Sunday, April 15, 2007

Mack the knife

Você está triste, cansado, estressado, preocupado, irritado, com TPM, seu time perdeu? Não faça como sugere aquele adesivo colado no vidro traseiro de alguns carros. Não, não vá pescar. Ouça Ella Fitzgerald cantando “Mack the knife”, ao vivo, e todos os seus problemas terminarão.



Ella Jane Fitzgerald nasceu no estado norte-americano de Virginia, em 1917, mas muito pequena mudou-se com a mãe para Yonkers, no estado de Nova York. Além de afinada como poucas, tinha uma espantosa extensão vocal. Diz-se que alcançava três oitavas. Se você não sabe o que isso quer dizer, acredite, é uma voz elástica pra burro, que vai de um grave soturno a um agudo cristalino.

No post sobre Dinah Washington e em seus comentários posteriores, mencionamos que talvez o grande mal de Dinah, aliás Ruth Lee Jones, foi ter surgido em um período posterior à fase áurea do jazz, além de ser ligada a uma gravadora mais, digamos, “comercial” que “artística”. Pois com Ella, a história, nos dois aspectos, foi oposta.

Ella começou a cantar em 1935, aproveitando uma oportunidade do baterista e bandleader Chick Webb. Sua presença foi tão arrasadora que, alguns anos depois, a banda passou a se chamar apenas “Ella Fitzgerald and her famous orchestra”. Ella virou a bandleader. Já nos anos 1940, ela deixou a banda para fazer carreira solo. Foi quando começou a trabalhar regularmente com o produtor Norman Granz.

Esse nome, uma pedra fundamental na história do jazz, alguns anos depois criou aquele que seria talvez o mais importante selo do gênero – a Verve. Pois foi justamente pela Verve, e com produção de Granz, que Ella perpetrou esta que é considerada uma de suas mais marcantes, inspiradas e irretocáveis apresentações ao vivo.

Senhoras e senhores, sua atenção: com vocês, Ella Fitzgerald.

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A coisa toda aconteceu no dia 13 de fevereiro de 1960, dez anos menos um dia antes do meu nascimento (desculpem, não agüentei!). Norman Granz produzia regularmente espetáculos chamados “Jazz at the Philarmonic”, excursionando pela Europa e sempre com Ella como estrela principal. Naquele ano, Granz resolveu gravar o show de abertura da temporada, em Berlim, em um local para 12 mil pessoas. Sábia decisão.

O repertório do show era recheado de peças tradicionais do jazz, como “The lady is a tramp”, “Summertime”, “Too darn hot” e “The man I love”. A faixa “Mack the knife”, que acabou dando nome ao disco, é uma versão para o inglês de "Die Moritat von Mackie Messer", música de Kurt Weil com letra de Bertold Brecht para a famosa “Ópera dos três vinténs”.

Se ao ouvir a música você ficar com aquela sensação de que a conhece de algum lugar, é provável que conheça mesmo. A “Ópera dos Três Vinténs” é a base da “Ópera do Malandro”, musicada por Chico Buarque nos anos 1970 e a faixa de abertura, chamada “O Malando”, tem essa mesma melodia, vertida antes para o inglês como “Mack the knife”.

Fosse a história contemporânea, eu, com meu coração cada vez mais endurecido, acharia que era tudo armado, ensaiado previamente, para inglês (ou alemão) ver. Mas isso aconteceu em 1960, bem antes do show virar o business que se tornou e, além de tudo, Ella era mesmo capaz de fazer, de cara limpa, no improviso, a mágica que fez.

Logo na introdução, com sua voz simpática e naturalmente melodiosa, Ella anuncia que vai cantar uma música ouvida na véspera, que lhe pareceu muito popular. E ainda avisa: “Esperamos lembrar de todas as palavras” (“We hope we remember all the words”). Well, não lembrou. A gravação tem, ao todo, 4 minutos e 35 segundos. Antes de chegar a dois minutos (mais exatamente, depois de 1 minuto e 45 segundos), descontando a introdução e tudo, dá o branco.

Sem perder o ritmo ou a melodia, Ella dispara, como se fosse um verso da canção: “Oh, qual é a próxima estrofe dessa música, agora?/ É aquele que eu não sei...” (“Oh, what´s the next chorus to this song, now/ This is the one, now, I don´t know”). Sem pedir licença a Bertold Brecht, começa a enfiar um monte de frases e palavras na letra, enumerando, por exemplo, outros artistas que gravaram a canção, fazendo gracejos com os músicos e, claro, soltando um caprichado scat singing à la Louis Armstrong. Aliás, ela cita Armstrong duas vezes na gravação, algo muito natural para Ella, que gravou várias vezes com o músico e cantor. A platéia enlouquece. Aplauso em cena aberta, diriam no teatro.

Com aquela cumplicidade típica dos músicos, a banda sacou que estava presenciando um momento histórico. É nítido o “crescendo” que vão imprindo à execução os músicos Paul Smith, ao piano, Jim Hall, na guitarra, Wilfred Middlebrooks, no baixo e Gus Johnson, na bateria.

Encaminhando-se para o final da apresentação, Ella nitidamente se diverte com o improviso, chegando a cantar: “vai ser uma surpresa se essa gravação virar ‘Mack the knife’” (“it´s a surprise this tune comes ‘Mack the knife’”, porque, de fato, da letra original não havia ali quase nada. Finda a música, a audiência irrompe em estrepitosas palmas e Ella desaba em gostosa gargalhada. Resultado: Ella Fitzgerald ganhou o Grammy daquele ano por essa gravação. E estamos aqui, 47 anos depois, falando de um gênio que cantava como poucas, escolhia um repertório de primeira, divertia-se em sua profissão e, o que mais me encanta, encarava o imprevisto com talento e bom humor, rindo de si mesma.

Agora, clique aqui, ouça e diga se isso é ou não é um tremendo elixir contra o mau humor.

13 comments:

Zeca said...

A Ella é realmente incrível, espetacular. Gosto muito dela, é um prazer ouví-la. Já tinha ouvido essa música, não sei exatamente com quem. Mas essa versão é uma maravilha! Vielen Danke, obrigado! Se você não tivesse blogado e esclarecido esse lance do improviso, acho que eu não teria percebido.

Alessandra Alves said...

zeca: foi exatamente por isso que eu me animei a escrever este post, porque a interpretação dela é tão encaixada na música que, sem saber, é difícil perceber que se trata de um improviso.

no lp da verve, há um texto de apresentação assinado pelo norman granz que menciona o fato, por isso me liguei e fui identificando as coisas off-lyrics que ela fala. na verdade, gostaria de encontrar uma transcrição completa, mas procurei e não encontrei. se alguém tiver, agradeço.

Alessandra Alves said...

achei!

(se bem que algumas coisas me parecem um pouco diferentes, anyway)

Spoken} Thank you. We`d like to do something for you now.
We haven`t heard a girl sing it. And since it`s so popular,
we`d like to try and do it for you.
We hope we remember all the words.{}
Oh, the shark has pearly teeth, dear
And he shows them, pearly white
Just a jack knife has Macheath, dear
And he keeps it out of sight

Oh, the shark bites with his teeth, dear
Scarlet billows start to spread
Fancy gloves though, wears Macheath dear
So there`s not, not a trace of red

On a Sunday, Sunday morning
Lies a body, oozin` life
Someone`s sneaking `round the corner
Tell me could it be, could it be, could it be
Mack the Knife?

Oh, what`s the next chorus?
To this song, now
This is the one, now
I don`t know
But it was a swinging tune
And its a hit tune
So we tried to do Mack The Knife

Ah, Louis Miller
Oh, something about cash
Yeah, Miller, he was spending that trash
And Macheath dear, he spends like a sailor
Tell me, tell me, tell me
Could that boy do, something rash

Oh Bobby Darin, and Louis Armstrong
They made a record, oh but they did
And now Ella, Ella, and her fellas
We`re making a wreck, what a wreck
Of Mack The Knife

{Louis Armstrong imitation}
Oh Snookie Taudry, bah bah bah nop do bo de do
bah bah bah nop do bo de do
Just a jack knife has Macheath, dear
And do bo bo bah bah bah nop do bo de do {}

So, you`ve heard it
Yes, we`ve swung it
And we tried to
Yes, we sung it

You won`t recognize it
It`s a surprise hit
This tune, called Mack The Knife

And so we leave you, in Berlin town
Yes, we`ve swung old Mack
We`ve swung old Mack in town
For the Darin fans,
And for the Louis Armstrong fans, too
We told you look out, look out, look out
Old Macheath`s back in town

Teo said...

Ale,

Puxa vida, que post bacana. E, pra mim, especialmente significativo.

Faz pouco tempo que li seu texto sobre a Dinah Washinton e sua preferência por ela, mesmo comparada à Ella ou Billie Holiday. Também amo a Dinah, mas prefiro a Ella. Por isso, na hora em que li isso, imediatamente pensei em te recomendar aquele que considero o melhor de todos os discos das grandes cantoras de jazz (os motivos da minha preferencia você vai logo entender). Acabei não mandando o comentário. Mas adivinha qual era o disco? Justamente o Ella in Berlin, que você tão lindamente comenta aqui.

Mas que presunção achar que uma pessoa com um gosto musical tão refinado não conhecesse esse disco, me perdoe. E que coincidência você logo em seguida falar justamente dele. Fiquei de boca aberta com isso.

O fato é que esse disco foi um dos preferidos do meu avô, que comprou um em uma viagem pra Londres, trouxe em primeira mão para o Brasil e virou história de família.

Pois também se tornou o disco preferido do meu pai, que o roubou de meu avô. Que depois pediu de volta, e de volta o teve. E foi novamente roubado e devolvido centenas de vezes até que finalmente, lançado no Brasil, meu pai pode ter um só pra ele.

E meu pai não ama nenhuma música mais do que Mack the Knife, e sempre se emociona, cada vez que escuta pela milésima vez. Quantas vezes eu já vi a mesma cena, ele já animado com o vinho do almoço, colocando essa música no volume mais alto, sempre comentando pros amigos justamente a improvisação incomparável da Ella nessa faixa.

Olha só o que a Ella faz. Quanta gente sentindo coisas tão bacanas com o talento dessa mulher! Quanto sorriso espalhado por esse mundão com cinco minutinhos dessa voz doce demais.

Seu talento, como o da Ella, também espalha sorrisos. Agora tem um enorme aqui na minha cara depois de ler tudo isso que você escreveu e me fez lembrar e sentir. Valeu, Ale.

Abraços


Teo

Alessandra Alves said...

teo: puxa, muito obrigada por compartilhar conosco essa história, que bonita! e muitíssimo obrigada pelas palavras finais, fiquei realmente emocionada, feliz e até um tiquinho orgulhosa por esse blog tão humilde.

mas vem cá, mostra o post pro seu pai, vai! será que ele vai concordar com meus pontos? ele conhece a música (e o disco) de trás pra frente, deve ter algo a acrescentar.

puxa, ella tem tanta coisa legal para se falar... teve uma vida pessoal tão sofrida, um monte de tragédias, formou com ray brown talvez o casal mais emblemático daquela era do jazz, o casamento acabou, ela viveu bastante, mas teve a saúde amplamente debilitada pelo diabetes, teve perna amputada e tudo. e, com tudo isso, tinha esse encanto, essa alegria na voz. thank you, ella!

Valeria said...

Oi Alessandra, o texto é lindo.

Ella é maravilhosa, com sua voz fantástica. Embora eu prefira Billie a todas as outras cantoras de jazz, Ella é maravilhosa.

Já ouvi o link um monte de vezes, e o alto astral passa através da música, da voz, do tempo. Adoro gravações ao vivo por isso: mostram a vibração do artista por trás da música.

Wagner said...

Alessandra,

Seu texto está fantástico! Disse tudo! Ella era realmente pra cima, uma cantora solar, o extremo oposto da Billie (mesmo na vida pessoal). Aliás, o jazz é rico nessa dicotomia "talentoso bem-ajustado X gênio maldito". Dizzy X Bird, Ray Brown X Mingus, Louis Armstrong X Roy Eldridge, etc.

Abs,

Wagner

Alessandra Alves said...

valeria: ah, que bom que você gostou, atingi meu intento, então!

pois é, é impossível falar desssas cantoras e não mencionar billie a todo tempo. hoje mesmo tive uma idéia para um post sobre ela. assim que der, vou postar.

wagner: obrigada! interessante esse ponto que você levantou, sobre as dicotomias. o ser humano tem fortíssima essa tendência, de separar em "bons" e "maus", e é possível que a própria mitologia do jazz tenha se locupletado desses pares díspares (hahahaha) para se eternizar. bom tema, bom tema!

mas, puxa, você citou charlie parker e, desde que o forest whitaker ganhou o oscar deste ano, estou para comentar sobre ele, porque, na minha modesta opinião, ele merecia esse prêmio desde que fez "bird", interpretando charlie parker. esse filme tem um significado especial para mim e até hoje, quando escuto charlie parker tocando "laura" tenho que conter as lágrimas. não só o forest está maravilhoso nesse papel como também a diane venora, fazendo o papel da esposa dele. e, algo espantoso para mim, na época: o filme é dirigido por clint eastwood! para quem não viu, vale a pena.

Anonymous said...

Oi Ale,

Vou mostrar pro meu velho sim, tenho certeza que ele vai adorar seu texto.

Só mais uma coisa sobre Mack the Knife. Lendo com atenção a letra que você coloca aqui, principalmente a parte inicial (que aparentemente é a que a Ella lembra, a gente percebe que o tema é bem cabeludo: corpo caído, facas, dentes de tubarão, sangue. Ela até comenta na introdução que não é uma música cantada por meninas...

É impressionante, porque a música é mesmo alto astral demais com uma letra pesada dessas...só a Ella mesmo. Só Ella.

E fechando, assino embaixo, aos que não conhecem, o programa de final de semana pode ficar bom demais com Bird. Imperdível. Eu adicionaria à conta da locadora (não da Blockbuster porque lá não vai ter) os títulos "Por volta da meia-noite", com o Dexter Gordon e o documentário "Lets Get Lost" que mostra a carreira do Chet Baker e os últimos dias da vida dele, que se matou durante a edição do filme. Diversão garantida.

Valeria said...

Hehehe, logo depois do seu post sobre a Dinah eu criei um post sobre Billie no meu blog, com o link de várias músicas,rss.

http://caminharpelavida.blog.terra.com.br/billie_holiday

Vinícius said...

Acabei de descobrir seu blog lendo esse post hehehehe.
Mack the Knife da Ella é minha gravação preferida dessa música, simplesmente perfeita. Provavelmente um alinhamento perfeito dos astros junto com o que a Ella tomou antes de cantar resultou nisso.
A música seguinte a essa do CD, How High is the Moon, é tão impressionante quanto! quase 8 minutos de pura improvisação.
Agora vou ler o resto do blog hehehe

Anonymous said...

tenta ouvir The lady is a tramp, hj sinatra faz 10 anos de morte......


desculpe a intromissao, eh que estou bbdo.........

M. said...

Encontrei seu blog por acaso, pesquisando sobre "Mack the Knife". Minha história com esta música é antiga: Faz um seis anos que a ouvi pela 1ª vez, no centro cultural são paulo. Naquela semana estava sendo exibido uma amostra de filmes sobre Bertolt Brecht, e no filme "O príncipe dos mendigos", com Raul Julia, inspirado na "Ópera dos três vintes", pode-se ouvir "Mack the Knife" e outras canções de Weill. Acho que vale a pena conferir.