Thursday, February 14, 2008

Autofagia esportiva

Quando completei onze anos e os primeiros raios da puberdade evidenciaram os arranhões em minha auto-estima, decidi fazer dieta. Weight Watchers, os Vigilantes do Peso, lá fui eu. Lembro das reuniões semanais e de uma mulher que tirava dúvidas, e das palmas a cada subida vitoriosa na balança, e de que essa mulher dizia que podíamos comer "folhas verdes à vontade", como se alguém tivesse vontade de comer chicória e alface...

Auxiliar da dieta foi a atividade física que comecei a praticar naquele período. Muito antes de virar corredora amadora, dei minhas raquetadas nas quadras do Acre Clube, uma agremiação familiar perto da casa onde eu morava, clube do qual meu avô tinha sido sócio fundador.

Quadra de saibro, aquela poeira toda. Quando chovia, naturalmente, não tinha aula. Em geral, íamos para o clube em turma, eu e dois ou três primos, todos praticantes. Com minha vocação natural para entrar de cabeça em todas as causas, especialmente as que se referem a atividades físicas, não me limitei às aulas. Jogava no meu período e continuava na quadra durante as aulas dos meus primos, servindo de gandula para o professor, um colombiano chamado Henrique. Ou seja, ficava umas duas horas correndo, fosse para rebater a bola, na minha aula, ou para apanhá-la, nas aulas dos outros.

Vigilantes do peso mais gandula de tênis, emagreci à beça, claro. Eu já tinha ligações anteriores com tênis, pois minhas primas mais velhas haviam desenvolvido respeitáveis carreiras juvenis, abandonando a competição no início da vida adulta. Nesse período, no entanto, fiquei ainda mais ligada ao esporte. Belos tempos, aliás. O cenário masculino era dominado por Bjorn Borg e pelo instável, porém adorável, John McEnroe. Entre as mulheres, Chris Evert passava o cetro e a coroa para a eterna Martina Navratilova.

Apesar de abandonar as aulas uns dois anos depois, nunca deixei de gostar de tênis e de assistir pela TV. Acabei virando setorista do assunto quando trabalhei na Folha de S.Paulo, cobrindo torneios aqui no Brasil, ainda nos tempos de Luiz Mattar e Jaime Oncins.

Nessa época, início dos anos 1990, eu não poderia suspeitar que o país, um dia, teria o tenista número 1 do mundo. Era algo distante, inverossímil. Estar no grupo principal da Copa Davis já era um feito e tanto. Quando perguntava a técnicos e jogadores quem poderia alçar vôos altos no ranking, quase todos eram reticentes. A maioria deles, no entanto, citava um extraordinário jogador que havia ficado pelo caminho, Marcelo Saliola, reputado como uma fora de série que, de uma hora para outra, abandonou o esporte.

Em 1992, 1993, eu não conhecia o nome Gustavo Kuerten.



De fato, Guga apareceu meio do nada. Não que tenha nascido tenista campeão do dia para a noite. Trilhou uma carreira consistente, mas longe dos holofotes da mídia. Os veículos de comunicação, em geral, só tiram os olhos do futebol e os pousam em outras quadras quando algo extraordinário acontece. Guga aconteceu em 1997, vencendo o primeiro de seus três Roland Garros.

De boné na cabeça, com a aba para trás, recebeu o troféu com seu jeitinho de manezinho da ilha. "Obrigado por esse sorriso" era a manchete do L´Équipe, no dia seguinte. Foram anos de conquistas memoráveis. Guga chegou ao topo do ranking, o que já parecia sonho para um tenista do Brasil, mas não parou aí. Foi o primeiro sul-americano a encerrar um ano como número 1, ficou 43 semanas seguidas no alto da classificação mundial.

Guga, como tantos outros tenistas do presente, não foi derrotado por um adversário mais forte, do outro lado da quadra. Perdeu para o próprio corpo, comprometido pelo excesso de esforço. Não quer dizer que os tenistas do passado jogassem menos que os de hoje. Significa, apenas, que o esporte de competição passou a sobrecarregar de forma desumana seus atletas.

O excesso de treinamento, pela necessidade de músculos hipertrofiados, tem deixado uma lista extensa de jovens esportistas precocemente aposentados. Guga foi feliz e nos fez feliz por um breve tempo. Tem todo o direito de se sentir realizado. Mas poderia ficar na ativa por mais tempo, não fosse o físico combalido.

Nos tempos do efêmero, todos parecemos discípulos de Vinícius de Moraes, conformados com o destino de tudo ser "infinito enquanto dure".

7 comments:

Marcus said...

Gosto muito do jeito como você narra suas reminiscências. Consigo visualizar cenas, sentir cheiro das coisas...

Abração.

Anonymous said...

Que tristeza!
Primeiro foi o Barros ,agora o Guga,os dois são duas exceções sem falar no atletismo,e infelizmente seus feitos não deram em nada de efetivo para seus esportes,uma pena.
Mas parecia um sonho quando o Guga chegou ao topo ,como vc disse era algo distante .
E fiquei com uma duvida,que recorde é este?

Jonny'O

Alessandra Alves said...

marcus: obrigada! espero que cheire bem... hehehe

jonny´o: o guga foi o primeiro sul-americano a terminar um ano como número 1. ficou por 43 semanas nessa posição, o que lhe dá, ainda hoje, o 11º lugar na história, à frente de nomes como Boris Becker, Mats Wilander e Ilie Nastase. obrigada pelo toque, modifiquei esse parágrafo para ficar mais claro. abraço!

Ron Groo, gordinho too said...

Eu gosto de tênis, e vou gostar muito mais quando conseguir enxergar a bolinha...
Tenho comigo que este ocaso de carreira do Guga poderia ser menos triste, ou menos marketeiro, tivesse ele parado enquanto ainda estava no auge e já sentia o peso de uma contusão - que não me engana, já sabiam ser muito penosa e quase irrecuperável - nos quadris.
Pois bem... Guga é da mesma estirpe de homens como Senna, Piquet, Pelé, Maria Esther Bueno, que hoje se fala muito pouco, porém foi ela com graça que abriu os olhos do Brasil para o tênis e a porta do tênis internacional para o Brasil...
Ao guga nossos respeitos e agradecimentos, com a ressalva que já fiz ai em cima.
E Alessandra, era gordinha? Vixe, os vigilantes do peso funcionam mesmo...

Anonymous said...

É verdade, o cara recebeu o troféu de boné virado mesmo, mas o melhor era aquela camisa "discreta" que ele usou no torneio.
Grande cara, vai fazer falta.

Abraço

Luizano

Gabriel Pandini said...

Nunca imaginei que vc ia fazer um post do Guga
Mil beijos
Gabriel

Caíque Pereira. said...

Alessandra,
Fui atleta federado até meus 21 anos e nestes outros 31 continuei a ter uma vida esportiva até ser abalroado por uma Kombi (mas já estou em plena forma e praticando). O que posso garantir, acompanhando esportes até hoje, é que "O esporte de Alto Nível" é nocivo à saude, aliás, tudo que é em exagero é nocivo.