Monday, February 18, 2008

Para gostar de ler - A pedra do reino


Por ocasião dos dois anos deste blog, citei brevemente os assuntos aqui debatidos e causei estranheza em um dos leitores, o Celinho Boy, lá do Sul. Ele comentou que não se lembrava de ter lido muita coisa sobre literatura aqui, e percebi que ele tinha razão. Na verdade, apesar de ser leitora voraz, nunca me ocorreu usar este espaço para compartilhar as impressões que minhas leituras me causam.

Encontrei uma boa ocasião agora, logo depois de passar algum tempo mergulhada no universo sertanejo de Ariano Suassuna, lendo "Romance d´A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta", primeiro compromisso do ano no Clube de Leituras do exclente blog O biscoito fino e a massa, clube do qual, nas palavras do Idelber Avelar, dono do blog, sou "sócia fundadora".

Com este texto, inauguro a seção "Para gostar de ler", nome inspirado em uma simpática coleção de livros, lançada no início dos anos 1980, que tinha o objetivo de incentivar o hábito da leitura entre o público jovem. É este espírito pueril que predomina na seção, na qual pretendo compartilhar as impressões dos livros que vou lendo. E o próximo post da série já tem nome - "Os funerais da Mamãe Grande", de Gabriel García Márquez, que acabei de ler. Mas vamos à Pedra do Reino!

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Um livro da gota serena

Quando o professor Idelber Avelar propôs o desafio, nem pensei em recusar. O Clube de Leituras do Biscoito tem sido uma excelente oportunidade para introduzir autores novos em minha biblioteca, para dividir impressões e para retomar o antigo exercício de interpretação de texto. Quando, no entanto, dei de cara com a obra, já na livraria, pensei em desistir. Mais de 700 páginas de uma saga sertaneja. Me deu calor só de olhar a lombado do livro. Desistir não é meu verbo, encarei.

Que ninguém acuse Ariano Suassuna de ter escrito uma história meio sem pé nem cabeça. Primeiro porque as cabeças rolam mesmo, em toda a trama, numa seqüência de degolas que acaba virando até banal. Volto às cabeças cortadas depois. Importante é perceber, desde o primeiro capítulo, aqui chamado de folheto, na convenção da literatura de cordel, que o esforço do personagem narrador está muito mais na construção do grande romance do que necessariamente na história, ou pelo menos na linearidade dela.

Um esforço para resumir o livro: narrado por Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, que se auto-intitula Rei do Brasil e almeja o posto de Grande Gênio da Raça, a história começa em 1938. Para se tornar esse grande gênio, Quaderna deseja escrever a maior epopéia de todos os tempos, superando inclusive Homero, cuja real existência ele mesmo contesta. Assumindo a função de "epopeieta", ou seja, de escritor de uma epopéia, Quaderna vai narrando as trágicas histórias que o levam a acreditar em sua ascendência real, remontando ao século anterior. Depois de situar o leitor em um caldo onde fervilham o sebastianismo, aqui transmutado em um contexto agreste, os símbolos da monarquia, os elementos rudes do sertão, as referências recorrentes ao jogo de baralho, Quaderna expõe a própria trajetória, pontuada pela influência de dois mestres, tão antagônicos quanto complementares. O aristocrático e branco Samuel, monarquista, e o mestiço Clemente, radical de esquerda. Do embate entre os dois surgem as passagens mais cômicas do livro, levadas sob a ótica do ridículo, como no duelo armado de penicos (!), além de frutificar em Quaderna sua própria ideologia e seu direcionamento como "epopeieta" e candidato ao título de Grande Gênio da Raça.

Da mesma forma que o livro me pareceu mais sobre o ato de escrever do que sobre uma história em si - configurando-se em um meta-livro - o embate entre Samuel e Clemente, ou entre a direita e a esquerda, surgiu-me como uma grande caçoada nas duas vertentes. Quaderna, ali personificando o artista em formação, fica à mercê das duas forças antagônicas e radicais, tornando-se um híbrido de características às vezes risíveis. Um exemplo disso é a ideologia professada pelo autor/narrador, ao se assumir como um... monarquista de esquerda, resultado desse cruzamento esdrúxulo. Estaria Suassuna rindo da disposição do artista, em absorver feito esponja os ditames desta ou daquela ideologia, até tornar-se um ser ridículo, próximo do louco?

Do início ao fim do livro, cabeças rolam, degoladas em cenas diversas e revividas. A cabeça de Dom Sebastião, origem do mito a partir da Batalha de Alcácer-Quibir, cabeças cortadas a mando de Dom Ferreira-Quaderna, antepassado do narrador, intitulado "O execrável". Perder a cabeça é perder o juízo, cometer desatinos, ficar louco. Loucura talvez seja uma definição óbvia para a mente febril de Quaderna. Perder a cabeça, aqui, talvez seja também a simbologia de substituir radicalmente uma idéia por outra, remontando ao embate de forças que permeia o livro - direta e esquerda, monarquia e socialismo, aristocracia e burguesia, sertão e engenho.

A Rede Globo levou ao ar uma minissérie baseada no romance, sob a aprovação entusiasmada de Suassuna. Não assisti. Quem viu e quiser comentar, seja bem vindo. Quem mais leu "A pedra do reino"? Convido os leitores a ler também os comentários lá no Biscoito.

Entre o entusiasmo da proposta, a dúvida na livraria e o envolvimento com o livro, fico com o primeiro e com o terceiro. É um livro para leitores obstinados, vale a pena.

12 comments:

Anonymous said...

Traduzir um bom livro em um seriado ou em um filme é complicado e invariavelmente o resultado fica aquém do esperado pelo leitor, ao menos nas adaptações que eu acompanhei. Talvez a culpa seja minha pois crio um universo particular baseado no livro que quero que seja transportado para a tela exatamente como a minha percepção capturou. E isso, já é pedir demais.... mas em tese, é o que todo leitor quer. lembro de ler um estranho no ninho e sempre associar o irlândes e vermelho Randall ao rosto de Jack Nicholson..."culpa" do oscarizado filme de 1976. Stephen king então é covardia, existe um hiato muito grande entre o imaginado e o formalizado em três dimensões. Vários exemplos eu poderia citar mas vamos falar de Pedra do Reino: não li e confesso que a trama assistida na televisão me causou certa estranheza pelo excesso. Muitas cores, interpretações carregadas de propósito, muito lúdico, muita tentativa de fazer poesia na tela, uma narrativa pesada pelos muitos floreios artísticos, enfim....um grande bolo muito enfeitado. Parece uma mistura de circo du soleil com teatro de rua, com saltimbancos, com shaekspaere (escrevi correto?), com idade média, com barroco, com vidas secas...muita arte por centímetro de película, uma cena querendo ser mais impactante que a outra. Ou seja, é um "dia de maria" mais confuso que não demanda apenas leitores obstinados, mas também telespectadores. Culpa do seriado se eu não chegar a ler o livro (rs)....de minha parte, prefiro "poesia" mais linear como "Os Maias" para ficar nas últimas adaptações da Globo, ou mesmo a Casa das Sete Mulheres.

Ou talvez eu seja muito obtuso para entender a trama...heheheh!

Gustavo M.

valéria mello said...

Não li o livro, só vi a minissérie, que me deixou encantada. A sensação é a mesma que você descreveu, Alessandra, do meta-livro, o mais importante não é a história, mas como ela é contada.
E esse excesso que o Gustavo, do comentário acima, não gostou foi o que mais me agradou. As cores fortes, as interpretações carregadas, tudo junto com o texto dava uma impressão de sonho. Acho que assistir a minissérie foi uma experiência sensorial e estética, mais do que literária. E eu gostei muito.

Fabrizio Salina said...

Belo comentário, Anymous! Concordo "ipsis litteris" com você.
Sobre a obra em si, com todo respeito que o Ariano merece, mas é um elefante branco. Claro que é um bom livro, mas penso que ao falar sobre a tentativa de escrever sobre uma epopéia, nos dá a pista de que quis fazer mesmo foi uma odisséia, não partindo de Homero, mas de Joyce e seu Ulisses. Ao meu simples entendimento, a Pedra do Reino tem as mesmas pretensões que Cem Anos de Solidão (a descrição mítica e linear do destino de um povo na perspectiva de uma família), mas sem sucesso, sob a forma de "ulisses". No fundo, temos um mosaico confuso, que se alicerça em cordel mas se compromete pelo excesso, uma pedra bruta, que carecia ser melhor lapidada pelo autor.
É um livro bom? Sob o ponto de vista estritamente literário é, mas não o enquadraria como leitura essencial, uma vez que na tentativa de sedimentar os arquétipos da cultura nordestina (tal como Grande Sertão fez no universo mítico mineiro), enveredou por rotas que formaram um mosaico prolixo, e às vezes, disforme.

Paulo de Tarso said...

Alê
Já gosto de ler. Aliás adoro. Simplesmente não fico um dia, sem ler. Leio o tempo todo disponível, inclusive fazendo trote na esteira da academia, o que, aliás, é o que me faz suportar aquela coisa chata (a esteira, digo), mas necessária.
Contudo, não tive a mesma obstinação que você teve. Também, né, impossível concorrer com quem forjou sua força de vontade subindo correndo a Brigadeiro Luis Antonio inteira e ainda dar uma corridinha até o meio da Paulista.
Tentei enfrentar a "Pedra", por duas ou três vezes. Agora, lembrei do Drummond, "No meio do caminho, tinha uma pedra"; será que ele, Drummond, se referia à "Pedra do Reino"? Heheheh. Bem, pra mim a "Pedra" continua no meio do caminho; simplesmente não consegui removê-la. Deve ser falha minha. Sempre acho que precisamos estar prontos para certas vivências. Talvez não tenha chegado ainda o meu momento de ler a "Pedra", assim como também não agüentei "A Montanha Mágica". Nem de ouvir Schönberg ou Stravinsky, com prazer.
Devo dizer que tenho uma profunda admiração e respeito pelo Ariano Suassuna, pela sua luta "Armorial" na defesa de nossa cultura genuína e contra a contaminação perniciosa de outras culturas, mantendo os intercâmbios e trocas salutares e enriquecedores que toda cultura tem, sem ser, portanto, xenófobo.
Agora, imagino que uma série chamada "Pra gostar de ler", deva ter como principal público aquele que não é tão afeito ao exercício da leitura e que possa exortá-lo a descobrir o prazer e o benefício de ler um bom livro. Nesse contexto, "A Pedra" definitivamente não é o livro mais indicado para conquistar novos leitores, não acha? Mas a iniciativa é maravilhosa. A série "Pra gostar de ler" vai ser um sucesso. De resto, me fez conhecer o excelente blog "O Biscoito Fino e a Massa". Bem legal, Alê!

Celinho Boy said...

Ale, dois em um:
1)sobre o post anterior, muito legal esta tua história sobre os tempos de tênis. Alessandra tinha problemas de peso. Aliás, este pessoal dos vigilantes do peso existe há tempos, hein? aliás, me deliciei vendo trechos(e muitos trechos) do Brasil Open de Tênis. foi triste ver o guga dizer que não conseguia jogar e não porque não queria jogar. Que fim melancólico para um cara vencedor.

2)Sobre o livro, ainda não tive a oportunidade de ler o livro e mal vi a minissérie. Mas a boca pequena disse que o trabalho foi um fracasso de público e crítica. Mas adorei a tua iniciativa. Beijos e abraços

Anonymous said...

Não li a Pedra do reino.
Infelizmente não tenho muito pra contar sobre livros que li ,é que minha leitura sempre foi obvia ,automobilismo,desde os 6 anos ,devorava as 4 rodas e Auto Esporte ,e depois sempre gostei de livros sobre um assunto especifico ,como ,O Heroi de mil faces ,As mascaras de Deus ,ambos de Joseph Campbell ,li muito pouco romance ou qualquer tipo de ficção,talvez o melhor que se enquadra seja Grande Sertão: Veredas.

Mas procuro dar icentivo a meus filhos,toda semana levo eles na biblioteca publica de minha cidade para eles escolherem ,criar um hábito.

Mas agora vem uma pergunta ;minha filha Maria Luiza ainda não lê ,e todo dia conto alguma historia para ela ,isso estimula a criança para a leitura ou não?

Jonny'O

Caíque Pereira. said...

Melhor que a Série, foi a Entrevista do Suassuna à Globo News, onde além de aprovar a produção, deu um Show de Jovialidade e Inteligência.

Alessandra Alves said...

gustavo m.: tenho a mesma reserva que você em relação a adaptações literárias para meios eletrônicos, seja cinema ou TV. há algumas semanas, li "a casa da rússia", de john le carré e, antes mesmo de ver o filme, já visualizava o personagem principal com a cara do sean connery! fico feliz que gabriel garcía márquez tenha recusado todas as propostas e insinuações de proposta para transformar "cem anos de solidão" em filme. já pensou? gene hackman como o coronel aureliano buendía, meryl streep como ursula iguarán ou salma hayek como raquel???

um comentário recorrente da série é a falta do humor presente no livro. é certo que esse humor pode passar despercebido, no turbilhão verborrágico do narrador, mas há passagens hilariantes, como:

- a teorização de clemente sobre a viadagem de direita, condenável, e a viadagem de esquerda, respeitável e digna;
- os delírios monárquicos sertanejos de quaderna, que o fazem perpetrar frases como: "no tempo em que portugal fazia parte do império brasileiro".
- a justificativa de quaderna quanto à sua falta de habilidade em sentar e escrever, culpando o "cotoco", espécie de rabo ancestral que o faz inquieto por natureza!

quanto a "entender a trama", não acho que você deveria se auto-avaliar dessa forma. diante da estranheza causada por seus quadros, picasso certa vez proclamou: "por que as pessoas precisam entender um quadro? alguém, por acaso, procura entender uma árvore, uma onda, um animal?" eu penso por aí. não é preciso entender para gostar ou não. e não gostar não é sinal de menos compreensão.

valéria mello: pra gente ver como a arte é maravilhosa. o que é defeito para um vira qualidade para outro!

fabrizio: bela instigação a sua, ainda na mais na casa de uma entusiasta de "cem anos de solidão". acho que você tem razão quanto à motivação para as duas obras. em um microcosmo familiar, tanto garcía márquez quanto suassuna procuraram concentrar os principais conflitos humanos. mas acho que garcía márquez foi mais bem sucedido na forma, optando por uma narrativa simples, linear e sem experimentalismos formais, embora repleta de temas surreais. suassuna enveredou por caminhos mais tortuosos, chegando a parecer penoso para o leitor o trabalho de seguir a trama.

paulo de tarso: acho que todos nós, leitores contumazes, temos nossas pedras no caminho, não? eu, como você, tenho uma pedra doce como uma madeleine, mas que se traduz há décadas como um pedregulho de enormes dimensões em minha garganta - "o caminho de swan", de marcel proust, a primeira parte de "em busca do tempo perdido". o que significa que, não tendo lido o primeiro, não avancei nos seguintes. não sei explicar por que isso acontece. talvez seja uma incompatibilidade total, como aquela pessoa cujo santo não bate com o nosso. não vai, simplesmente, e não adianta tentar!

quanto ao nome da seção, concordo com você que começamos por um livro difícil, que provavelmente não incentivaria muita gente a se engajar na leitura. a questão é que pretendo apenas compartilhar minhas leituras aqui no blog, sem um compromisso muito didático, e vou explicitar isso em todos os post "para gostar de ler". afinal, alguém pode chegar aqui de repente, sem conhecer direito os propósitos do blog, e é bom deixar claro que sou apenas uma diletante dos livros!

celinho: você inspirou a série, a responsabilidade agora também é sua! (brincadeira, claro)

caíque: sensacional a entrevista, vi no youtube. beijos!

Ron Groo said...

É sem duvida um grande livro, em todos os sentidos.
A obra de Suassuna é assim mesmo ponteada de citações e brincadeiras com politica.
Não tive a oportunidade de ler este livro em especial, mas li o outro que também virou mini-série e depois filme - ou ao contrário - E lá no "Auto da Compadecida" que na verdade não é um romance e sim uma peça de teatro (quem for atrás do texto original o encontrará neste formato) também é centrada fortemente na critica social... Mas ao menos as cabeças não rolam.
Eu sempre achei que Suassuna escrevia como o velho Graça, mas sem a graça do Velho, são os dois nordestiunos e truncados... Mas pra quem gosta de Guimaraes Rosa, isto fica até facil...
Espero pelo post seguinte. "Os Funerais de Mamãe Grande" é um ótimo livro de contos do grande Gabo Marques, um complemento soberbo para quem leu "100 Ano de solidão", ká também Macondo da as cartas, e fico mais ansioso ainda por um post com João Ubaldo Ribeiro, quem leu "Feitiço da Ilha do Pavão" ou "Viva o povo Brasileiro" sabe o porque...

Idelber said...

Muito obrigado, Alessandra :-) Foi um prazer ler o seu post. Deixei aos meus alunos também a recomendação de que eles passassem aqui. Um grande beijo,

Degas said...

Eu achava que jamais postaria um comentário aqui se não fosse sobre automobilismo. É a minha terceira maior paixão. Mas como as duas primeiras, minha filha e minha esposa, não são debatidas aqui (ainda bem!) achava que somente restaria o automobilismo para eu discutir convosco.
Mas ao falar sobre literatura, Alessandra, você me tocou outro ponto sensível!
Eu recomendo o cara que eu considero uma espécie de "tutor" ou "inspirador" de Suassuna (e Jorge Amado entre outros): Gabriel García Marquez.
Cem Anos de Solidão é uma obra absolutamente inigualável na literatura universal. Mas tudo o que foi produzido por esse autor é senão muito bom ou ótimo, simplesmente excelente!
Valeu!

Alessandra Alves said...

degas: escrevi um post sobre "cem anos de solidão" há algum tempo. está aqui: http://alessandraalves.blogspot.com/2006/08/ciranda-de-livros.html

se quiser comentar aqui ou lá, fique à vontade!