Thursday, February 02, 2006

Pare o que estiver fazendo: Os Mutantes voltaram!


Tenho um ritual estranho para ler o jornal: dou uma olhada rápida na primeira página, depois ordeno os cadernos e começo a ler de trás para frente. Não me pergunte a razão disso, é um hábito de mais de vinte anos. Nessa ordem, leio os cadernos de cultura, esportes, cidades, economia e política, todos de trás para frente. Poucas chamadas de capa são capazes de me fazer atropelar tal seqüência. Hoje, uma delas conseguiu: quase toda a discografia dos Mutantes está sendo relançada em CDs remasterizados. Pulei todas as páginas da Ilustrada, fui direto para a capa do caderno.
Se você conhece Os Mutantes, sabe o que isso significa. Se não conhece, com todo respeito, preste atenção: essa banda foi uma virada na esquina da música popular brasileira. Não sou adepta de rótulos, não gosto de fechar questão, muito menos de decretar quem foi “o melhor” qualquer coisa de todos os tempos. Não gosto nem mesmo de dizer que “se não fosse tal pessoa (ou tal grupo), tal coisa não teria acontecido” (se a gente puxar o fio desse novelo, vai terminar lá em Adão e Eva). O fato é que Os Mutantes foram a síntese do novo, uma fagulha revolucionária que nasceu estranhamente como grupo acompanhante do cantor Ronnie Von, desaguou na Tropicália, inundando o som dos baianos com distorções, elementos até então inexplorados, experimentalismo, uma salada paulista (cosmopolita?).
Talvez a revolução musical trazida pelos Mutantes não tenha sido fruto apenas da cabeça fervilhante de Arnaldo Baptista. Pode ter sido filha daqueles loucos anos 60, das picadas abertas por Little Richards e Chuck Berry, na década anterior, da estrada pavimentada pelos Beatles, da pista de decolagem construída pelo iê-iê-iê nacional, do vôo sideral brotado da sinergia entre a corrida espacial, os alucinógenos e o escapismo da barra pesada pré e pós AI5 (e vamos parar ou chegamos lá, em Adão e Eva).
Os Mutantes sintetizaram a evolução (revolução) tropicalista com dotes alquimistas: misturaram os elementos “puros” do rock com toques de música clássica, seresta, folclore, tribalismo. Você pensou em Carlinhos Brown? Bingo: o inusitado de Brown, ao tocar instrumentos improváveis como latinhas de alumínio ou estantes de partituras era hábito consolidado desse trio doido. Arnaldo, seu irmão Sergio e Rita Lee usavam esdrúxulos equipamentos e ferramentas para modificar e complementar o som dos instrumentos: mangueira de borracha conectada a uma lata de Nescau, como lembra Carlos Calado nessa matéria da Folha de hoje, vaporizador de inseticida e o que estivesse à mão.
A notícia do relançamento me trouxe várias sensações. Alegria, sobretudo. Minha lista de presentes de aniversário acaba de ser aumentada. Mas também fiquei decepcionada por saber que, apesar de relançar sete discos dos Mutantes, mais um da Rita Lee (disco que, na verdade, era dos Mutantes, mas foi lançado como sendo só dela), a Universal não relançou o primeiro disco solo de fato da Rita, Build Up, de 1970. Também fiquei com um gosto de nostalgia na boca. Não daquela época, não vivi isso tudo. Fiquei com saudade dos meus treze, catorze anos, quando descobri Os Mutantes. Fiquei com saudade do frescor rebelde de Rita Lee, quando ela era mais mutante e menos implicante. Lembrei da capa lisérgica e maravilhosa do LP “Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets”. E aí fiquei feliz de novo por lembrar que um dia, uns doze ou treze anos atrás, levei esse LP para ser autografado pelo baterista do grupo – Dinho Leme que, naquela altura, e por muitos anos, seria assessor de imprensa de Rubens Barrichello. Mundo pequeno, meu Deus...

11 comments:

Gustavo Sarmento said...

Estão para lançar em CD também os dois álbuns Tim Maia Racional (vols. 1 e 2), isso sem falar dos dois álbuns do Secos & Molhados, lançados em CD já há alguns anos...

Não sei, mas isso parece servir pra mostrar o quanto a música brasileira atual (considere como 'atual' de 1980 pra cá) é "sem sal", comparada com o que já se teve por aqui. ;-)

A propósito, muito legal seu blog. Sou fã da sua coluna no GPT há um bom tempo!

Fabio Marghieri said...

Olá, Alessandra...


Vou dar um jeito de mandar um mp3 para você poder montar sua compilação de sambas e marchinhas carnavalescas.

Em troca, se você quiser me adicionar à sua lista de presentes, habilito-me a receber os CDs dos Mutantes... :)

(comprei todos em vinil, à exceção justamente do Baurets, em um lote único num sebo de Lorena, a preço de banana... o sujeito não fazia idéia do que tinha nas mãos...)

Andrei Spinassé said...

Alessandra,
Mutantes era uma banda muito boa, realmente. Além de toda essa mistura que você citou, eles tinham uma certa pegada progressiva. Excelente. Falando em progressividade, recomendo a você dois discos dos Engenheiros do Hawaii: Várias Variáveis, de 1991, e Gessinger Licks & Maltz, de 1992. Apesar de ser uma banda massacrada pela mídia em geral, estes dois trabalhos são fantásticos.

Beijos,
Andrei

Alessandra Alves said...

Gustavo: está sendo mesmo muito revigorante ter esses relançamentos à mão. O CD contendo os dois discos dos Secos & Molhados é um hit absoluto lá em casa. Dia desses, eu vi o Charles Gavin numa lanchonete e - se não fosse o mico - teria ido agradecer a ele pela iniciativa (você sabia que ele foi um dos idealizadores do projeto, né?)

Agora, eu vou jogar uma lenhazinha na fogueira da nossa discussão. Eu não sei se a música de hoje é tão ruim, na comparação com a de trinta anos atrás. O que me parece é que os canais de divulgação hoje é que são mais viciados, comprometidos. Sei que há muita música boa sendo feita e tocada por aí, mas a mídia é insensível a isso. Claro que não resolve nada saber que há boa música mas ela não chega até o público, só que eu acho que os veículos atuais de comunicação tendem a modificar isso. Vai ficar cada vez mais possível a divulgação independente, os artistas que merecem atenção já podem lançar suas músicas na web e isso fica à disposição. Cabe, um pouco, ao ouvinte garimpar o que há de bom. Você não acha que o que precisamos é sair do conforto da nossa letargia? Ou preferimos ficar reclamando de Sandy e Junior, Ivete Sangalo etc.?

Fabio: sebos têm mesmo jóias inexploradas. Não fosse o cheiro de mofo, que detona minha rinite adormecida, eu viveria neles!

Andrei: a pegada progressiva dos Mutantes ficou mais evidente na década de 70, né?! Quando o Arnaldo e a Rita já tinham saído e o Serginho tocou a banda por uns tempos. Eu particularmente gosto mais da fase anterior, que me remete mais ao experimentalismo, à mistura de rock com tudo o que passasse pela frente deles.

Certa vez, vi um show da Rita Lee com participação especial do Sergio Baptista. Foi particularmente emocionante quando eles tocaram "Nowhere man", dos Beatles. Parecia que eles tinham transportado todo mundo para um ensaio da banda, nos anos 60, e estávamos ali, diante de uma brincadeira de amigos. Fico pensando se eu gostaria de vê-los reunidos, os três, novamente. Sei lá, acho que a vida separou tanto os objetivos musicais deles...

Zema Ribeiro said...

Se um dia eu encontrar o Gavin por aí vou sugerir a ele que relance alguns discos do começo da carreira de Chico Maranhão. Vocês precisam ouvir! (Opinião para além de eu ser maranhense). A mídia hoje é mais viciada, o que faz com que pensemos que a música praticada hoje em dia é pior. Mas há muita gente boa fazendo coisa boa (redundância intencional) por aí. Abração!

Alessandra Alves said...

Zema: concordo com você, há muita gente boa fazendo coisa boa por aí. Não sei se a música é viciada, acho que os meios de divulgação é que ostentam esse status nada honroso. Mas, da mesma forma que cabe ao indivíduo se mexer, literalmente, como dissemos no post acima, também precisamos nos mexer, como ouvintes e consumidores de cultura em geral, garimpar coisas que nos interessem. Você tem algum link do Chico Maranhão? Gostaria de ouvir.

Gustavo Sarmento said...

Sim, sabia do envolvimento do Gavin neste projeto(e em vários outros de 'recuperação de patrimônio cultural'). Realmente ele merece sinceros parabéns pela iniciativa.

Quanto à questão de divulgação, é o já clássico problema do 'jabá' (que todo mundo aqui deve saber do que se trata). O que nos resta é justamente ir 'garimpar' atrás do que preste. Só que nem todo mundo tem tempo/disposição/ânimo para tal, infelizmente.

Abraço!

Ale said...

Olá então preciso dizer q adoro Mutantes e preciso de sua ajuda
vc sabe o significado da música Dom Quixote??
Agradeço se puder me dizer

Alessandra Nunes
e-mail:alenunes@visaonet.com.br

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