Thursday, October 15, 2009

No verão, a primavera



Entre Monteiro Lobato e Érico Veríssimo, senhores da minha infância literária, e a descoberta de García-Márquez, uma autora frequentou a cabeceira da minha pré-adolescência: Lucília Junqueira de Almeida Prado. Escritora nascida em 1924, ganhou o Prêmio Jabuti por "Uma rua como aquela", que li naquela mesma época. Um de seus livros mais marcantes, para mim, foi "No verão, a primavera", que conta a história de uma moça que vivia uma arrebatadora paixão, do tipo adolescente, na vida adulta. O título tinha essa referência: no verão da vida, a personagem vivenciava sentimentos extemporâneos, e o mais tocante era acompanhar aquela explosão juvenil em uma mulher já madura.



As declarações de Rubens Barrichello, nesses dias pré-GP do Brasil, me fizeram lembrar do livro. Há um ano, Barrichello estava praticamente aposentado pela imprensa, sem contrato para 2009, em algo que parecia o ocaso de uma carreira decadente. O começo da atual temporada não foi assim tão alvissareiro para o veterano brasileiro. Enquanto o companheiro de equipe enfileirava vitórias, Barrichello lutava com o carro. Mas, ainda assim, somava pontos. Até que "vestiu" o Brawn na segunda metade da temporada e venceu duas corridas, conseguindo reduzir a distância para Button e, principalmente, ganhando algo que sempre pareceu faltar a ele: auto-confiança.

No verão de sua carreira, Barrichello renasceu em competitividade, com a vantagem da maturidade.

Hoje, falando à imprensa, Rubens reportou um "sentimento arrasador" ao cruzar o túnel de acesso à pista de Interlagos. Na reportagem de Luis Fernando Ramos, o Ico, no Tazio, ele diz: "Tive um sentimento de muita gratidão ao passar pelo túnel do autódromo. Porque no ano passado, quando passei pelo túnel no domingo, eu fiquei com aquela sensação de que poderia ser a última vez. Então, hoje, tive um sentimento arrasador de chegar e me sentir competitivo, em casa, então faça chuva ou faça sol, será um grande fim de semana."

Faça chuva, ou faça sol, será um grande fim de semana. Bingo, Rubens! Vai ser um grande final de semana porque, nesta altura da sua longa e respeitada carreira, você já se sabe vencedor. Não se trata, aqui, de apelar para aqueles chavões de livros de auto-ajuda. Mas parece evidente que, neste 2009 tão surpreendente, a maré virou para o seu lado porque, em dado momento, neste ano, você virou seu pensamento. Deixou de se apegar ao discurso vira-lata do brasileirinho contra o resto do mundo. E as coisas começaram a melhorar para você.

Sabe o que me lembra essa atitude de Barrichello? Todo mundo já passou por isso. Você perde alguma coisa, dentro de casa, e passa um dia inteiro revirando gavetas e armários, sem sucesso. Tempos depois, tendo dado o item por perdido, você o encontra, sem querer. Ou então aquelas mulheres que passam anos tentando engravidar, fazem tratamentos, até que desistem, adotam uma criança e, depois, acabam engravidando. Assim, sem querer. Basicamente, porque mudaram o foco, impedindo que o estresse continuasse boicotando suas células. Em resumo: desencanaram.

É isso aí, Rubens, desencana que a vida é bacana. Vá para o GP do Brasil sem pôr o peso das arquibancadas nas costas, como você fez tantas vezes, principalmente nos tempos da Ferrari. Assim, meio sem querer, você vai viver sua primavera em Interlagos.

(a foto de Barrichello é de Carsten Horst)

9 comments:

Marcus said...

E você comete mais um grande post.

Não sei se você leu, e lembra, mas essa cena de revirar gavetas, e só encontrar o que procura quando desiste de procurar, está em um dos melhores livros de Clarice Lispector, não lembro exatamente qual, agora (acho que é Perto do Coração Selvagem).

A moça sempre, SEMPRE encontrava o que procurava, segundos depois de desistir. Ela percebeu o padrão e começou a "fingir" que desistia, mas não dava certo. Ela tinha que desistir mesmo, e aí encontrava, logo em seguida.

Isso parece algum tipo de castigo de Sísifo ao contrário.

Paulo Cunha said...

Parabéns!

Gustavo Alves said...

Mano,

Que lindo texto!

Você sabe que sou um torcedor inveterado do Rubinho. Mas o discurso "ninguém-passa-a-bola-pra-mim!" é muito chato.
Vamos ver se ele se orgulha de tudo que já fez.

Thiago said...

Clap Clap Clap...(aplausos hehehe)

Fantástico post e fantástica comparação.
Espero que a atuação do Rubens seja tão boa também.

Estarei ligado na Bandeirantes domingo.
Bjos

Thiago Alves

Fernando Mayer said...

Nossa! Essa talvez tenha sido a melhor definição que eu já ouvi sobre a carreira do Rubens Barrichello em 17 verões...Matou a pau! Parabéns de verdade!

Abç

Ron Groo said...

Lindo texto Alessandra,Rubens merece.

Eu que tanto vergastei o verbo contra o piloto Rubinho, não sou louco de dizer que o homem Rubinho não é um vencedor.
Ele é.
Faz o que gosta, vive disto, é amado pelos seus, tem independência financeira (vinda do que faz e gosta de fazer, repito)e é muito bem quisto pelos seus pares.

Agora.. quanto a esta competitividade que ele apresenta nas ultimas corridas, bem... Para mim trata-se da visita da saúde, aquela melhorazinha que todos os doentes dão antes de... bom... Só pra não perder a piada.

foca said...

como disse paulo leminski, "distraídos venceremos"...

Cynthia said...

Lindo texto! Boa sorte nos comentários domingo. Estaremos em casa, vai dar pra acompanharvc no rádio.

Eduardo Miler said...

Loucura,loucura, loucura...Talves a melhor definição da carreira do Barrichello que já ouvi(palavras do Fernando Mayer)...Concordo plenamente...Assumo a partir de agora a condição de seu Fã...Parabens...Abs