Thursday, February 21, 2008

Regi, o rebelde

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Nestes tempos de detectores de mentira, não convém faltar com a verdade. E a verdade é que passei a gostar mais de Fórmula 1 graças a Ayrton Senna. É fato que o primeiro campeonato que segui foi o de 1983, anterior à estréia de Senna, vencido por Nelson Piquet. Mas Senna tinha alguma coisa de familiar para mim: sua família morava no meu bairro, ele havia estudado na mesma escola que eu, inclusive com algumas das minhas professoras. Era como se um vizinho, que eu não conhecia (mas, e daí?) de repente ganhasse o mundo.

Acompanhei os primeiros anos de Senna como entusiasta de automobilismo. Os últimos, como repórter. Preferia ter ficado só com a primeira parte. Talvez uma das maiores decepções que tive foi conhecer Senna pessoalmente. O herói obstinado e patriota que nos surgia na TV era habitualmente arredio e descortês longe das câmeras. Problema meu, eu diria, pois, apesar de minha mãe certamente achar o contrário, nem todos precisam me tratar bem. Mas comecei a sentir que o problema não era só meu quando passei a ligar alguns pontos.

Senna dava respostas enviezadas e não escondia o mau humor até acender-se a luz da equipe da TV Globo, detentora dos direitos de transmissão da Fórmula 1 desde o paleolítico. Neste instante, como por mágica, sua fisionomia se transformava e então eu reconhecia o herói obstinado e patriota da minha adolescência. Vi a face do mito e logo entendi por que meus colegas mais experientes costumavam ser tão detratores em relação à postura do piloto.

Era nesse contexto que transitava o comentarista Reginaldo Leme, da própria Globo. Vigorava na época o veto de Senna às entrevistas com Reginaldo. Eles haviam brigado e o piloto simplesmente se recusava a falar com o jornalista. Essa tensão entre os dois acabou emprestando a Reginaldo uma aura de herói perante seus colegas de imprensa. O veto de Senna era quase um troféu. Como se Reginaldo tivesse lavado a honra de todos nós, acostumados à grosseria do mito.



A história da briga e muitos outros episódios da vida profissional de Reginaldo Leme estão nesta completíssima entrevista feita por Bruno Vicária para o site Grande Prêmio. Depois de conviver com Reginaldo, de ter trabalhado com ele no primeiro de seus anuários AutoMotor, tenho convicção de que a admiração que os colegas nutrem por ele está muito, mas muito além da briga. Regi, como o pessoal o chama, é muito mais que um rebelde. É um grande cara.

14 comments:

Alessandra Alves said...

e é irmão do Dinho Leme, baterista dos Mutantes, pô!

Marcelo Arruda said...

Pensei que você ia esquecer disso, Alessandra... rs

Aproveitando: lendo a excelente primeira parte (tô esperando ser postada a segunda) de novo tenho a sensação de "eramos felizes e não sabiamos". Pela 16416416141a vez isso é escrito aqui, eu sei, mas fiquei pensando que trabalhar com a lembrança desta época é trabalhar com aperda de qualidade que existiam pno automobilismo e que não existem mais pois o clima todo mudou em torno dele.

Ou foi o mundo mesmo que deu voltas e nos deixou tontos?

PS.: não sei é eu estou mal-acostumado ou se leio muito de F1, mas não está um Auê exagerado das ùltimas declarações do Sr. Bernie Eclestone? são lamentáveis? Muito. Mas quem acompanha razoavelmente f1 não se surpreende com o figura ter falado aquilo...

Ron Groo said...

Mesmo sem ter lido a entrevista - o que o farei mais tarde - Eu sempre fui meio desconfiado do 'idolo' que era sempre solicíto, que foi endeusado exageradamente. Sei lá. Participei de uma polêmica no GPtotal com alguns leitores e Ernesto Rodrigues, sobre os trechos fora de contexto retirados de seu (bom livro) "O heroi revelado". Adorava ver o que Senna fazia nas pistas, mas fora delas, sinceramente... Não me fazia mossa, Afinal ele não era engraçado como era Piquet.
Quanto a Reginaldo Leme... Oras é um dos únicos motivos pelo qual nós aguentamos a transmissão 'oficial' da globo.
Foi o primeiro jornalista que falava sobre automobilismo ao qual eu realmente prestei atenção. Na verdade eu não sabia que existiam.
Agora vou ler a entrevista...
Abraços Alessandra!

Rafael said...

Com o perdão da palavra, o Reginaldo é f**a.Sou muito fã dele.

Fabiano said...

Sou fã de Ayrton Senna e do Reginaldo Leme, até do Galvão. Mas ninguém é perfeito, nem Senna, nem o Reginaldo nem o Galvão, eu, vocês, niguém.

Paciência.

Fabiano

Alexandre Ribeiro said...

Grande texto, Alessandra!

Revelações como estas são importantes demais para nós que não tivemos a oportunidade de conviver com as feras como você.

Parabéns!

Tho said...

Pois é, Alê.
O Senna tinha um relacionamento estranho com a mídia, usava isso para seu benefício, mas não da melhor forma.

Minha namorada fez o TCC dela (de jornalismo) exatamente sobre isso, o relacionamento do Ayrton com a imprensa. Se você quiser, eu te mando por email.

Acho que o França também fez nesse esquema, por coincidência, na mesma época.

Beijão!

Anonymous said...

O Reginaldo Leme se mistura com a historia brasileira na F1 .
Lembro de uma outra entrevista ,também muito boa ,para a revista Auto Esporte no final dos anos 80 ou inicio dos 90 ,não lembro o ano certo, mas teve um relato muito interessante de um momento antes da decisão de 81 quando ele cruzou com o Piquet que estava indo correndo para o banheiro antes da largada.
Reginaldo estava sozinho,perguntou a ele se estava nervoso e desejou boa sorte ,Piquet de passagem não respondeu nada ... três a quatro metros depois o piloto voltou ,apertou a mão do reporter e agradeceu com um solitario "obrigado".Reginaldo disse que Nelson estava com a mão gelada.Ele não contou nada para a TV neste dia ,coisas do carater do Reginaldo, disse que era um momento dele com um amigo .

Felizmente as boas entrevistas voltaram ,pelo menos no Grande Prêmio.

Jonny'O

Celinho Boy said...

Puxa. Alesseandra, muito boa a entrevista com Reginaldo Leme. Vcs notaram que ele é bem calmo nos comentários, nada de firulas, ou de comentários maldosos(pelo menos não me lembro), apenas a corrida e nada mais? O cara conhece bem as coisas e surgiu numa época em que o automobilismo não tinha a força que tem hoje.
Adorei a história do futebol, bem como a questão da briga com o Senna.

Eu era muito novo e a mídia nunca me passou a imagem de avesso a imprensa. Já vi ele em casos de marrentice, mas não imaginava que chegaria a este ponto. De qualquer maneira, ele, junto com o Piquet e o Fittipaldi(o pioneiro, por sinal), ajudaram a popularizar a F-1.

Fugindo do assunto, mas ainda no automobilismo, o que tens achado desta polêmica envolvendo o Renato Russo, que acusou os pilotos da Stock Car de se chaparem ou beberem antes da corrida?
Beijos e abraços

mario lago said...

buenas dona alessandra, já em quarto, ein(?)(!). eu, leitor comum, distante, não o conheço, como a muitos que admiro. vc tem razão, ele é o cara. engraçado, as duas melhores das "grandes entrevistas" no gp ocorreram com jornalistas. esta tribo especializada, mais do que nos relatar os fatos, tem também muito a dizer quando nos emprestam sua ótica.

mario lago said...

em tempo: a outra entrevista a que me refiri foi a do cláudio carsughi, um verdadeiro cavalheiro.

eu mesmo said...

referi

Paulo Cesar said...

Alessandra Alves eu também tive uma decepção com o Piquet ele fui pedir um autográfo e ele mandou eu tomar no **, um amigo meu foi pedir uma autógrafo pro Piquet e ele pegou a camiseta e tocou na cara dele. Isto acontece, infelizmente tanto o Senna como o Piquet são pessoas difíceis. Diferentes do Fittipaldi e do Barrichelo que são fáceis no trato.

Paulo said...

Tanto o Senna como Piquet são pessoas de fases...o Piquet era horrível no trato com as pessoas quando ele era considerado o melhor piloto do mundo até mais ou menos 1985...ele xingava as pessoas tentou bater em vários repórter, não dava autógrafos para ninguém a não ser que a mulher fosse muito bonita, mas aí ele estava com segundas intenções.. etc...depois do confronto com o Mansell em 1986, todo mundo começou a dizer que o melhor piloto do mundo era o Prost e não o Piquet e ele a partir daí se acalmou...em 1988 na Lotus virou uma pessoa super legal quando eu encontrava ele, ele dava autógrafos, conversava, brincava...acredito que o fato dele ser pouco assediado fez ele melhorar, mas antes de 1988 o Piquet era arrogante...e antes de 1986 era psicopata...depois de 1988 era o verdadeiro Piquet.

Já Senna eu conheci ele em 1984 no Brasil foi bem legal com a gente, mas era tímido, depois na Lotus continuou acessível dava autógrafos, conversava, mas quando entrou na Mclaren mudou muito ficou metido a superstar, não dava autógrafo nem para para mulher bonita...não estou chamando ele de ***, o Senna é tímido, mas em 1993 depois que ele conheceu a Galisteau ele mudou da água para o vinho e voltou a ser legal...estávamos no Gp do Brasil e ele foi bem legal com a gente no restaurante... ele estava irreconhecível, parecia feliz com a Galisteau...e sei de várias pessoas que disseram que o Senna de 93 e 94 é o verdadeiro Senna...Acredito que o excesso de Stress fez que tanto o Senna como o Piquet ficassem diferente...mudando de personalidade.

Por isto Alessandra seja mais tolerante...eu conheço demais as mulheres bonitas elas querem ser paparicadas...é provável que o Senna tenha sido frio com você, daí o seu ódio por ele...