Thursday, April 24, 2008

Aperta que ele cria?

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No post sobre o "Clube da Esquina", um comentário do leitor Mauro Chazanas me chamou muito a atenção. Tanto que tomo as palavras dele emprestadas e lanço a discussão: será que os grandes autores da era de ouro da MPB criaram mais e melhor durante a ditadura? O fim do regime autoritário, coincidindo com uma fase menor na carreira desses artistas, estaria diretamente ligado à baixa criatividade?

As palavras do Mauro, literalmente:

"O assunto é: até que ponto o período de maior criatividade da MPB - pra ficar só na MPB - "dependeu" da existência da ditadura militar pra florescer. Deixando bem claro, nem quero correr riscos por isso quero evitar equívocos, não estou dizendo que a ditadura ajudou de qualquer forma os artistas, pelo contrário, todo mundo sabe ou melhor, todo mundo sabe o que veio à público sobre o que a ditadura fez, também em relação à àrte - "Maninha", do Chico: "(...) pois hoje só dá erva-daninha no chão que ele pisou(...)". Estou me referindo à contradição de, num regime onde classificá-lo de "autoritário" seria ser suave, brotar tanta beleza, riqueza.
E de onde vêm os fatos para se chegar a esta pergunta? Por exemplo, dois ítens: um, pela comparação entre o número de compositores e letristas - de novo, lembrando que estou só falando de MPB - surgidos na época, de tantas e tantas canções e o número de novos artistas (que permaneceram ou permanecerão como eles, como Chico, Milton, e os mais)surgidos depois da ditadura; dois, pela produção daqueles mesmos artistas no pós-ditadura. Dá, acho - e aí talvez haja polêmica - pra separar a obra do Milton, do Chico, do Caetano, do Gil e tantas e tantos entre o que criaram na ditadura e o que veio após seu fim. Fizeram muita coisa boa depois sim, mas em menor número do que eles mesmos fizeram antes.

Mais uma coisa pra não deixar dúvidas, não estou querendo dizer com isto que a ditadura teve lá seus méritos. Não reconheço nela mérito algum. Não teve um dia sequer de minha vida escolar, do primário até meu comêço de USP que não fosse sob o tacão daquela turma. Não tenho saudades. Todas as canções jamais feitas não valem o que eles fizeram."

Eu tenho uma opinião sobre este tema, e vou deixá-la para a caixa de comentários, debatendo junto com vocês. Vamos nessa?

10 comments:

L-A. Pandini said...

Eu entendo o comentário do Mauro, até porque esse pensamento (ou mesmo dúvida, como ele honestamente colocou) é bastante comum entre muita gente. Mas tenho outra teoria - bastante simples, por sinal. Quando a ditadura acabou, esses cantores já estavam na faixa dos 40, 50 anos e plenamente estabelecidos, encaixados dentro do - digamos - "mainstream" da MPB. É evidente que a fase de maior afirmação, disposição e até necessidade para a criação, a contestação, a experimentação havia passado. Seria assim sob ditadura ou sob democracia.

Como o próprio Mauro coloca, a ditadura não teve méritos. A geração de Chico, Gil, Caetano e Milton teve é muito azar por ter sua juventude e seu auge criativo coincidido com a ditadura. Nos resta especular (só especular, porque resposta nunca teremos) sobre o que eles teriam feito se o Brasil tivesse continuado sob o regime democrático instaurado em 1945.

Hoje, todos estão com mais de 60 anos e querem mais é ficar no "dolce far niente". Quem não o faria, estando nessa idade e tendo meios para isso?

Só para enriquecer o debate, vamos pegar os Beatles, que não viveram sob ditadura alguma. Depois que eles se separaram, o único que esteve constantemente nas "paradas de sucesso" foi Paul McCartney. John passou um bom tempo longe de estúdios e palcos para cuidar do Sean, George colocou a espiritualidade em primeiro lugar e Ringo ficou na dele. Algum deles fez algo revolucionário depois de 1970? Não. Fizeram belas canções, todos eles, mas nada que pudesse ser comparado à reviravolta que o som dos Beatles causou. Como nossos astros da MPB, já estavam consagrados. Já haviam dado sua contribuição para a linha evolutiva da música. (LAP)

L-A. Pandini said...

Ah, só para concluir. Certa vez, ainda durante a ditadura, Henfil escreveu uma idéia de filme sobre o que aconteceria com a classe artística quando viesse a democracia. E o ponto era justamente esse: sob liberdade, os artistas se sentiam "sem inspiração" para criar. Aí, foram todos para um sítio e, para criar um clima de perseguição, contrataram alguns agentes de repressão política, desempregados com a chegada da democracia. Só que a coisa desandaria, a encenação passaria a ser realidade... E mais o Henfil não disse, para não entregar todo o ouro.

Marcio Gaspar said...

Assino embaixo, tudo o que o Pandini escreveu. Tá certíssimo, meu caro!

Herik said...

Não acompanho a maioria que normalmente vincula a produção musical de Chico e cia. com o período de ditadura.

Na minha opinião o que mudou mesmo foi o mundo, mundo em que domina o politicamente correto, a chatice em geral. E com os novos tempos mudaram também as pessoas, assimilando as novidades como cada se apresentava aos seus espíritos. Exemplo disso que Chico continua adepto dos pensamentos políticos de esquerda enquanto Caetano Veloso transfornou-se num sujeito de direita, extremamente reacionário. Um cara que está mais preocupado em fazer música para ganhar o Grammy do que qualquer outra coisa.

O mundo mudou. Esse artistas mudaram. Como mudou a Rita Lee, mudança citada por você mesma quando escreveu um texto sobre uma matéria sobre ela na Rolling Stone. E, claro, nós também mudamos e enxergamos a produção artísticas deles de forma diferente.

Ron Groo said...

Uma conjunção de fatores...
Amadurecimento musical e pessoal, acomodamento profissional.
Veja o caso dos Rolling stones por exemplo, nunca tiveram que enfrentar problemas com corrente politica alguma, mas sua obra após os vinte anos de carreira também degringolou. É só ouvir o tisico Undercover of the Night, que é o disco que marca a passagem da linha dos vinte.
Paul McCartney também soltou um disquinho mequetrefe após os vinte anos de carreira Tugs of War.
Por isto que penso não ser o fim da ditadura o motivo da obra de nossos emepebistas ficarem um pouco mais rarefeitas. Sim, rarefeitas porque mesmo em discos digamos, um pouco mais pobres é possivel garimpar pepitas de raro brilho...

Alessandra Alves said...

"você, que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar..."

o verso de "apesar de você", de chico buarque, explica parte do meu pensamento sobre o assunto. a música, que foi censurada na época em que foi composta, liberada depois, era uma clara referência à ditadura militar. a ditadura talvez nem tenha inventado a tristeza, mas a incorporou à vida brasileira tal como ato institucional. a situação política e social do brasil naquela época era uma forma de tristeza a comover, sensibilizar e, por que não?, inspirar os poetas.

mas se é verdade que poetas se inspiram no sofrer, não é menos verdade que a vida, em qualquer época, pode ser um manancial praticamente inesgotável de tristezas. sofre-se pelo amor ausente, pelo amor perdido, pelo outro que sofre, por não se ter dinheiro, por não se realizar um sonho. nunca faltaram musas, nunca faltaram dores, em todas as épocas, para todos os poetas.

alguns podem argumentar que a ditadura instigava poetas como chico a criar metáforas para driblar a censura. ora, se a ditadura não inventou a tristeza, muito menos inventou a metáfora. já muito tempo depois de finda a censura, chico nadava de braçadas na criação de imagens metafóricas, não fugindo da censura, apenas da obviedade.

como descrever "o futebol", uma magistral comparação de chico entre o esporte e o ato de compor, posterior ao regime de exceção, senão como uma belíssima metáfora? tentava chico driblar a censura? não! dava um olé na mesmice, isso sim.

concordo com tudo o que foi escrito por aqui. grandes artistas são os que inovam, se arriscam, ousam sem medo. isso, em geral, se faz na juventude. aquela geração da segunda metade dos anos 60 reuniu uma quantidade inédita de extraordinários compositores, que floresceram musicalmente junto com o auge da ditadura.

mas, e a turma que veio antes? tom jobim, por exemplo, teve seu auge criativo no fim dos anos 50, começo dos 60. faltou ditadura para eles. faltou inspiração, também? claro que não. tom deu ao mundo o seu máximo quando vivia, ele mesmo, a flor da idade. assim como chico, caetano, gil, milton etc. diminuíram o ritmo de produção de obras-primas, tom já estava "assentando" enquanto os mais novos ainda produziam freneticamente.

o "mal" daquela geração foi reunir tantos gênios de uma só vez. qualquer coisa que viesse depois ficaria, na comparação, em desvantagem. até a comparação deles com eles mesmos...

Anonymous said...

Alessandra, antes do mais deixa te dizer que me senti honrado por teu destaque. Obrigado, viu? Como se diz no interior do estado de São Paulo, é muita areia pro meu caminhão (ao que algum engraçadinho emenda: tudo bem, a gente faz duas viagens).
Concordo com quase tudo que foi falado, especialmente com Pandini e Alessandra, no campo da possibilidade. Pode ser que a idade tenha pesado(sobre a idade, no entanto, e apenas como exemplo e inclusive escolhendo um exemplo que não dá pra afirmar que é porta-voz da esquerda - nisso concordo com o Herik embora também não considere ele o típico cidadão de direita, parece mesmo a metamorfose ambulante do Raul Seixas -, a saber, Caetano Veloso, a gente vê que ele ensaiou pegar um caminho novo, que não me lembro de alguém ter feito antes e isso após a ditadura: catou algumas canções brega, tacou uma roupagem nova, emprestou sua voz, seu charme e seu jeito misturado de João Gilberto, Chet Baker e Bola de Nieve de cantar e gritou pra todo mundo: isto também é música! "Sonhos" com o autor, Peninha, é uma coisa. Com o Caetano é outra. Mas parece que foi uma experiência que ele mesmo logo abandonou).
Minha dificuldade está em compreender porque não surgiram mais nomes de igual valor aos do período do regime militar. Talvez, e aí vai uma hipótese meio louca, é porque quando começa a abertura, os jovens vão pras ruas fazer política, o violão fica na sala. Não sei. Tem muita gente com violão por aí, mas não no mesmo nível.
Bom, senti isso em relação à MPB, não sei se este aparente refluxo deu-se no mundo inteiro. Não sei se este fenômeno também se dá no rock, não entendo nada de rock. No jazz, por exemplo, não sei de quantas décadas pra cá não há nada de revolucionário, parece que toda uma estrada termina com o Miles Davis e a turma do cool, depois entrou em parafuso, não sei se voces concordam.
E é uma tremenda coincidência que este "derrapar" do jazz começa quando começam as grandes lutas nos USA pelos direitos iguais dos negros. De novo a comparação: é hora de marchar, irmão; deixe o trompete em casa.
Por fim, talvez o que esteja ocorrendo seja apenas um sintoma de um novo tipo de ditadura, mais difícil de se enfrentar, a ditadura do mercado. Só ouvimos o que é gravado e só é gravado o que as indústrias gravam. Elas decidem.
Pode estar acontecendo a continuação deste rio de criatividade pelo Brasil afora, ele só foi desviado pra longe de nossas casas.
Perguntas, perguntas sem fim. Mas como é bom perguntar, ter o direito de perguntar, não?
Ouçamos então, pra mim a melhor canção na MPB sobre perguntas: "Almanaque", com o Chico.

José A. Matelli said...

Junto ao que todo mundo falou aí em cima, eu aponto também a qualidade da educação. Acho que com ou sem ditadura, teríamos essa geração brilhante, porque é indiscutivelmente inteligente e culta. Acho apenas que os temas seriam outros. Mas convém notar também que, mesmo no perído da ditadura, havia grandes músicas sobre temas não políticos. Tudo fruto de um cuidado maior com a educação pública, de uma época em que professor de escola primária tinha status, onde se aprendia francês e latim. Onde se aprendia educação artística de verdade, estudos sociais etc. Hoje, colhemos os maus frutos de uma educação pública entregue às traças, escolas que não ensinam nem o valor da cidadania e nem da coisa pública, gerações perdidas que mal sabem ler um texto simples, o que dirá apreciar uma boa música. Fazer boa música então...

Ron Groo said...

Ah, me lembrei de uma frase do Mestre B B King que resume um pouco a queda na qualidade dos caras que a gente gosta ai...
Disse o grande rei da Gibson 335 Lucile: "-Não é possivel fazer um bom blues de barriga cheia!"
Logo a prosperidade, que é inerente a quem trabalha com qualidade e afinco chegou e os nossos herois ficaram 'de barriga cheia' daí um pouco menos de zelo na produção...
Só um ps: Caetano nunca foi lá muito politizado... vou postar sobre ele nos proximos dias.

Akinol said...

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