De 20 de outubro a 2 de novembro, acontece a 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Cinéfila que sou, estou acompanhando a Mostra nos poucos horários que me restam fora do trabalho, mas já consegui assistir a filmes excelentes.
Tenho alguns critérios para escolher os filmes. Embora a Mostra sempre tenha homenagens e ciclos de determinados realizadores, meu foco principal são as novas produções. De maneira especial, gosto de ver o trabalho de jovens diretores (sim, é a busca pelo Santo Graal do "novo Tarantino, que teve seu primeiro longa, "Cães de Aluguel", exibido na Mostra de SP quando ainda era desconhecido do grande público.) Também dou preferência a mulheres na direção e, sempre que possível, a produções nacionais.
Aqui, pílulas sobre os filmes que vi até agora:
O sonho de Mara'Akame (México) - direção de Federico Cechetti
Primeiro longa do diretor mexicano, o filme é centrado no conflito entre pai e filho, mas logo é fácil perceber que aquele microcosmo reflete o conflito entre tradição e modernidade que permeia os países em desenvolvimento. Contraste, por sinal, é algo sempre presente no filme, inclusive com a alternância de claro e escuro, interno e externo, liberdade e opressão, realidade e delírio. As atuações naturalistas do elenco são muito bem conduzidas por Cechetti, que parece interferir minimamente nas cenas de teor mais intimista, aumentando a veracidade do enredo. O único senão do filme é a desconexão da história com o contexto ambiental exposto no começo e no final da produção. Ainda que o diretor tenha concebido o filme para exaltar uma região e uma tradição ameaçadas pelo avanço da "civilização", esse discurso é, no mínimo, tímido ao longo do filme. Atenção: há uma cena explícita de sacrifício animal.
Mercado de Capitais (EUA) - Meera Menon
Típico filme sobre o tema, no qual o enredo mostra-se sempre intrincado para a maior parte da plateia que não domina assuntos e termos financeiros. Isso não costuma ser um problema quando o mercado financeiro, em si, é pano de fundo para mostrar os conflitos pessoais, sociais e psicológicos que surgem como consequência. E esse é o maior problema de "Mercado de Capitais", que se mostra sempre muito raso e óbvio, embora paradoxalmente partindo de uma opção transgressora, ao colocar mulheres em papéis que, na vida e no cinema, normalmente cabem aos homens. Centrado na figura de Naomi Bishop (Anna Gunn, de Breaking Bad), "Mercado de Capitais" ensaia um discurso feminista, em seu início, mas ao longo da história, e em seu final, apenas repete chavões que poderiam também estar na boca de homens. Convencional, "Mercado de Capitais" tem suas virtudes, como a paleta de cores sempre tendendo ao cinza e prata, como se refletisse grandes centros financeiros, com seus prédios espelhados, vidros e aço escovado. Mas torna-se repetitivo, inclusive pela onipresença de uma trilha sonora meramente incidental que parece ter como única função preencher um vazio permanente.
Amor e outras catástrofes (Dinamarca) - Sofie Stougaard
Longa de estreia da atriz Sofie Stougaard, "Amor e outras catástrofes" é um filme surpreendente, baseado em uma história muito simples. Duas mulheres descobrem estar grávidas, ao mesmo tempo, e logo percebemos que as duas estão se relacionando com um mesmo homem. As semelhanças entre a esposa e a amante, no entanto, param aí, porque o primeiro ato do filme basicamente é dedicado a traçar o perfil de ambas e, se o roteiro incorre em uma pequena obviedade (a psicóloga que alcança o sucesso escrevendo sobre relacionamentos e, de repente, vê-se em um casamento destruído), a condução das duas histórias soa convincente. Sofie domina a alternância entre luz e sombra com técnica e propósito e, embora abuse de um recurso visual interessante na fusão de algumas sequências, concebe cenas fluidas geralmente usando uma câmera única em vários momentos. Construído como libelo de exaltação feminina, o filme talvez tenha seu ápice na cena em que a sogra da protagonista faz um curto e contundente desabafo contra os homens que a cercaram ao longo da vida. E a surpresa maior do filme revela-se em seu terceiro ato que, de forma natural, começa a reconhecer o humor no meio daquela sequência de tragédias pessoais, tornando-se uma narrativa muito divertida.
Elle (França) - Paul Verhoeven
Para este filme, prefiro simplesmente linkar a crítica do Pablo Villaça, do Cinema em Cena, mas queria compartilhar apenas uma impressão que "Elle" reforçou em mim. Isabelle Hupert, esse monstro da atuação, me fez lembrar a interpretação de Elis Regina para "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque. Nesta canção, Elis adota uma interpretação sempre tão suave e intimista que, à primeira audição, você parece ficar esperando a todo tempo o momento em que ela vai soltar a voz, gritar para o mundo a saudade contida naquela letra. E ela não o faz. E é genial justamente por não fazê-lo, porque a tristeza e a melancolia da música expressam isso de forma cortante. A Michelle de Isabelle Hupert, em "Elle", faz exatamente isso.
Pitanga (Brasil) - Camila Pitanga e Beto Brant
Descrever "Pitanga" como um documentário sobre "a vida e a obra" do ator Antonio Pitanga é reduzi-lo ao seu formato. A essência desse trabalho é a história do próprio cinema brasileiro, da emancipação do negro na sociedade, da inserção do artista negro em produções de massa, da censura e da ditadura no Brasil, da liberdade sexual, da luta pelas desigualdades e da desconstrução de papéis. "Pitanga", como o próprio Pitanga, é um ato de resistência em um momento tão difícil da história do Brasil. É uma reafirmação de que é possível sobreviver, com alegria, aos recorrentes golpes na autoestima do povo brasileiro.
Então morri (Brasil) - Bia Lessa e Dany Roland
Mais de 500 horas de filmagens, dezenove anos de trabalho, e um resultado desconcertante. O documentário "Então morri" percorre cenas da vida de uma mulher, da morte ao nascimento, no sertão do Norte e do Nordeste brasileiro. Na sessão de estreia, na Mostra, os diretores Bia Lessa e Dany Roland contaram que a opção por conduzir o documentário a partir da história dessa mulher, repartida em várias histórias de mulheres diferentes, aconteceu depois da captação desse vasto material. Não por acaso, o trabalho é dedicado ao cineasta Eduardo Coutinho, que participou da produção e, inegavelmente, é uma influência visível na construção desse verdadeiro tratado sociológico brasileiro. (A noiva, que aparece na foto acima, protagoniza uma das cenas mais tocantes do filme e, confesso, suas lágrimas não me saem da cabeça...)
Sunday, October 23, 2016
Sunday, September 04, 2016
Aquarius, um tratado sobre a resistência
Sonia Braga começou a ganhar notoriedade no Brasil em 1968,
quando participou da montagem brasileira do musical “Hair”, que tinha como um
de seus temas a música “Age of Aquarius”. Nas peças de divulgação do longa “Aquarius”,
do diretor Kleber Mendonça Filho, não vi nenhuma indicação de que o nome da
obra faça algum tipo de homenagem ou referência ao início da carreira da atriz.
No filme, “Aquarius” é o nome do edifício onde a personagem de Sonia mora, e
centro do conflito em torno do qual a história foi construída.
Ainda que esta seja apenas uma coincidência, não é incorreto
dizer que “Aquarius”, o filme, é um estudo de personagem que dificilmente teria
a força que se traduz na tela sem a interpretação de Sonia Braga. O que, ao
mesmo tempo, não quer dizer que os elementos que alicerçam a obra sejam
desprezíveis nem ao menos acessórios. Começando pelo roteiro, escrito pelo
próprio diretor.
A história de “Aquarius” é muito simples: crítica de música
aposentada, Clara (Sonia Braga) mora em um pequeno edifício na avenida da praia, no Recife,
que é alvo de uma incorporadora imobiliária. Todos os demais proprietários já
venderam seus apartamentos, menos Clara, que não quer se mudar do local e
enfrenta, por isso, uma série de conflitos, com os donos dessa empresa, com sua
família, com outros antigos proprietários e com a estranha fauna que passa a
frequentar o prédio.
Como já havia feito em “O som ao redor”, seu excelente
primeiro longa de ficção, Mendonça estruturou o roteiro em três capítulos, oferecendo
ao espectador o (falso) conforto de dominar os três atos da obra. Volto ao
parêntesis depois. No primeiro capítulo, a personagem principal é apresentada,
começando com uma sequência ocorrida no passado, precisamente em 1980. E já é
admirável observar a reconstituição da época ali apresentada, mais um trunfo de
“Aquarius”.
Em uma festinha familiar, ali estão as garrafas de
refrigerante de vidro, as mulheres com blusas de ana-ruga (acho que esse tecido
caiu em extinção...), os meninos com shorts muito curtos, que os deixavam a
todos meio pernaltas. Com cabelos também muito curtos, Clara é logo mostrada
como alguém que sobreviveu a um câncer e a seu agressivo tratamento. É natural,
esperado e quase impossível não se identificar com aquela mulher que se mostra,
nos primeiros momentos, como uma resistente.
É também sintomático que o roteiro já circunde Clara, naquele
momento, de figuras que não farão parte da sua vida futura, o período que ocupa
a grande parte da história, dando pistas inequívocas de que o passado daquela mulher talvez seja seu maior patrimônio. A voz de Freddie Mercury, a canção de Altemar
Dutra, a citação a Elis Regina, a presença da tia e do marido: tudo isso serão
lembranças na vida da Clara sexagenária, que surge marcada pelo tempo, mas
ainda bela e vigorosa e, sobretudo, serena em sua nova vida de aposentada.
Outro detalhe fundador da personalidade de Clara é dado em
um breve diálogo da personagem com sua empregada, logo no início da história: a
relação de hierarquia, a estratificação social estão ali estabelecidas. Clara é
pequeno-burguesa e se beneficia do privilégio de ter alguém para servi-la, mas
a gentileza, quase doçura, com que se dirige à diligente Ladjane (Zoraide Coleto) mostra que
estamos diante de uma mulher que cultua a empatia, outro ponto a favor da
identificação do público com a protagonista.
O desempenho de Sonia Braga é magnífico em “Aquarius”.
Ponto. Mas, se o filme se torna uma daquelas referências nas quais não se
consegue imaginar outro ator para o papel, isso também é mérito da direção de
Mendonça e do ritmo que ele imprime às quase duas horas e meia de projeção. As referências à música são constantes no filme – e nem poderia ser
diferente, porque Clara é uma jornalista e crítica de música aposentada e
porque som e música já são referências da obra do diretor. Nesse sentido, se fosse uma peça
musical, “Aquarius” seria uma sinfonia que começa em intensidade pianíssimo e
termina em fortisíssimo (assim mesmo, cheio de “esses” e de fúria). Ainda que a cena de abertura do filme traga um grupo de jovens escutando música em volume alto no carro, o ruído externo desse começo parecerá silêncio perto do grito do ato final.
A direção de Mendonça é
a mão discreta e ao mesmo tempo segura que vai guiando Clara, seus companheiros
e fantasmas por uma narrativa que descreve aparentemente um conflito urbano
frequente nos dias atuais. Mas que, com um pouco de sensibilidade, pode estar
descrevendo o Brasil, e também retomo essa ideia no final.
Mendonça, evidentemente
um cinéfilo cheio de referências, imprime enorme variedade de linguagens em
“Aquarius”. É capaz de criar, com a mesma habilidade, planos abertos que situam
o espectador na Recife que acolhe a história e diálogos internos cheios de
tensão, como aquele que coloca os três filhos de Clara (Maeve Jinkings, Germano Melo e Pedro Queiroz) de um lado, a
mãe do outro, como em um ringue. Independentemente dos golpes eficientes dos
mais jovens, embasados em preocupações genuínas, o espectador naturalmente se
coloca do lado oposto, torcendo e quase tendo certeza de que a parte
aparentemente mais frágil da história levará os três oponentes às cordas, e os nocauteará com uma firmeza desconcertante.
Com essa mesma habilidade, o diretor apoia-se todo tempo em uma condução generosa, transparecendo não apenas a confiança nos
atores como também a aposta na criação coletiva. Essa busca de autenticidade chega a
criar trechos com evidente sintoma de improviso nos diálogos, como na
cena da conversa de um grupo de mulheres em um baile “de terceira idade”, filha
legítima do Neorealismo italiano, ou da Nouvelle Vague francesa. Esta, por
sinal, também parece legar à narrativa uma breve, mas poderosa sequência de
cortes secos, mostrando Clara sozinha em seu apartamento, como reforço à ideia
de que o fato de estar ali, sozinha, não significa letargia ou tédio, já que
seu espírito não se contém diante do conflito maior – e dos menores – com que
tem de lidar.
Chegando ao terceiro e instigante capítulo, “O câncer de
Clara”, o roteiro desconstrói o aparente controle do espectador sobre aquela
obra em três atos, e aqui retomo o parêntesis do início. No lugar de um
desfecho conformista e eventualmente esperado para a vida de uma mulher
sexagenária, a história vai ganhando uma tensão cada vez mais aguda. Prolongando
o suspense em perfeita tradição hitchcockiana, a trama se apoia em diversos
elementos que não apenas justificam como tornam praticamente inevitável o gesto
final da protagonista. E é digno de aplauso o recurso engendrado pelo
roteirista/diretor de contar sem mostrar, sugerir sem explicitar, um Polanski
pernambucano parindo um bebê demoníaco cheio de vida nauseante em plena praia
de Boa Viagem.
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Protesto em Cannes: "Aquarius" tem lado |
Clara, a mulher aparentemente apegada ao passado, é
também a mente mais transgressora de toda a trama, seja pela maneira
como assimila as mudanças do mundo ou pela forma como lida com a própria
sexualidade e com a incompreensão estúpida ou ingênua sobre ela, dos homens que
a cercam. A assimilação do novo é extraordinariamente exposta na sequência em
que Clara explica a uma repórter como se relaciona às várias mídias de música
do presente. O semblante pouco inteligente da jovem jornalista deixa evidente
que ela não entendeu nada do contexto que a veterana colega expôs. Caberá à repórter um mero
esforço para enquadrar a antiga crítica em uma frase-manchete que certamente já
saiu escrita da redação, antes sequer de ser feita a entrevista.
Mas é no embate com o jovem administrador de empresas Diego (Humberto Carrão), o maior antagonista da trama, que Clara dá voz ao discurso
mais forte, resistente e contundente de “Aquarius”. Aquele velho edifício, que por força do
dinheiro vira literalmente uma suruba e ao mesmo tempo um ninho de evangélicos,
cabe como metáfora do Brasil atual, sempre e ainda dominado por oligarquias que
só enxergam seus próprios interesses, agindo de forma diametralmente oposta aos
gestos empáticos de Clara. Um autêntico câncer corrói “Aquarius” – o edifício e
o Brasil – e não deixa de ser melancolicamente tocante supor que “o país do
futuro” possa continuar sendo tão mais “casa grande & senzala” do que “era
de Aquarius” como, há quase 50 anos, a jovem Sonia Braga, nua em cima do palco,
ousou sonhar.
Sunday, May 29, 2016
Mais uma vez, a arte me salvou
Não sei dizer quantas
epifanias e catarses o cinema, a música, o teatro e a literatura já produziram
na minha vida. Todas, de alguma forma, me recolocaram no trilho da sanidade
mental, embora eu muitas vezes só tenha percebido isso muitos anos depois. Eu
achava graça por ter chorado tanto em “Dumbo”, na cena em que o filhote de
elefante é separado da mãe, e só depois associei aquele choro como uma resposta
elaborada ao ciúme que o nascimento do meu irmão gerou em mim.
Às portas da adolescência, fui assistir ao musical “Aí vem o
dilúvio” e fiquei obcecada pela peça, em especial por uma cena na qual os
personagens formavam casais que tinham por missão repovoar a Terra. “Bela noite
sem sono...” era um dos versos da canção e, novamente, apenas muitos anos
depois eu entendi que a sensualidade delicada daquele momento explicou a mim a
ebulição de hormônios que eu experimentava – e estranhava. E me pacificou.
Nunca deixou de ser assim. “Cem Anos de Solidão”,“Central do
Brasil”, um show extemporâneo dos Mutantes, “Pina”, “Ela”, para citar apenas
alguns. De fato, acho que nunca vivi um ano sem que alguma obra de arte fizesse
o favor de me colocar no prumo, ou me convulsionar a ponto de repensar as
escolhas e o rumo da minha vida. E sempre me sinto um pouco constrangida com
isso, porque entendo arte como entidade inútil, no sentido de ter fim em si
mesma. Utilizá-la para alguma coisa, ainda que em nível moral, mental,
espiritual, soa a mim como profanação.
E hoje essa tarefa coube ao filme “Ponto Zero”, do diretor José
Pedro Goulart.
Na sexta-feira passada, comentei brevemente com a minha mãe
que não conseguia pensar no estupro coletivo da garota carioca sem ter vontade
de chorar. Não era verdade. Cada vez que lia ou escutava algum fato relativo a
esse crime, eu não tinha vontade de chorar. Eu sentia angústia, raiva, nojo.
Mas lágrima nenhuma descia.
Sintomaticamente, desenvolvi em dois dias uma série de
reações físicas a esse conjunto de sentimentos. Uma crise de
alergia congestionou minhas vias aéreas superiores. A cabeça pesava e doía,
evoluindo durante o dia até virar enxaqueca. Crises de tosse irrompiam sem
aviso e me paralisavam a fala. Para coroar, uma afta do tamanho de uma couve-flor
deixou meu lábio com o indesejável aspecto de uma aplicação de botox assimétrica.
Fui ver “Ponto Zero” quase num voo às cegas, com
pouquíssimas referências. A beleza da cena de abertura vale pelo filme todo, e
sua retomada no final, ainda que não viesse carregada de simbolismo, seria
justificada plenamente apenas pela questão estética. Acho até que o filme
carrega demais nos simbolismos, alguns meio óbvios, como carros andando de
marcha à ré, mas nunca vou deixar de ser grata a ele, pela perturbadora sequência
de cenas sob a chuva que ocupa boa parte do trecho final.
Além de belíssimas, e de incluir uma dos meus maiores
objetos de fascínio no cinema – planos-sequência – as cenas de chuva provocaram
uma reação física inequívoca em mim. Chorei. Não, o filme não era especialmente
triste, nem esta sequência, carregada de referências a morte e renascimento,
tinha algo de triste. Era um rito de passagem do personagem central, mas
funcionou como catarse genuína para mim. Três dias depois da notícia do estupro,
de pelejar com o peso da cabeça, com o incômodo da alergia, com a afta e com o
nó no peito, “Ponto Zero” parecia ter puxado a tampa do meu ralo. Chorei os
oito quilômetros que separam o cinema da minha casa. A cabeça não dói mais,
estou respirando bem, a afta drenou, aquela dor entre as costelas sumiu.
A arte foi o que de melhor nossa espécie medíocre produziu
neste planeta e vou continuar usando-a como tábua de salvação. Bom para mim.
Mas, e a menina?
Friday, May 27, 2016
Cultura do estupro: isso É política
Estou disfarçando, mas
não está fácil viver em um país em que uma moça é estuprada por 30 e um “ministro”
recebe um apologista do estupro.
Escrevi esta frase no Twitter, na tarde desta quinta-feira.
Algumas pessoas começaram a reproduzi-la, até que ela chegou a alguns
formadores de opinião da rede social, desses que têm dezenas de milhares de
seguidores, que também reproduziram. Muitas horas depois, continuo escutando o
sinal no celular, dando conta de que alguém a está curtindo ou compartilhando.
Não é ruim a sensação de perceber que não estou sozinha na minha indignação.
Mas o sentimento de empatia não preenche a tristeza que continuo sentindo com
tudo isso.
A um desses grandes formadores de opinião que reproduziram
minha frase, o neurocientista e professor Miguel Nicolelis, respondi com uma
pergunta direta: manifestar-se é pouco, indignar-se é pouco – o que fazer? Ele
respondeu que a saída é investir em educação com cidadania. Claro, a resposta
honesta a essa pergunta não pode supor uma ação cirúrgica pontual, que extirpe
a cultura do estupro da nossa sociedade. A mudança virá com o tempo. Mas, e até
lá?
Quando digo que não está fácil viver nessa sociedade, não
estou usando de retórica. Sou mulher e sinto ecos dessa cultura no meu dia.
Quando vou sozinha ao cinema e noto olhares de estranhamento pela minha
ausência de companhia. Quando dirijo meu carro sozinha, à noite, e me forço a
continuar olhando para a frente, impassível, porque o condutor do carro ao lado
acha que o fato de estar desacompanhada funciona como senha para eu ser
assediada.
Eu poderia continuar enumerando as situações desagradáveis
que uma mulher como eu enfrenta cotidianamente, e elas vão desde irrelevantes
dissabores, como o garçom que entrega a conta para meu filho de quinze anos, supondo
sempre que o homem da mesa vai pagar a despesa, até grandes inquietações de
ordem moral, como embotar minha própria sexualidade enquanto não tiver certeza
de que poderei expor isso para um interlocutor civilizado, que não vai me
classificar como vagabunda.
(Aliás, cabe aqui uma breve reflexão sobre o emprego das
palavras vagabundo e vagabunda, na nossa sociedade. Vagabundo é o homem que não
trabalha. Vagabunda, a mulher que transa com quem quiser, ou com qualquer um,
ou com muitos. O defeito, no homem, é não prover, pecado venial em sua
existência. O da mulher, fazer o que quiser do seu corpo, pecado mortal.)
Mas, na fila dos oprimidos, estou em penúltimo lugar. Sou
mulher, branca, com nível superior de escolaridade, tenho casa própria, carro,
dois aparelhos de TV em casa. Acho que são esses itens que definem um cidadão
de classe A no Brasil. Atrás, na fila da opressão, apenas os homens iguais a
mim. À nossa frente, os homens pobres, os homens pretos, os homens pretos e
pobres, as mulheres pobres, as mulheres pretas, as mulheres pretas e pobres.
Olham estranho para mim no cinema? O filme não ficará pior
nem melhor por isso. O macho alfa do carro ao lado está lançando olhares
lascivos em minha direção? Daqui a pouco, o farol abre. O garçom acha que meu
filho é o provedor? Ele está repetindo um gesto ancestral e, afinal, muitos
homens ainda fazem questão de pagar a conta, e algumas mulheres aceitam isso. O
cara se escandalizou com minha franqueza na abordagem? Valeria menos que um
cinema, com filme ruim.
Eu estou muito, mas muito menos vulnerável à violência de um
estupro que a moça da favela, isso é fato. Mas nem por isso vou me sentir menos
agredida do que me senti hoje. O fato de estar mais resguardada, na prática,
não me protege da agressão de saber que uma semelhante a mim foi violentada por
mais de trinta homens. Nem de encontrar opiniões que culpam a vítima pelo crime
que ela sofreu.
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Regras para namorar minha filha: 1 - Eu não faço as regras, 2 - Você não faz as regras, 3 - Ela faz as regras, 4 - O corpo é dela, as regras são dela |
Na prática, o que posso apresentar como contribuição à
mudança dessa cultura do estupro? O fato de estar criando um jovem para que ele
respeite as mulheres como donas de seus corpos, e tudo o que isso significa em
termos de aproximação, abordagem e envolvimento? Sinceramente, isso é minha
obrigação como mãe.
Mas sinto que há algo positivo nascendo dessa tragédia que
hoje chegou a nós. Esta é uma causa política. Já há eventos programados para os
próximos dias, de protesto e discussão sobre a condição da mulher. Vá a algum
deles, engaje-se, manifeste-se. Acho que poucos brasileiros mentalmente sãos,
hoje, seriam capazes de afirmar que a nossa sociedade não naufragou. E a nossa
sociedade é essencialmente patriarcal, oligárquica, elitista. Despertar – e agir
– contra a cultura do estupro pode ser um começo para romper o monolítico
atraso moral do Brasil.
Monday, May 23, 2016
Certo agora, errado antes: amor à arte
Se “viver é desenhar sem borracha”, como disse Millôr
Fernandes, a arte ignora esse fatalismo. Qualquer forma de narrativa, literária
ou audiovisual, permite contar o mesmo fato de maneiras diferentes, inclusive
movendo elementos que modifiquem essencialmente a própria história. O filme
sul-coreano “Certo agora, errado antes” faz isso de uma maneira desconcertante.
À primeira vista, é uma história de amor, ou de mera atração,
entre um consagrador diretor de filmes “de arte” e uma artista plástica
iniciante. Tudo o que dá errado na primeira parte do filme (“errado antes”)
transforma-se com o movimento de uma única peça – uma informação fundamental
sobre a vida do diretor. E é a segunda parte do filme, quando a história é
recontada acrescida dessa informação, que o filme se revela bem mais que uma
história de amor.
A simplicidade que o diretor Sang-soo Hong imprime a cada
cena logo parece deixar clara a intenção da obra: contar uma história. As cenas
são gravadas sempre com uma única câmera, muitas vezes fixa. O recurso do zoom,
que surge esporadicamente, pode soar anacrônico, quase pueril, lembrando o
movimento de câmera dos antigos filmes de lutas marciais. Aqui, no entanto, ele
parece empregado apenas para captar mais de perto a expressão facial dos
protagonistas e, aos poucos, vai deixando o espectador mais próximo daquela
história e mais íntimo daquelas pessoas.
Ao acrescentar a informação essencial à história, na segunda
parte (“certo agora”), Sang-soo Hong não apenas dá outro rumo à trama de
amor/atração entre o diretor e a artista plástica. Ele redimensiona ambos e, ao
fazer isso, propõe uma discussão que faz eco na própria arte.
Nesse momento, o personagem do
diretor humaniza-se, deixa de ser “o famoso diretor Ham Cheon-soo”, cultuado como
gênio, para ser apenas um ser humano sujeito a beber demais, e a falar demais,
e a dar vexame.
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A artista plástica e o cineasta, no ateliê: discussão essencial |
Sob esse prisma, duas sequências deixam claro que a intenção
de Sang-soo Hong, ao contrário da primeira impressão, não era apenas contar uma
história de amor/atração, mas generosamente colocar a própria arte em discussão.
Os diálogos entre o diretor e a artista plástica, no ateliê dela, antes e
depois, revelam essa revisão. No segundo momento, é lapidar uma resposta da
moça à suposição de que sua pintura era uma forma de fugir da solidão. “Não,
quando eu quiser fazer isso, eu vou procurar um cara legal.”
A segunda passagem é a relação do diretor com um crítico
local, responsável pela mediação de uma palestra sobre a obra do cineasta. No
momento “errado” da história, o diretor sente-se agredido pelas perguntas do crítico,
nitidamente sentindo-se aviltado. Seu estado de espírito – preso ao pedestal –
parece agir contra uma interlocução franca e construtiva com quem quer que
seja. Na recontagem da história, despido da faceta de mito infalível, o diretor
surge relaxado e aparentemente feliz, em ver sua obra discutida e valorizada em
um ambiente de pessoas interessadas no que ele tem a dizer.
Depois de descer do pedestal, com a simples admissão de uma verdade essencial, ele parece tornar sua própria arte mais verdadeira e mais propícia a atrair, enlevar, agradar ou simplesmente provocar a reflexão em quem tiver contato com ela.A cena final, cercada de afeto e compreensão, faz a
ponte definitiva entre aquele casal improvável. Não seriam, afinal, suas vidas
distantes que os uniriam, mas a arte.
Monday, April 18, 2016
Choram Paulinhas e Vanessas
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Talvez tenhamos que reaprender a ser pedra |
Fechei a janela do banheiro, abri a torneira da ducha,
liguei o rádio em alto volume, enfiei a cabeça debaixo da água. Depois de sair
da última colocação, no primeiro turno, o Corinthians chegava à final e perdia
para o São Paulo, no Campeonato Paulista de 1987. Não queria ouvir a
comemoração lá fora, os fogos, os gritos.
Sentei ao lado da janela, só porque o Outono tinha se
fantasiado novamente de clima do Saara, acompanhei os votos no Twitter, meti
fones de ouvido e, ao sinal do desfecho, soltei Red Hot Chili Peppers no
máximo. A Câmara dos Deputados tinha aprovado o impeachment da presidenta Dilma
Rousseff. Não queria ouvir a comemoração lá fora, os fogos, os gritos.
“Você parece criança que, quando os pais dão bronca, tampa
os ouvidos e fica gritando qualquer bobagem para não ouvir!”
Meu filho, depois de socar o sofá e o chão com suas luvas de
muai thai, tinha certa razão em criticar um traço tão imaturo de escapismo
quanto aquele. Não me demovi do gesto. A primeira música acabou, a farra na rua
continuava. Soltei outra canção. Finda a segunda, o silêncio.
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Chora mais. Depois, luta (foto Gustavo Andrade AFP) |
Perdemos. Sim, perdemos feio, de lavada. É triste perder e,
se o gesto foi o mesmo de quase trinta anos atrás, bancando a criança mimada que
não, não quer ouvir, desculpem-me, companheiros. Tenho a pele fina, os ouvidos
sensíveis e, talvez, o mais relevante: um ego inflado que não gosta de ser
tripudiado. É por ele que não me exponho em brigas políticas ou futebolísticas.
Talvez eu seja menos civilizada do que minha postura sugere. Eu não digo tudo o
que penso – de pênaltis mal marcados a votos porcamente justificados – mas
penso cada barbaridade que, deixa pra lá...
Vou continuar não brigando, mas meu coração foi se apertando
e fazendo brotar palavras à medida que interagia com amigos – reais e virtuais
– na noite deste domingo. Eram Paulas, Wesleys, Vanessas, Alans, Tatianas,
Gustavos. E os que mais me comoviam eram os bem jovens, muitos deles
entristecidos não apenas pela derrota, mas principalmente por ver aflorar
sentimentos de intolerância que deságuam em algo que não pode ser chamado de
outra coisa que não seja fascismo.
Por partes, companheiros. Primeiro, à tristeza pela derrota.
Muitos de vocês não eram vivos, ou pelo menos crescidos, enquanto vivíamos uma
ditadura militar no Brasil. Não viveram a campanha pelas Diretas Já, não
votaram para presidente pela primeira vez junto com seus pais. Não vou dizer
que a derrota de ontem foi pouca coisa, não foi. Mas não posso deixar de notar
que os últimos treze anos, que representaram a continuidade de um governo de
esquerda no Brasil, significaram mais da metade da vida de alguns de vocês. A
guerra ainda não está perdida, e a mobilização de todos continua sendo vital
para tentar reverter esse quadro.
Mas, acostumem-se à ideia de agir como oposição, caso
percamos também a guerra. Esses treze anos, coincidentemente, marcaram também a
popularização das redes sociais no mundo. É certo que a oposição à esquerda no
Brasil articulou-se de forma competente por esse canal. Panelaços e
manifestações nasceram nos últimos anos por meio desse veículo. E pessoas que
pensam de forma contrária a nós sentiram-se encorajados para se mostrar.
Mostraram muita convicção e vários exageraram na dose de agressividade.
Mas eu arrisco dizer que a neodireita brasileira não tem
noção do que a esquerda pode fazer quando deixar de ser vidraça e se tornar
pedra novamente, como fomos na maior parte da nossa existência.
Fundamentalmente, porque nosso ativismo não se restringe ao ambiente virtual.
Estamos lastreados por forças sociais (de trabalhadores, de estudantes etc.)
que pode – e, ao me parece, vai – mobilizar a sociedade para além dos protestos
festivos aos domingos.
Por isso, jovens companheiros, quando passar a vontade de
chorar, de se esconder no riff barulhento de um rock estridente ou de socar o
chão, mobilizem-se novamente. Já fizemos isso antes. Dói, mas caleja, e não
mata ninguém, pelo menos enquanto não se chegar à conclusão de que a ditadura é
melhor, como pensam alguns.
Quanto à tristeza de ver o discurso fascista florescendo
entre nós, principalmente entre os mais jovens... Desculpem, talvez para essa
eu precise da ajuda de vocês. Eu entendo e louvo a ideia de que jovens têm de
ser do contra. É quase orgânico, e esperado. E acho que o atual governo tem
erros terríveis a serem corrigidos, e acharia natural ver mais jovens
empunhando a bandeira da inclusão social ampliada, da descriminalização das
drogas, do respeito à mulher, do casamento homoafetivo etc. Mas não consigo
encontrar explicação para, ao contrário, ver crescer as intolerâncias raciais,
religiosas e étnicas, a homofobia, o machismo, a misoginia. Alguém me ajuda com
isso?
Wednesday, April 13, 2016
Rosa e azul
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Apresentando a donzela à corte: bleargh! |
Dois fatores somavam-se à minha ojeriza a bailes de debutantes: eu tinha uma autoestima rastejante na época, com um corpo habitualmente acima do peso e aparelho nos dentes, o que sempre me fazia sorrir de boca fechada nas fotos. Vestidos de baile - ainda mais nos anos 1980, cheios de mangas bufantes - não favoreciam a discrição que eu sempre pretendia.
Mas o mais severo senão era ideológico, bipartido em duas vertentes. Quando entendi que o baile de debutantes remontava ao conceito de "apresentar a jovem à sociedade", meu sangue feminista ferveu. Eu não estaria na vitrine desse mercado humano, à espera de pretendentes, mesmo que minhas amigas "normais" me dissessem que era só uma festa, para todo mundo dançar, divertir-se, paquerar.
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A "diferentona": "Com reco eu não danço" |
A segunda vertente, intransponível, era política. A moda, na época, era convidar cadetes das Forças Armadas para ir dançar a valsa com as 15 escolhidas pela aniversariante. Era 1985. Tínhamos acabado de encerrar a ditadura militar. Toscamente, é verdade, com um governo eleito indiretamente pelo Congresso Nacional (o hábito é antigo, como podemos perceber). Mas estava lá, um civil no poder. "Eu, dançar com um reco?!" Era assim que nos referíamos aos aspirantes a militar, fossem do Exército ou da Aeronáutica. Que eu me lembre, nunca apareceu nenhum grupo da Marinha nessas festas, e nem que aparecesse o próprio Richard Gere de quepe branco, saído do set de filmagem de "A força do destino", eu bailaria o Danúbio Azul com ele.
Atravessei o ano indo a festas, dançando ao som de Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Madonna, George Michael (que ainda era do Wham), A-Ha. Enlouquecidas com tantos bailes, as mães parecem ter costurado um acordão entre si, para que as 15 donzelas usassem sempre vestidos cor de rosa. Ninguém se importava em repetir o modelo. Minha mãe providenciou para mim um conjunto de saia e blusa, em chamalote azul. Era um tecido da moda, dava a ilusão de formar umas ondas na superfície. Elas iam de rosa, eu ia de azul, e seguia ignorando solenemente todo e qualquer cadete. Bem feito. Segui boca virgem até os 18 anos, e isso não é força de expressão. Minhas amigas achavam engraçada minha rebeldia. Aos 15 anos, a gente gosta de ser do contra. O que, por esses tempos, significava marcar posição contra os cadetes do baile de debutantes. Hoje, os do contra tiram fotos com a PM.
Sunday, March 27, 2016
Homens-objeto
O filme “A grande aposta” recebeu cinco indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e diretor. Levou
apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, o que não quer dizer que o filme
seja ruim. Pelo contrário, achei “A grande aposta” superior a outros três
concorrentes a melhor filme que vi neste ano – “O regresso”, “O quarto de Jack”
e “Spotlight”, embora tenha gostado muito dos dois últimos.
Quando comentei que tinha adorado “A grande aposta”, nas
redes sociais, algumas pessoas questionaram se eu não havia considerado o
enredo “técnico demais”, por conta das exaustivas referências a termos do
mercado financeiro. Bem, o filme propõe-se a contar de que maneira a bolha
imobiliária dos Estados Unidos tornou-se uma enorme crise econômica mundial,
não havia como escapar desses termos.
Mas acho que os roteiristas foram hábeis na tarefa de
introduzi-los, primeiro com as repetições constantes de sua definição, cabíveis
nos diálogos, e também com o recurso bem-humorado de utilizar celebridades como
a cantora Selena Gomes para exemplificá-los. Ainda que não se entendam todos os
meandros desse ambiente, é fácil deduzir a mensagem principal do filme: o
mercado financeiro é uma selva.
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Christian Bale, em "A grande aposta" |
No entanto, não é impossível que eu tenha me abstraído da
dificuldade de entender todo o discurso técnico por um detalhe prosaico: o filme tem um monte
de atores bonitos e/ou charmosos, e em dado instante eu percebi que além de
seguir a história, eu estava interessada em continuar vendo aquele desfile de
espécimes masculinos. Não eram poucos: Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt
(que é um fracasso retumbante em tentar parecer gordo e velho), além de nomes
menos conhecidos, como Hamish Linklater (o problemático, porém engraçado, irmão
de Julia Louis-Dreyfuss na série “New adventures of old Christine), e até
alguns coadjuvantes como Max Greenfield e Billy Magnussen.
Não. Não eram poucos. Era praticamente um monopólio de
homens na tela. E logo me lembrei de outros dois filmes, citados anteriormente,
que praticamente só mostravam homens em ação: “O regresso” e “Spotlight”. Comentei
isso com o amigo crítico e escritor Pablo Villaça, diretor do site Cinema em Cena, e ele apontou que a falta de
representatividade das mulheres no cinema não é novidade, em vários aspectos.
Um deles é a baixíssima quantidade de mulheres indicadas ao Oscar, ao longo da história, na
comparação com homens, em todas as categorias, como mostra este texto (em
inglês).
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Brad, desista: você nunca fica feio |
Também me chama a atenção o fato de que nem sempre as
atrizes premiadas pela Academia estejam nas produções indicadas ou vencedoras
dos principais prêmios (Melhor filme, especificamente). Este outro texto,
também em inglês, quantificou isso, mostrando que, na história, apenas 40% das
mulheres indicadas na categoria Melhor atriz estavam em produções indicadas a
Melhor filme, contra 52% entre os homens.
Uma tentativa de justificar essa diferença poderia passar
pela escolha dos temas. Ora, se vamos falar de mercado financeiro e o mercado
financeiro é dominado por homens, é natural que tenhamos mais atores que
atrizes. O mesmo se aplica para um filme que fale de uma tropa do exército
deslocando-se em um ambiente inóspito. No entanto, praticamente qualquer
história pode ser contada do ponto de vista das mulheres afetadas direta ou
indiretamente por elas. E ainda: o mundo está cheio de histórias cujo
protagonismo se concentra em mulheres ou em grupos de mulheres, e muitas dessas
histórias esperam ser contadas.
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Ryan Gosling: "ô, lá em casa..." |
Mas, então, fiquei pensando que minha atitude contemplativa
da beleza masculina, diante de um filme tão impregnado de testosterona, ainda
que sério, talvez tenha sido uma pequena rebeldia. Querem nos impor machos
brancos indômitos nas telas, relegando as mulheres a papéis menos que
secundários? Não tem problema. Façamos deles homens-objeto, eventualmente desconsiderando
o que estão falando, apenas para admirar seus dotes físicos. O gesto de
desprezo intelectual não é muito diferente do que se tem feito regularmente com
a figura feminina, na mídia, em geral. Mulheres seminuas têm ajudado a vender de cerveja a carro 0 km, sem precisarem abrir a boca. De preferência, não abrindo.
De fato, tenho visto crescer, nas redes sociais, uma postura
frontalmente lasciva das mulheres em relação a atores, esportistas e
celebridades, cultuando esses homens eventualmente mais pelo seu invólucro do
que pelo que dizem e fazem. Eu mesma tenho seguidores dos dois gêneros que se
atiçam com meus comentários ligeiramente maliciosos ou meramente contemplativos
da beleza de pilotos de Fórmula 1, jogadores de futebol e artistas, como se eu
emulasse um macho típico soltando um gracejo do gênero “ô, lá em casa...”.
Essa naturalidade em “coisificar” um homem talvez seja boa
notícia, por refletir mais uma fronteira vencida pela mulher na sociedade. Mas
não aplaca a sensação de baixa representatividade que esses mundos – do cinema,
do esporte etc. – ainda nos impõem. Eu trocaria alguns suspiros motivados por
músculos salientes, olhares sedutores e sorrisos marotos pela sensação de maior
pertencimento a esses mundos. Basicamente porque a contemplação na tela do
cinema ou na TV é mera idealização, mas a desvantagem feminina é real, palpável
e cruel.
Wednesday, March 23, 2016
Eu não te odeio
Posicionei o celular na direção dele e perguntei se poderia
fotografá-lo. “Por que, você vai me bater?” Eu tinha acabado de sair do
trabalho, estava usando um vestido estampado, sandálias de salto e carregava a
bolsa em um ombro, a mochila com o notebook no outro. Penteada, levemente
maquiada, como sempre. Eu realmente devo parecer madame, ou executiva. Era até
natural que ele não me identificasse com o restante das pessoas que estava na
Avenida Paulista naquela hora, manifestando-se a favor da democracia, a maioria
vestindo vermelho. Mas era improvável que eu pudesse bater naquele homem de
talhe enorme. Eu, um metro e cinquenta e seis de altura.
Mas entendo. Sinal dos tempos, da animosidade como regra. “O
que é isso, companheiro?” Ele se desarmou, exibiu o cartaz que carregava e eu
fiz a foto. Ri com ele. Mas não tinha nada de graça naquele rir. Não, não é
sinal dos tempos coisa nenhuma, não é de agora, não é de hoje. Um homem negro
ter medo de alguém como eu, apenas pelos símbolos de bem-nascida que carrego, é
uma das histórias mais antigas deste país. Mais velha que esta, só se ele fosse
índio.
"Vai me bater?" |
Na hora, não relacionei o episódio a outro fato daqueles
mesmos dias. Eu estava treinando, na academia, e um professor me perguntou, em
voz baixa: “Você, que é petista, como está vendo tudo isso que está aí?” O tom
de voz dele, que é contrário ao atual governo federal, carregava uma intenção evidente:
não me expor naquele ambiente em que se contam nos dedos os eleitores de
esquerda. Habitualmente acuada, por ter vivido a maior parte da minha vida em locais
hostis à minha ideologia, respondi brevemente o que ele me perguntou e subi
para fazer uma aula. Enquanto pedalava ao som de um bate-estaca, uma ideia
martelava meu cérebro. Queria retomar a conversa e corrigi-lo quanto à minha
definição. Não sou petista.
Se você chegou até aqui, já estou feliz. Em uma sociedade na
qual muita gente mal lê placa de trânsito, atrair o leitor por três parágrafos é
vitória do escritor. Caso alinhe-se à direita, não se anime com a afirmação
acima. Caso seja “petralha”, “vermelho”, “bolivariano”, não abandone a leitura.
Eu sou de esquerda, desde a adolescência e nunca abandonei
meus ideais socialistas. Já escutei muita crítica e deboche, dizendo que o
socialismo não deu certo em lugar nenhum. Para todos, sempre dei a mesma
resposta. Acredito que o socialismo ainda não deu certo porque o ser humano
ainda não deu certo.
E acredito que está chegando um tempo em que a sociedade vá
perceber que a lei da selva já não nos serve, que o “cada um por si” cavou um
abismo profundo no qual estamos todos caindo, puxados pelo peso das florestas
desmatadas, da força das águas armazenadas em barragens débeis, das montanhas
de corpos de crianças famélicas, de refugiados cuspidos de suas terras, de
mulheres assassinadas por maridos violentos, de gays agredidos apenas porque são.
À beira do fim, após séculos de depuração, aprendendo muito mais pela dor que
pelo amor, tenho fé: o homem vai entender que só a solidariedade salva.
Pode ser que o regime de governo que vá emergir desse
pré-caos não se chame socialismo. É claro que a mácula sobre o nome pode ser incontornável,
pelos maus tratos que governos ditatoriais ou simplesmente incompetentes lhe
impuseram. Mas não me parece haver outra saída que não seja perceber o outro
como reflexo de si mesmo, de enxergar-se naquela criança com fome, naquele
imigrante, naquele homossexual, sob o risco de cairmos todos nesse mesmo
buraco.
Qual não foi minha surpresa, recentemente, quando descobri que um
pré-candidato à disputa presidencial dos Estados Unidos – Bernie Sanders, no
caso – tem amealhado simpatizantes entre parte do eleitorado, especialmente
jovens, ao tornar públicas suas posições que confrontam fortemente os ideais do
livre mercado, deslocando o foco de um eventual governo seu para as pessoas, em
vez de servir prioritariamente às instituições.
Teorizei um pouco sobre o “meu” ideal de sociedade por dois
motivos: para expor claramente meu lado (se tivesse tido tempo de conversar com
o personagem que abre este texto, ele entenderia que eu definitivamente não
queria bater nele) e para explicar ao meu professor da academia que não
concordo com tudo o que o atual governo petista fez. Isso inclui os erros
administrativos e a corrupção (isso é tão óbvio que escrevi e apaguei essa
menção algumas vezes, mas que fique, para registro). Mas também critico os
avanços ainda tímidos desse governo em numerosas questões sociais. Eu idealizo
um governo ainda mais destemido no enfrentamento a carteis, oligarquias,
violências cotidianas e preconceitos. Este, que está aí, com muitos erros, foi
o que mais se aproximou desse meu ideal.
Um motivo que não me impulsionou a esta “saída do
armário”: convencer quem quer que seja da minha opinião. Em toda minha vida, só
tive a pretensão de ajudar a formar o meu filho, porque sou responsável por isso
e o que parece certo para mim teria de direcionar essa influência. Neste ano, ele se torna eleitor e vejo, com indisfarçável orgulho, que não reproduz minhas ideias. Confronta muitas delas, pensa por si.
Nasci e me
criei em uma família de pensamento conservador. Amigos, vizinhos e a comunidade
em torno, formada pela chamada “classe média”, seguiam a mesma linha. Os parentes
votavam em massa na Arena, quando eu era criança. Professam essa ideologia até
hoje, e por mais que me entristeça ver algumas dessas pessoas engrossando coros
raivosos, sectários e preconceituosos, não vou ao embate contra eles. Primeiro,
e mais importante, pelo afeto que me une a vários deles. Mas também pelo respeito
que tenho à opinião de cada um. Como eu, são adultos e também tiveram as mesmas
oportunidades de se informar e de formar seus pensamentos.
Acho até certa ingenuidade quando vejo amigos de esquerda
alertando a massa que prega um regime de exceção, como intervenção militar, por
exemplo, sobre os perigos que isso possa representar para o cidadão comum. Acho
ingênuo porque, de fato, dificilmente essas pessoas (gente como eu, diga-se) serão
diretamente afetadas pelo governo. Qualquer governo. Quem tem casa, carro,
diploma, sítio, plano de saúde, passaporte etc. vive altos e baixos, aperta o cinto
hoje, gasta em outlet amanhã e, no mais, toca a vida.
É claro que alguns se ressentem mais de momentos econômicos
críticos como o atual e demonizam o governo, ainda que estejam patinando em
dívidas ou em falta de oportunidades de trabalho porque fizeram escolhas erradas,
ou gastaram demais e pouparam de menos. Mas raramente uma pessoa dessa classe vai
militar politicamente ou incentivar seus filhos a fazê-lo. Geralmente, vai
fugir de “confusão”, levando sua vida de “Ouro de tolo”, na certeza de que
político é tudo igual. Não é pela ameaça da supressão de direitos que alguém
vai alertá-los para o risco de um recrudescimento político e social. Nem por
isso, vou ironizar suas escolhas, chamá-los de ignorantes, vociferar contra o
que acreditam.
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Manifestante não identificada na Avenida Paulista: não sei quem você é, mas você me representa |
Se é fácil fazer isso porque os laços que me unem a muitos
deles são os de afeto, não acho que seja impossível transportar a mesma tática
para os que eu pouco conheço. Porque, para além do discurso raivoso, das ideias
opostas ou simplesmente da aparência, pode ser que haja uma fagulha de diálogo.
Da mesma forma que o companheiro na Paulista percebeu que, atrás do meu jeito
de madame, havia ali alguém que, em grande medida, afinava o pensamento com o
dele.
Não vou terminar sem expressar mais claramente o que penso “de
tudo isso que está aí”. Mas vou fazê-lo com a ajuda do amigo Pablo Villaça, que
publicou ontem este texto. Depois de lê-lo, eu ansiei muito pelo abraço que
encerra a narrativa. Sintam-se, todos, abraçados.
Tuesday, February 09, 2016
Je suis Vai-Vai
“Eu não nasci no samba, mas o samba nasceu em mim...”. O
primeiro verso da canção “É corpo, é alma, é religião”, de Arlindo Cruz, Rogê e
Arlindo Neto, define a minha relação com o ritmo que é um dos mais fortes
símbolos brasileiros. Sou uma branquela de classe média, nascida e criada na
Zona Norte de São Paulo. Tinha, na infância, uma remota ligação com o Carnaval
pela frequência às matinês do Acre Clube, também na região. Eu adorava aquela
bagunça, muito mais para juntar confetes e jogar para cima do que propriamente
pela música.
Mas o jogo começou a virar a favor do samba quando descobri
os desfiles das escolas. Desde muito pequena, eu adorava assistir àquela
maratona pela TV e suportava com valentia as piadas recorrentes sobre “ver a
Mangueira entrar” na casa da família, em Mairiporã, onde passávamos o feriado.
E, desde cedo, fui capturada por duas escolas de samba, uma em São Paulo e
outra no Rio. A carioca era justamente a Mangueira. A de São Paulo, “meu
Vai-Vai no Bixiga”, como diz a música que abre este post, gravada pela cantoraMaria Rita.
No ano passado, vivi uma das maiores emoções da vida ao
assistir ao desfile do Vai-Vai, que homenageou Elis Regina e conquistou o
campeonato. Contei a história neste post.
No texto, eu comentava que tinha enorme vontade de desfilar,
mas que havia me retraído porque não conhecia ninguém da escola e não queria
simplesmente chegar, comprar uma fantasia e me convidar para a festa. Isso me
parecia invasivo com uma comunidade de 86 anos que é uma das maiores
referências do samba de São Paulo. Frescura minha? Talvez, mas eu respeito instituições.
Poucas semanas após o Carnaval de 2015, começou a frequentar
minha academia um rapaz muito simpático que ia todos os dias treinar com uma
camiseta do Vai-Vai. Depois de alguns dias daquele desfile de estampas,
perguntei diretamente: “você é da escola?”
E assim conheci Leandrinho Amêndola, um dos responsáveis na
diretoria pelo barracão do Vai-Vai, que não fica no Bixiga, mas perto do
Sambódromo do Anhembi. Contei para ele sobre minha emoção no desfile anterior e
de como gostaria de ter desfilado. “Não seja por isso, no ano que vez você vai.”
Eu e Leandrinho Amêndola |
No segundo semestre de 2015, comecei a frequentar a quadra
do Vai-Vai no Bixiga. O enredo já havia sido divulgado e as fantasias para o
desfile foram apresentadas em um domingo de chuva torrencial. Não tive muita
dificuldade para escolher a ala Forte Conceito, chefiada pela Sueli de Souza.
Não foi exatamente a fantasia que me cativou, embora fosse muito bonita, mas o
sorriso largo da Sueli. E foi uma surpresa descobrir que ela, tão risonha, era
irmã do Mestre Tadeu, o sempre sério maestro da bateria Pegada de Macaco do
Vai-Vai há 43 anos.
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Meu filho Gabriel, Sueli e eu, no dia em que me tornei componente da ala Forte Conceito |
Escolhida a fantasia, ganhei minha camiseta de componente –
que equivale a um ingresso para os ensaios, pagos por quem vai apenas assistir.
E passei a frequentar o Vai-Vai todos os domingos, para ensaiar o samba e a
formação da escola. Além dos ensaios no Bixiga, que também eram realizados às
terças e quintas na época mais próxima ao Carnaval, houve três ensaios
técnicos no Sambódromo, algo fundamental para ir acertando a evolução,
especialmente para nós, do Vai-Vai, que temos uma quadra muito pequena e
ensaiamos na rua. Conheci alguns componentes da ala e, aos poucos, fui me
familiarizando com aquela atmosfera. Definitivamente, eu não me sentia mais
como alguém “de fora” e, a cada ensaio, ao repetir o verso “sou raça, sou raiz,
há tantos carnavais, je suis Vai-Vai”, as palavras ganhavam mais legitimidade
para mim.
Faltando alguns dias para o desfile, comecei a sentir uma
espécie de crise de abstinência antecipada. “Meu Deus, o Carnaval está chegando
e isso tudo vai acabar.” Passei a desejar que o tempo passasse mais
lentamente, para aproveitar melhor aqueles últimos ensaios, ouvir de perto a
bateria, simplesmente estar ali.
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Na concentração, minutos antes de entrar na passarela do samba |
Tudo isso se revelou algo muito menor quando o intérprete Wander
Pires começou o “esquenta” do Vai-Vai e, da concentração, eu comecei a enxergar
nossos carros alegóricos, posicionados para entrar na passarela. A massa cantava
o esquenta (“Vem novamente a disputa, meu povo à luta, Vai-Vai”). Na sequência,
a cantora Didi Gomes fez a introdução, entoando um trecho de La Vie em Rose, em
alusão ao enredo da escola em 2016, a França. O cavaquinho chamou a melodia, os
violões entraram, e mergulhamos no refrão que abre o samba deste ano. “Mon
amour, a voz do povo é quem diz, sou raça, sou raiz, há tantos Carnavais...”.
Não era mais emoção, era euforia. Eu não tinha só que cantar
e dançar diante do público. Eu passava a ser parte da escola, e me tornava
responsável por ajudar a construir suas notas. A escola avançava na avenida e
nós, na concentração. A faixa que define o início da passarela pareceu para mim
como a cortina do palco. Eu não me sentia mais foliã ou torcedora do Vai-Vai.
Ali, éramos todos artistas, aquela era nossa peça. Ultrapassei a faixa.
Estreei.
A luz, meus amigos, é forte, o que faz da passarela um lugar
quente, muito quente. Tem que cantar – harmonia é feita disso: a escola cantou
o samba em uma única voz? Tem que dançar, sorrir e se movimentar. Os gestos
coreografados nos ensaios não serviram todos na nossa fantasia, que era imensa,
com um costeiro enorme e um chapéu que apertava a cabeça com a força de muitas
enxaquecas. Tem que observar a ala da frente, para respeitar a evolução. Tem muita
gente, e gente muito perto da pista, e é possível interagir com o público, que
canta junto, faz coração com as mãos, pula e chora.
E tem a hora que a ala passa pela bateria, e todo o resto
parece sumir no ar, com a ressonância das batidas preenchendo toda a paisagem
sonora. E quando se sai dessa massa de batuque, você escuta novamente a sua voz
e, melhor ainda, escuta a voz da arquibancada repetindo seu refrão. O corpo
cansa, a fantasia pesa, o suor escorre, e ainda assim, você sente pena quando
enxerga a outra faixa, a do fim da passarela. O show vai terminar.
Entrei na dispersão e levei um susto, vendo alguns componentes
chorando. Cheguei a pensar que a escola tinha tido problemas. Logo saí e liguei
para minha mãe, que tinha visto o desfile pela TV e, eufórica, disse que tinha
sido lindo, perfeito. Entendi o choro dos colegas. Era o mesmo que eu vertia,
agora, ao perceber que meu show tinha sido um sucesso.
No momento em que
escrevo, terça-feira de Carnaval, já sei que o Vai-Vai não conquistou o
bicampeonato, ficando atrás da campeã Império da Casa Verde, da Acadêmicos do
Tatuapé e da Mocidade Alegre. Assim que acabou o desfile, escrevi uma mensagem
para a Sueli:
“Minha querida chefe, estou triste com o resultado, mas nada
vai apagar a emoção de ter desfilado pelo meu Vai-Vai e de fazer parte da
família Forte Conceito, com muito orgulho.”
O Vai-Vai buscará sua 16ª estrela no ano que vem, e
continuará buscando novos títulos nos próximos anos. E eu vou com ele, porque
agora eu sou e me sinto parte dessa instituição, legitimamente. Je suis Vai-Vai.
Sunday, January 17, 2016
Fórmula 1, Cinema e lágrimas
Quando o piloto alemão Sebastian Vettel conquistou seu
quarto título mundial de Fórmula 1, no GP da Índia de 2013, os ouvintes das
rádios do grupo Bandeirantes devem ter percebido minha voz embargada, no último
comentário. De fato, eu me emocionei ao nível das lágrimas, depois de ver o
alemão largar na pole, liderar a maior parte da corrida e vencer a prova,
sagrando-se o tetracampeão mais jovem da história. Não que eu seja torcedora de
Vettel. O que me encantou ali foi testemunhar como um grupo de seres humanos
foi capaz de produzir um carro extraordinário, pilotado com competência incomum
por outro ser humano, produzindo juntos uma demonstração de eficiência próxima
da perfeição.
E, assim, começo este texto emulando Caetano Veloso, que é
capaz de compor uma canção em homenagem à então esposa gastando os primeiros
versos para falar de si mesmo, e não dela. (“Eu sou apenas um velho baiano/Um
fulano, um caetano, um mano qualquer/ Vou contra a via, canto contra a melodia/
Nado contra a maré/ Que é que tu vê, que é que tu quer, Tu que é tão rainha? / Branquinha...”). Pois esse texto não
é sobre mim ou sobre Sebastian Vettel, mas sobre o livro que li na minha semana
de férias, neste início de ano: “Os filmes da sua vida têm muito mais para
contar”, do escritor e crítico de cinema Pablo Villaça, diretor do site Cinemaem Cena.
A longa introdução justifica-se porque me lembrei dessa
passagem, no rádio, quando li o seguinte trecho da crítica sobre o filme “A
origem”:
“(...) E é neste momento que Christopher Nolan e o
montador Lee Smith orquestram um momento tão magnífico que, confesso, fui
levado às lágrimas durante a projeção simplesmente por admirar a beleza da
carpintaria dramática da sequência: para que possam retornar ao primeiro nível
dos sonhos (e, daí, para o mundo “real”), os heróis são obrigados a sincronizar
os “chutes” em cada andar para que estes ocorram milissegundos antes dos
“chutes” que virão no nível seguinte, levando-os, assim, de volta ao início.
Para isso, usam a música cantada por Piaf como aviso sonoro que penetra em
todas as camadas, permitindo que coordenem suas ações – e vê-los despertando em
sequência em cada “andar” foi algo que me comoveu de maneira inesperada
justamente em função da inteligência e da elegância da estrutura da narrativa.
(...)”
A correlação entre os dois momentos de emoção inesperada –
a minha, na corrida, e a dele, no filme – me forneceu mais uma pista de por que
o Pablo se tornou meu crítico de cinema de referência, nos últimos anos. Vou
chegar lá, porque antes trago outras, bem mais evidentes: os textos
extremamente bem escritos, lógicos e fundamentados, fugindo à regra de que
texto para internet tem que se curto; o enorme conhecimento sobre cinema; a
sensibilidade diante de detalhes como cores, sons, enquadramentos, aspectos que
nem sempre o sentido menos treinado tem capacidade de perceber, mas que, depois
de destacados, provocam aquela reação incontrolável de ler o texto e ficar
repetindo “isso, isso, isso mesmo!”.
E, claro, uma característica que quem lê suas críticas e
o segue nas redes sociais já conhece: em nenhum momento, ele teoriza sobre
qualquer coisa como se fosse verdade absoluta. Há opinião, claro, ele é um
crítico, mas essa opinião é sempre sustentada por argumentos e, ainda que possa
chegar à mesa do leitor mais apressado como prato feito, sempre contém uma instigação para que
o filme ou o tema do filme seja refletido, não simplesmente digerido.
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O escritor e crítico de cinema, Pablo Villaça |
É possível que eu já tivesse lido a maioria das críticas
contidas no livro no próprio site, mas reuni-las em material impresso foi uma
grande sacada da editora Rio Escrito. Primeiro porque enobreceram o conteúdo. E também porque a edição das críticas foi primorosa, seguindo uma
lógica simples, mas muito eficiente, ao reunir textos que se relacionam, de
alguma maneira. E, de uma forma muito apropriada, como se fosse ele mesmo um
filme, o livro avança para o final encaixando peças que permitem ao leitor
entender um pouco como o próprio crítico Pablo Villaça se moldou.
A emoção que a sequência de “A origem” provocou nele não é o único rasgo de humanidade nos
textos reunidos. Pelo contrário, quem conhece o trabalho dele pode até dizer
que ela é regra e há um capítulo no livro dedicado a textos francamente
direcionados para esse aspecto (Capítulo 11 – O homem na crítica). E é ali, no
terço final da obra, que se chega à crítica de “Life itself”, documentário sobre o crítico norte-americano Roger
Ebert, reconhecido pelo próprio Pablo como um dos responsáveis pela sua escolha
em seguir a mesma profissão. O texto é dos mais tocantes do livro (não vou
entrar em detalhes. Compre o livro!), mas destaco um trecho, que (enfim) fecha
a lacuna que abri três parágrafos acima:
“(...) Como Roger
costumava dizer, citando Robert Warshow, ‘um homem vai ao cinema e o crítico
deve reconhecer que é aquele homem’ – o que, na prática, implica no
reconhecimento de nossa bagagem pessoal e de nossa subjetividade diante da Arte.(...)”
Os profissionais da minha geração, que vivem de escrever
(ou de atuar em outros veículos de comunicação), foram forjados no conceito da
imparcialidade, que eu sempre questionei por considerá-lo no mínimo uma
idealização perigosa (ou, como os anos me mostraram, uma fraude criminosa).
Deparar-me com essa abordagem honesta que o Pablo exerce no seu ofício tem sido
uma experiência libertadora. Naquele GP da Índia, eu ainda me senti um tanto
constrangida com a minha emoção e tentei conter a voz. Na próxima, talvez eu
chore de soluçar.
O caminho mais curto para comprar o livro “Os filmes da sua vida têm muito mais para contar” é acessando o site Cinema em Cena. Se você
também gosta de cinema, siga o Pablo Villaça nas redes sociais. No twitter,
@pablovillaca e, no Facebook, curta a página dele.
Thursday, February 19, 2015
Vai-Vai: isto não é uma biografia, é um desfile
Aconteceu isso neste Carnaval, quando fui a um desfile de
escolas de samba pela primeira vez. Sempre adorei desfiles e via tudo que fosse
possível pela TV. Desde criança, tinha minha preferência por uma escola em São
Paulo (Vai-Vai, a escola alvinegra da Bela Vista, bairro onde nasci) e
Mangueira (a verde-rosa que me encantou por influência da minha prima Debora e
que, depois, me fisgou de vez com o enredo sobre Carlos Drummond de Andrade).
Mas nunca tinha tido oportunidade de ir à avenida, por falta
de companhia, de atitude, pura bundamolice mesmo. No ano passado, quando soube
que o Vai-Vai homenagearia Elis Regina, no ano em que ela completaria 70 anos,
enfiei na cabeça que estaria no Sambódromo do Anhembi desta vez. A ideia,
primeiro, era desfilar. Mas fui adiando minha ida à quadra da escola, mesmo
depois de encontrar casualmente o presidente de honra, Tobias, e ser estimulada
por ele a fazer parte da festa. De novo, a falta de atitude, que a essa altura
eu já reconheço. Foi a mesma que quase me fez perder o espetáculo “Elis, a
musical”. Não é só bundamolice, é instinto de preservação: sei que qualquer
coisa que se relacione a Elis Regina vai me emocionar de forma irremediável.
Acho que fujo dessa fragilidade que a emoção me impõe.
Mas, felizmente, sobrepõe-se o medo do arrependimento. Do
mesmo jeito que não admiti perder “Elis, a musical”, fui ao Anhembi no dia do
desfile e fiquei quase duas horas na fila. Saí de lá com o ingresso e, enfim,
assisti a um desfile de escola de samba.
Não tenho competência para julgar os quesitos que compõem as
notas das escolas, mas os anos de desfiles pela TV me deram algumas pistas. Das
escolas da segunda noite, na qual o Vai-Vai se apresentou, achei a Mocidade
Alegre favorita. Lindas fantasias, carros majestosos, alas coreografadas, e um
nome de peso no enredo – a atriz Marília Pera. Um desfile “correto”, mas que
esteve muito distante de empolgar a plateia como fizera a Gaviões da Fiel,
ainda no início da noite.
Mais incapacitada ainda eu me encontrava para julgar o
Vai-Vai, pela ligação emocional que tenho com tudo que se relacione a Elis
Regina. Achei um espacinho na grade e lá me plantei, desde o fim do desfile
anterior, da Acadêmicos do Tatuapé, que veio com um samba magnífico, sobre o
ouro.
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Maria Rita, filha de Elis, na Comissão de Frente |
Chega a hora do Vai-Vai e ouço “Elis Regina” à capela,
cantando um trecho de Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant.
Havia informações desencontradas se esse canto à capela seria feito pela filha
de Elis, Maria Rita. Na hora, pareceu que se tratava da própria Elis gravada,
mas depois eu soube que a dona da voz era a cantora Didi Gomes, de timbre
idêntico ao da homenageada. Assim que começou a soar o samba-enredo do Vai-Vai, o
Sambódromo entrou em estado de comoção.
As bandeirinhas com o nome do enredo e uma foto de Elis,
distribuídas antes do desfile, eram agitadas freneticamente. E o público
cantava o samba inteiro. Marotamente, os compositores se apropriaram do refrão
de “Maria Maria” e o mestre de bateria integrou-o a uma paradinha estratégica.
Resultado: o Sambódromo cantava o “aê-âe-aá-ê” praticamente em uníssono. Eu
achava que iria chorar ao longo da homenagem, mas comecei antes que a comissão
de frente chegasse ao meu setor.
Maria Rita não cantou à capela. Fazia parte da
comissão de frente, abrindo a escola. Estava emocionada, muito. Nunca vou
deixar de me comover com essa relação entre as duas. Meu pai morreu quando eu
tinha 30 anos. Era uma pessoa querida por muita gente. Não é raro que alguém se
manifeste ainda hoje sobre a falta que ele faz. Nunca deixou de ser sofrido
ouvir esses relatos, e ele não era nenhuma celebridade. Não consigo imaginar
como deve ser reagir ao bombardeio de mídia e público, praticamente incessante
nos últimos 33 anos, sobre a falta que Elis faz. E, no caso de Maria Rita,
primeiro a cobrança para que ela cantasse. Depois, a comparação. É preciso ter
força, é preciso ter raça para enfrentar isso, em público, ao vivo, e ainda
fazendo o abre alas para a escola.
De tanto ler sobre os preparativos, eu sabia que
o Vai-Vai não viria com um desfile linear, histórico. Não iria contar a vida e
obra de Elis, mas mergulhar no universo de algumas de suas canções mais
famosas. E ali estavam as Nossas Senhoras Aparecidas de “Romaria”, as redes e
os peixes de “Arrastão”, o coração flechado de “Tiro ao Álvaro”. E estava
também a ala infantil, graciosamente fantasiada de pimentinhas, evocando o
apelido de Elis.
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João Marcello Bôscoli (à esquerda) e Pedro Mariano (à direita), filhos de Elis |
Algumas fantasias eu não sabia explicar, como não soube
explicar muito bem a homenagem descomunal a Jair Rodrigues – um parceiro
importante, mas não mais relevante para a obra de Elis que, por exemplo, César
Camargo Mariano, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento, Ivan Lins. Como
no espetáculo “Elis, a musical”, achei exagerada a referência hippie que se
tenta colar nela. Elis não foi símbolo da contracultura, como talvez Gal Costa
tenha encarnado mais, ambas muito menos que a turma dos Novos Baianos. E
entendi menos ainda o carro alegórico que fazia referência à ditadura e à
censura, com uma escultura sorridente de Elis que foi definida por alguns fãs,
ali mesmo e nos dias seguintes, como mais semelhante a Silvio Santos ou ao
Senhor Spock.
Mas, que diabos, por que eu precisava entender para gostar?
Logo me lembrei da cena atribuída ao pintor Matisse,
questionado por uma senhora sobre as formas de uma figura humana em um de seus
quadros. Teria dito a madame: “isso não é uma mulher!” Ao que o artista
respondeu: “isso não é mesmo uma mulher, é um quadro.”
Ora, por que me importar com imprecisões históricas ou
leituras enviesadas se a sensação, afinal, era tão arrebatadora? Afinal, o
sambódromo do Anhembi estava em êxtase. A escola já tinha passado e as
bandeiras continuavam se agitando, e a arquibancada continuava cantando o samba. Escrevendo dias depois do desfile e com o Vai-Vai campeão, tenho a forte sensação de que essa comoção influenciou as notas. Se eu questionasse os carnavalescos sobre essa minha tola estranheza, eles com razão poderiam me dizer: "isto não é uma biografia, é um desfile".
Além de Maria Rita, os outros filhos de Elis – João Marcello
Bôscoli e Pedro Mariano – também desfilaram. Os três já têm mais idade do que
Elis tinha, quando morreu. Naquela passarela do samba, tenho a impressão de que
metade do público emocionou-se por ver homenageada uma artista que marcou sua
vida e cuja morte ficou no imaginário como um dos maiores lutos do povo
brasileiro.
A outra metade provavelmente não conheceu Elis em vida, mas
tem aqui e ali alguma referência de sua obra. Muito desse reconhecimento vem do
mito que se formou em torno dela. Mas muito está relacionado ao trabalho da
família em mantê-la viva na cultura nacional. O que o Vai-Vai fez alinha-se a
esta missão de preservar Elis viva. “Cantora igual jamais se ouviu”, diz o
samba. Mas podemos continuar ouvindo, para sempre. Obrigada, Vai-Vai.
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