alves said...

adorei quando a valeria citou o rei, com música da isolda, que é de fato uma das melhores dores de cotovelo da mpb, aquela "outra vez" (mas acho que não é só mulher que se identifica, ou vocês nunca sofreram de amor, machos de plantão?).

vou aproveitar a ocasião e trazer mais alguns versos roberto-erasmianos:

"eu quero ser seu travesseiro e ter a noite inteira, pra te beijar durante o tempo que você dormir" - cama e mesa

"sem me importar se nesse instante, sou dominado ou se domino, vou me sentir como um gigante, ou nada mais do que um menino" - cavalgada

e ainda:

"estrelas mudam de lugar, chegam mais perto só pra ver, e ainda brilham de manhã, depois do nosso adormecer/ e na grandeza deste instante, o amor cavalga sem saber, e na beleza deta hora, o sol espera pra nascer" - também cavalgada

e esta:

"eu sei que um outro cabeludo deve estar falando ao teu ouvido, palavras de amor como eu falei, mas eu duvido, duvido que ele tenha tanto amor, e até os erros do meu português ruim" - detalhes

por fim, a que talvez seja minha preferida (preferida de hoje, quarta-feira, 9h da manhã, claro):

"seus netos vão te perguntar em poucos anos, pelas baleias que cruzavam oceanos, eles viram em velhos livros, ou nos filmes dos arquivos, dos programas vespertinos de televisão" - as baleias

e continua:

"o gosto amargo do silêncio em sua boca, vai te levar de volta ao mar e à fúria louca, de uma cauda exposta ao vento, em seus últimos momentos, relembrado num troféu em forma de arpão" - também as baleias

snif, mocionei...

Andréa N. said...

Tenho que trazer Guinga pra cá. Dessa vez, Guinga e Aldir Blanc. "Catavento e Girassol" é a minha música favorita. É uma canção de amor que fala de duas pessoas muito diferentes. Olha isso:

Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol
Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio
Você é litorânea
Quando eu respeito os sinais
Vejo você de patins
Vindo na contra-mão
Mas, quando ataco de macho
Você se faz de capacho
E não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega
Nós não ouvimos conselho:
Eu sou você que se vai
No sumidouro do espelho

Eu sou do Engenho de Dentro
E você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio
E você é expansiva
(o inseto e a flor)
Um torce pra Mia Farrow
O outro é Woody Allen...
Quando assovio uma seresta
Você dança, havaiana
Eu vou de tênis e jeans
Encontro você demais:
Scarpin, soirée
Quando o pau quebra na esquina
Você ataca de fina
E me oferece em inglês:
É fuck you, bate-bronha
E ninguém mete o bedelho:
Você sou eu que me vou
No sumidouro do espelho

A paz é feita no motel
De alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois
Que não serviu pra nada
Nos dias de carnaval
Aumentam os desenganos:
Você vai pra Parati
E eu pro Cacique de Ramos
Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor

Eu sinto muita saudade
Você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço
Você é tão espontânea!
Sei que um depende do outro
Só pra ser diferente
Pra se completar
Sei que um se afasta do outro
No sufoco somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou meio vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro do espelho
.

Acho um absurdo quando ele fala:
"Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador;
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor".

Essa canção foi gravada pela Leila Pinheiro e o resultado é um espetáculo. É isso.

Alessandra, eu estou para o Guinga assim como você está para o Chico, hehe. Um beijo.

Paulo de Tarso said...

Andrea, vc matou a pau...
Mas não conheço letra do Guinga, só música. E cada música...
Quanto ao Aldir, difícil ter algo mais inteligente no jogo de palavras e na simbologia. Inclusive é um puta cronista. No momento estou lendo um livro dele.

Alessandra Alves said...

andréa n: o guinga é maravilhoso, concordo, mas acho que o paulo lembrou um detalhe - ele não faz letras, ou faz?

a primeira música que me lembro, dele, foi "bolero de satã", gravada pela elis com participação especial do cauby. elis, mais do que em qualquer outra, sendo e podendo ser ângela maria!

é simplesmente acachapante a sequëncia:

"(...) é a seta do arco da noite, sangrando-me agora,
são lágrimas, sangue, veneno
correndo no meu coração,
formando-me dentro este
pântano de solidão."

sendo que de "agora", agudíssima, ela desce sem dó, mergulhando no "pântanode solidão", gravíssimo. melodia do guinga, letra do paulo césar pinheiro que é outro letrista maravilhoso.

ele também escreveu os versos de "cão sem dono", melodia da sueli costa:

"é nas noites que eu passo sem sono
entre o copo, a vitrola e a fumaça
que ergo a torre do meu abandono
e que caio em desgraça".

e como falar de sueli costa sem mencionar abel silva:

"e estar na primeira brasa do cigarro
no primeiro jorro da torneira
nos primeiros aprontos de um guerreiro, de manhã
para que saias com alguma alegria bem normal
que dure pelo menos até você
comprar e ler o primeiro jornal."

Paulo de Tarso said...

Alessandra
Essa observação que você fez sobre o agudo na palavra "agora", fazendo uma escala descendente para encontrar a nota mais grave em "pântano de solidão" é maravilhosa e me fez lembrar outra canção em que isso acontece premeditadamente e que eu acho o máximo de harmonia entre o autor da letra e o da música.
É na antológica, maravilhosa, estupenda, fantástica "Beatriz", do Chico e do Edu...

"...se ela mora num arranha-céu..."

a nota mais aguda de toda a música cai em cima da palavra "céu";

"...me ensina a não andar com os pés no chão..."

a nota mais grave de toda a música cai em cima da palavra "chão";

É demais, né????

Anonymous said...

Faz 10 anos que Renato Russo se foi.

Jonny'O

Gui Barranco said...

Olha, vou dizer uma coisa, sabendo que serei apedrejado, quiça excomungado pela blogueira, mas não gosto do Chico... Acho ele um pouco chato. Sei que as letras são bonitas, mas não me apaixonei por ele...
Enfim, prefiro Caetano e Gil. Tem uma música, chama Beira Mar (letra do Caetano e música do Gil), que é uma das minhas preferidas. Ouço a música e imediatamente me sinto transportado pra Bahia, caminhando pela praia... Tem uma parte que fala assim:

A praia, a beira, a espuma
E a Bahia só tem uma
Costa, clara, litoral
Costa, clara, litoral
É por isso que o azul
Cor de minha devoção
Não qualquer azul, azul
De qualquer céu, qualquer dia
O azul de qualquer poesia
De samba tirado em vão
É o azul que agente fita
No azul do mar da Bahia
É a cor que lá principia
E que habita em meu coração
E que habita em meu coração

Enfim, adoro essa parte.
Outra que eu amo é A Paz do Gil e do João Donato. Ela me enche de uma sensação boa...

Mauro Chazanas said...

Rápidinho, só pra trazer Chico César pra roda:
"Como esta noite findará,
E o sol então rebrilhará,
Estou pensando em voce...
Onde estará o meu amor?

Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?

Se a voz da noite responder
Onde estou eu? Onde está voce?
Estamos cá dentro de nós, sós...
Se a voz da noite silenciar,
Raio de sol vai me levar,
Rainho de sol vai me trazer
Onde estará o meu amor?

Vale dizer que minha pontuação é completamente arbitrária, pois o verso final tanto pode ser uma pergunta como uma afirmação. Os versos, " será que vela como eu, será que chama como eu", são muito além de um simples trocadilho. Voces não acham? Faz alusão a tudo, alguém de vela na mão procurando seu amor por uma noite escura, a chama também está na sua mão, por exemplo. E "estamos cá dentro de nós, sós...", gente, estar só dentro de si, putz, o Chico Buarque assinaria esse verso. Quem consegue mesmo estar só dentro de si? E ter consciência disso? E estar sós, dentro de si, a dois?
Inté, Alessandra. Inté, pessoal. (Não deu, né, Alessandra? Teu Lanus e meu San Lorenzo foram pra frente. Fazer o quê? Vou tocar um tango em homenagem aos dois. "Arranca-me La Vida", com Libertad Lamarque).

Mauro Chazanas said...

Alessandra, voce permite que eu exerça meu primeiro direito de réplica? Ahn, aliás, o segundo?
Quero agradecer à mediadora por sua proverbial generosidade e sem mais delongas, deixa compartilhar com voces essa maravilha, Ná Ozzetti e Itamar Assunção, "Canto Em Qualquer Canto":

"Vim cantar sobre essa terra
Antes de mais nada aviso
Trago facão, paixão crua
E bons rocks no arquivo
Tem gente que pira e berra
Eu já canto pio e silvo
Se fosse minha essa rua
O pé de ipê estava vivo

Pro topo daquela serra
Vamos nós dois vídeo e livros
Vou ficar na minha e sua
Isso é mais que bom motivo
Gorjearei pela terra
Para dar e ter alívio
Gorjeando eu fico nua
Entre o choro e o riso

Pintassilga, pomba, mélroa
Águia lá do paraíso
Passarim, mundo da lua
Quando não trino não sirvo
Caso a bela com a fera
Canto porque é preciso
Porque essa vida é árdua
Prá não perder o juízo"

E pra terminar esta curta réplica, duas estrofes do Chico Buarque, again, de "A Violeira":

"...E não tem tira,
Nem doutor, nem ziquizira,
Quero ver quem é que tira
Nós aqui desse lugar"

"Não tem carranca,
Nem trator, nem alavanca,
Quero ver quem é que arranca
Nós aqui desse lugar!"

Qualquer semelhança destes últimos trechos com nossa disposição de reeleger o Presidente Lula não é mera coincidência. Bom feriado pra todas e todos. Inté.

marcos said...

O meu refrigerador não funciona
Eu tentei tudo
Eu tentei de tudo
Eu tentei de tudo
Não funciona, não funciona
Não, não, nããããããããão

Mutantes... genial

Alessandra Alves said...

bem lembrado o chico césar!

eu acrescentaria "pétala por pétala":

"a tua falta me fez crer
o que que mau a vida pode ter
e a tua volta me dá mais
de todo mel que ousaria querer

tua presença me faz rir
nos dias feitos pra chover
não há revolta pra sentir
nem a maldade pra não quer

finda, que finda
a tinta de pintar tristeza
e deixa os mistérios
plenos de sentido
e a flor da vida toda

pétala por pétala
que um tolo pode querer
sem saber que é amor"

se bem que, esta canção, tem a melodia ainda mais bela que a letra, concordam?

mutantes!!! posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock´n´roll"

Anonymous said...

Que tal Dalto
"Hum!
"Mas se um dia eu chegar muito estranho
Deixa essa água no corpo lembrar nosso banho
Hum!
Mas se um dia eu chegar muito louco
Deixa essa noite saber que um dia foi pouco
Cuida bem de mim
Então misture tudo dentro de nós
Porque ninguém vai dormir nosso sonho"

Ou ainda, Vinicius

"Depois de um dia de saudade
De uma noite inteira a soluçar
Vem! Não tardes mais
Amor, que eu vivo procurando
Quando vais chegar?"

Montenegro

"Deixa em cima desta mesa a foto que eu gostava
Pr'eu pensar que o teu sorriso envelheceu comigo
Deixa eu ter a tua mão mais uma vez na minha
Pra que eu fotografe assim meu verdadeiro abrigo"

Bethania /Roberto

"Você só sabe
Que eu te amo tanto
Mas na verdade
Meu amor não sabe o quanto
E se soubesse iria compreender
Razões que só quem ama assim pode entender
Você não sabe quanta coisa eu faria
Por um sorriso seu"

(Não conheço o autor)
"Lá no alto da montanha
Numa casa bem estranha
Toda feita de sapé
Parei uma noite o cavalo
Por causa de dois estalos
Que ouvi lá dentro bate
Apiei com muito jeito
Ouvi um gemido perfeito
Uma voz cheia de dor
“Você Tereza descansa;
Jurei de fazer vingança
Por causa do meu amor”.

Almir Sater

"ANDO DEVAGAR PORQUE JÁ TIVE PRESSA
E,LEVO ESTE SORRISO,PORQUE JÁ CHOREI DEMAIS
HOJE,ME SINTO MAIS FORTE...MAIS FELIZ QUEM SABE...
EU SÓ LEVO A CERTEZA, DE QUE MUITO POUCO EU SEI,
E NADA SEI,"
Carlos Miguel

Mauro Chazanas said...

Chico César, de novo, em Beradero:

",,,uma moça cosendo roupa
com a linha do Equador,
e a voz da Santa dizendo
o que é que eu tô fazendo
cá em cima desse andor?"

Mais pra frente, na mesma canção:

"...e a cigana analfabeta,
lendo a mão de Paulo Freire..."

Gente, esse último verso é de arrepiar.

Mauro Chazanas said...

Alessandra, parece que vai sobrar pra mim fechar o boteco. Ah, tudo bem, que isso volta e meia acontecia.
Bem, agora, tá o garçom lá no canto, cabeça no balcão, ouvindo de mim:
" - Amigo, vê mais uma pra mim, por favor. Sem levantar a cabeça do balcão ele responde, voz sonolenta:
- Acaba essa primeiro. Não tem mais ninguém aqui. Voce não vai embora?"
Daí, sou obrigado, pra não deixar sem homenagem, a lembrar alguns versos famosos que não foram citados:

"Por onde for, quero ser seu par" (essa canção, "Andanças", não tem quem não não tenha ido em festa de fim de ano da empresa numa churrascaria e feito uma voz ou a outra, não é? Ah, ela é bonita, eu acho);
"Um homem também chora, menina, morena, também deseja colo, palavras amenas...".
Insisto com o garçom:
" - Ô amigo, essa já tá quente! Traz uma gelada, faz favor!
- Acabou. A gente desligou o freezer três horas atrás.
- Tem vodka? Gelada?
- Não. Não tem mais nada. Moço, eu moro longe e tenho que pegar "duas condução". Voce nunca mais vai embora?"

Daí, lembro-me daquela assim:

"Tá vendo aquele edifício, moço? Também trabalhei lá...foi um tempo de aflição, era quatro condução, duas pra ir, duas pra voltar..."

" - Amigo, essa é em sua homenagem.
- P...q...o...p...Moço, vai embora, por favor!"

"Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa, uma boa média que não seja requentada, um pão bem quente com manteiga à beça, um guardanapo e um copo de água bem gelada"

Bem, por essa manhã de domingo chega.
" - Ei, amigo, fecha a conta aí, faz favor. Que horas voces vão abrir mais tarde?"

Soninha said...

Sem tempo (eu já devia estar dormindo, e ainda preciso trabalhar!) e sem necessidade de explicar, só queria dizer que "Construção" é foda. Ô letra. Ô construção. Mas dele ainda tem um monte... Que tal a malvada "Quando você me quiser rever/ Já vai me encontrar refeita, pode crer/ Olhos nos olhos Quero ver o que você faz/ Ao sentir que sem você eu passo bem demais". Ou:

Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma coisa à toa
Uma noitada boa
Um cinema, um botequim
E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim

E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis

Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte
Te afasta de mim
Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim

Vixe, já demorei, copy/paste é rapidinho, mesmo assim tchau que eu vou trabalhar/ dormir.

Mauro Chazanas said...

Iupiii, reabriu o espaço! Ahn, Alessandra, será que é a "nossa" Soninha? Nossa, e eu estava desarrumado! Bem, não importa,iuupiiii! Reabriu o espaço!
Let´s work!
"Ai Que Saudade D´Ocê":
"Não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da tua casa, te der um beijo e partir, fui eu quem mandei um beijo, que é pra matar meu desejo, faz tempo que eu não te vejo, ai que saudade d´ocê..."
Caetano:
"Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede, são tantas vezes...gestos naturais!"
Chico Buarque, again:
"Nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drink num dancing, nunca mais cheers, nunca uma espelunca, uma rosa nunca, nunca mais feliz..."
E again:
"...e o rio Amazonas, que corre Trás os Montes, e numa pororoca, deságua no Tejo!"
Chão de Giz:
"E no mais, estou indo embora..."
Também vou cair fora (por enquanto).
Vou embora, cantarolando de novo o Chico:
"...com a leve impressão de que já vou tarde...".
Ah, melhor terminar com o Vandré:
"...mas sei que vou voltar...".

Alessandra Alves said...

mauro: é isso aí, o espaço pelo jeito estará eternamente aberto. não é uma "coisa" receber a visita DELA?!

soninha: construção me enche os olhos de lágrimas por muitos motivos, mas especialmente no verso: "morreu na contramão atrapalhando o tráfego (ou o sábado)". beijos!

e esse Aldir:

"...rubras cascatas jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas..."

e esse outro:

"...no dedo um falso brilhante, brincos iguais ao colar, e a ponta de um torturante band-aid no calcanhar..."

ou ainda:

"se eu devo dinheiro e vem um me cobrar,
a peste abre a porta e ainda manda sentar"
hahahahahaha, a-do-ro essa letra, de incompatibilidade de gênios.

Mauro Chazanas said...

Buon, giorno, Alessandra! Buon giorno, tutti voces!
Não gosto muito do Vinícius de Morais. Mas, desta a gente não pode esquecer, né, Alessandra? Até porque tem a melodia do Carlinhos Lyra:
"O meu amor sozinho
É assim como um jardim sem flor
Só queria poder ir dizer a ela
Como é triste se sentir saudade

É que eu gosto tanto dela
Que é capaz dela gostar de mim
E acontece que eu estou mais longe dela
Que da estrela a reluzir na tarde

Estrela, eu lhe diria
Desce à terra, o amor existe
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para não morrer

Não há amor sozinho
É juntinho que ele fica bom
Eu queria dar-lhe todo o meu carinho
Eu queria ter felicidade

É que o meu amor é tanto
Um encanto que não tem mais fim
E no entanto ele nem sabe que isso existe
É tão triste se sentir saudade

Amor, eu lhe direi
Amor que eu tanto procurei
Ah, quem me dera eu pudesse ser
A tua primavera
E depois morrer"

"...é que eu gosto tanto dela, que é capaz dela gostar de mim..." é inesquecível.
Boa semana, Alessandra, boa semana, gente.

Eduardo said...

Alessandra e galera, d+ o blog...
Desconheço o autor,

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que o homem que amo seja pra sempre amado mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a uma mulher inundada de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança
do que fui, a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também

Eduardo said...

Acabei de ver que a música acima é do Oswaldo Montenegro.
[]'s

Anonymous said...

É... Tem muita coisa boa prá gente ouvir, digo, prá quem tem bons ouvidos, né...
O seu amor, reluz que nem riqueza asa do meu destino, clareza do tino pétala, de estrela caindo bem devagar... Pétala/Djavan

Um dia frio, um bom lugar prá ler um livro, e o pensamento lá em voce, e sem voce eu não vivo... Djavan

Amigo é coisa prá se guardar, debaixo de sete chaves, dentro do coração, assim falava a canção que na América ouvi... Canção da América/Bituca

Eu nem sonhava te amar desse jeito, hoje nasceu novo sol em meu peito, quero acordar te sentindo ao meu lado, viver o extase de ser amado... Extase/Guilherme Arantes

Quando voce foi embora fez-se noite em meu viver... Travessia/Bituca

No sertão da minha terra, fazenda é o camarada que ao chão se deu... Fez a aobrigação com força parece até que tudo aquilo ali é seu... Só poder sentar no morro e ver tudo verdinho, lindo a crescer...
Morro Velho/Bituca

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim, não me valeu... Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim? O resto é seu. Devolva o "Neruda" que voce me tomou, e nunca leu Trocando em Miúdos/Chico e Francis Hime

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo, e com cinco ou seis retas é facil fazer um castelo Aquarela/Toquinho

Gente, tem muita, muita música boa, desses caras, verdadeiros artistas, verdadeiros poetas, que escreviam com o coração... Passado tanto tempo, mas parece que foi ontem, ainda nos emocionamos com suas obras, e daqui a cem, duzentos anos, alguém ainda vai ser fã, alguém ainda vai se emocionar. Valeu, gente é a primeira vez que visito o blog, e agora serei sócio de carteirinha, pois sou apaixonado por esta verdadeira MPB.