Tuesday, June 10, 2008

Embalos de sábado à noite

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Seja em treino ou corrida, penso sempre a mesma coisa antes de completar o primeiro quilômetro: "O que estou fazendo aqui?". É irresistível abandonar-se à reflexão acerca do sentido de correr, de extenuar-se, de elevar o batimento cardíaco ao nível do desconforto. O sentido ou a falta dele. Como bem lembrou Drauzio Varella há algumas semanas, em artigo na Folha de S. Paulo, exercitar-se não é algo natural para animais na vida adulta. O homem é o único que tem de se forçar à atividade física programada, por ter adotado uma vida tão prática e confortável. O que equivale dizer - tão sedentária.

Mas, depois de vencido o primeiro quilômetro, a coisa pega no tranco e a gente vai. Na verdade, a gente volta, pois correr é quase sempre movimentar-se em círculo, partindo de um ponto e voltando a ele mesmo. Outra reflexão que sempre se instala. Se era para voltar para o mesmo lugar, por que fui? Parece a anedota do caiçara, ouvindo o homem da cidade aconselhá-lo sobre a necessidade de pescar mais, vender mais, comprar mais um, dois, dez barcos, ter uma frota, ter empregados trabalhando para ele, a fim de que ele pudesse, finalmente, deixar-se ficar na beira da praia, só descansando, ao que o pescador responderia - "E não é o que eu estou fazendo agora?"




Ainda assim, venço a tentação da inércia e vou. No sábado, dia 7 de junho, fui pela 40ª vez. Em quase seis anos de corrida, 40 provas. Neste ano, por conta das transmissões da Fórmula 1, tenho perdido algumas corridas, a maioria programada para as manhãs do domingo. Por isso, me animei com a idéia de fazer uma prova noturna. Sim, sábado à noite. A turma da Equipe Conexão, sob o comando do treinador José Eduardo Pompeu, compareceu em peso. No caminho, indo de comboio para a Cidade Universitária, eu repetia a todo instante a mesma pergunta - "O que estou fazendo aqui?".

Tinha sido um sábado cheio de atividades. Logo pela manhã, festa junina na escola dele. Na hora do almoço, um aniversário na casa de amigos, com pausa para ver o treino do GP do Canadá. Na volta para casa, tempo apenas para trocar de roupa e seguir para a Paulista, onde a turma se reuniria. Saí de casa com uma sensação estranha, por deixar pai e filho meio à deriva, numa noite de sábado.

A prova, Fila Night Run, 10 km, tinha largada marcada para as 20h. O mesmo embaço de sempre na hora de estacionar o carro, retirar o chip e guardar as sacolas no guarda-volumes. Pouco tempo para aquecer, muita gente na largada, sentença dada - vamos aquecer nos primeiros dois quilômetros e ver o que dá para melhorar daí para a frente.

Pouco antes da largada, percebi que aquela não era apenas minha primeira prova noturna. Eu simplesmente nunca havia corrido à noite, nem em treino. Sou diurna, gosto de acordar antes do sol para aproveitá-lo todinho e sempre sinto o gás acabando quando o entardecer se instala. Some-se a essa tendência natural a correria de sábado e minha perspectiva não era para um desempenho notável na prova.

Chegando à USP, um reforço inusitado para a energia da turma. Zoca saca de sua sacola uma lata de biscoitos cheia de... bolinhos de chuva! Sua doce Valéria havia preparado um farto carregamento da guloseima, que até aquela data nunca tinha se mostrado especialmente indicada para a nutrição de atletas antes do exercício.










Não sei se foi o bolinho da Valéria, o horário da largada ou a vontade de ir embora logo, mas o fato é que comecei a me sentir muito disposta durante a prova, fazendo os primeiros quilômetros sempre acima dos cinco minutos, mas não muito mais que isso. A partir do quinto, comecei a apertar o ritmo e terminei em 50min20, bem acima do meu recorde de 49min00, mas bem melhor do que eu imaginava no início da prova.

Terminado o evento, na volta para o carro, com uma vontade louca de voltar para minha casa, tive certeza de que foi uma boa experiência, mas talvez única. Dez quilômetros na noite de sábado já é manifestação patológica. Comecei, continuei e terminei com a mesma pergunta rondando minha mente - "O que eu estou fazendo aqui?"

7 comments:

Gui Barranco said...

Bom, você conhece bem as minhas opiniões sobre esse assunto e por isso, vou te poupar dos meus comentários, especialmente porque acabei de acordar e estou naquele humor característico....
Mas de qualquer forma, se você precisar, estou com uma lista de psicólogos e psiquiatras pra te ajudar nesse seu problema já patológico, e posso, sem dificuldade, montar uma lista de clínicas pra você passar por uma desintoxicação se você precisar... hehehehehehehe BEIJOS!!!

Fabio said...

discordo, não acho patologico, acho uma diversão e tanto e a usp com aquela multidão estava parecendo um sonho fantastico....e depois tem tanto tempo pra descansar e saira pra balada energizado naturalmente!

Ron Groo said...

Deixa ver se entendi...
Os bolinhos de chuva foram estimulantes?
Mas quanto a patologia eu concordo... Sei que preciso 'adoecer' e fazer alguns exercicios fisicos mas não tem jeito. Não tenho diciplina para isto.
E enquanto você estiver se fazendo este pergunta ai, é sinal de que vai continuar correndo... Ao menos até achar a resposta.

niltonhc said...

Não dá para negar que foi estranho correr uma prova à noite, embora eu já tenha treinado na pista de cooper do Ibirapuera depois do pôr-do-sol.

Meu maior medo foi nos trechos sem iluminação, pois o risco de pisar em falso numa irregularidade no asfalto, para quem já tem um pino no tornozelo esquerdo, fica ainda maior.

No cômputo geral, foi bom. E com o "toque de modernidade" de receber o tempo líquido da prova via SMS no celular. O que esse povo não inventa para atrair os corredores...

Bjs.
Nilton

Alessandra Alves said...

gui: ainda vou trazer você para o lado da força! da força de vontade de se superar!

fabio: estava bonito mesmo, com aquela iluminação, o telão etc. mas ainda prefiro as corridas matutinas.

ron: que barrinha de cereal nada! meu estimulante, daqui para frente, será bolinho de chuva!

nilton: antes de mais nada, obrigada pelas fotos. sim, a questão da falta de iluminação m alguns trechos foi a pior parte da corrida. comentei isso com nosso treinador ontem. chegamos à conclusão de que todos teríamos feito tempos melhores, não fosse a preocupação com buracos, lombadas, depressões etc. mas valeu!

Fernando said...

olá bom dia:
primeiro gostaria de parabeniza-la pelo blog excelente.
vejo que gosta de esportes, por isso gostaria de convida-la a visitar o meu blog o Na Furquilia, lá tambem escrevo sobre o mundo esportivo e ficaria honrado de contar com suas criticas e sugestões.

http://nafurquilia.blog.terra.com.br/

Gabriel Pandini said...

Mãe,quer saber?
Eu gostei do título deste seu post.
Mas antes eu achei que o post falava sobre a banda "Embalos de sábado a noite" mas eu gostei mesmo. Eu gosto do seu blog.
Você fala tantas coisas legais. Eu estou vendo a foto do bolinho de chuva. Mas aonde você está? Você comeu o bolinho de chuva que a Valéria fez?
Um beijinho
Gabriel
OBS:Estou esperando você mudar o fundo do blog quando mudar ligue e avise.