Wednesday, April 13, 2016

Rosa e azul

Apresentando a donzela à corte: bleargh!
Eram pelo menos dois por mês, quando não mais. Uma classe com vinte e poucas alunas, todas completando 15 anos naqueles meses. O meu, em fevereiro, não teve festa nem valsa. Estávamos de mudança para aquele que seria o lar dos nossos sonhos, um apartamento espaçoso e ensolarado, e todos os recursos iam para ele. Nem que estivéssemos nadando em dinheiro. Eu dizia, desde os bailes das minhas primas mais velhas, que, na minha vez, não teria nada daquilo. Por essa época, e até hoje, não gosto de comemorar aniversário, não gosto de ser o centro das atenções, para as boas coisas, como ultrapassar mais um ano de vida, ou para o mal, como ir ao pronto-socorro tomar soro.

Dois fatores somavam-se à minha ojeriza a bailes de debutantes: eu tinha uma autoestima rastejante na época, com um corpo habitualmente acima do peso e aparelho nos dentes, o que sempre me fazia sorrir de boca fechada nas fotos. Vestidos de baile - ainda mais nos anos 1980, cheios de mangas bufantes - não favoreciam a discrição que eu sempre pretendia.

Mas o mais severo senão era ideológico, bipartido em duas vertentes. Quando entendi que o baile de debutantes remontava ao conceito de "apresentar a jovem à sociedade", meu sangue feminista ferveu. Eu não estaria na vitrine desse mercado humano, à espera de pretendentes, mesmo que minhas amigas "normais" me dissessem que era só uma festa, para todo mundo dançar, divertir-se, paquerar.

A "diferentona": "Com reco eu não danço"


A segunda vertente, intransponível, era política. A moda, na época, era convidar cadetes das Forças Armadas para ir dançar a valsa com as 15 escolhidas pela aniversariante. Era 1985. Tínhamos acabado de encerrar a ditadura militar. Toscamente, é verdade, com um governo eleito indiretamente pelo Congresso Nacional (o hábito é antigo, como podemos perceber). Mas estava lá, um civil no poder. "Eu, dançar com um reco?!" Era assim que nos referíamos aos aspirantes a militar, fossem do Exército ou da Aeronáutica. Que eu me lembre, nunca apareceu nenhum grupo da Marinha nessas festas, e nem que aparecesse o próprio Richard Gere de quepe branco, saído do set de filmagem de "A força do destino", eu bailaria o Danúbio Azul com ele.

Atravessei o ano indo a festas, dançando ao som de Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Madonna, George Michael (que ainda era do Wham), A-Ha. Enlouquecidas com tantos bailes, as mães parecem ter costurado um acordão entre si, para que as 15 donzelas usassem sempre vestidos cor de rosa. Ninguém se importava em repetir o modelo. Minha mãe providenciou para mim um conjunto de saia e blusa, em chamalote azul. Era um tecido da moda, dava a ilusão de formar umas ondas na superfície. Elas iam de rosa, eu ia de azul, e seguia ignorando solenemente todo e qualquer cadete. Bem feito. Segui boca virgem até os 18 anos, e isso não é força de expressão. Minhas amigas achavam engraçada minha rebeldia. Aos 15 anos, a gente gosta de ser do contra. O que, por esses tempos, significava marcar posição contra os cadetes do baile de debutantes. Hoje, os do contra tiram fotos com a PM.

2 comments:

profnathaliafuga Fuga said...

Os preconceitos...que bom seria se eles só estivessem em nós quando tínhamos 15!

Cristina Padiglione said...

Ah, que bom saber de tudo isso. Eu não tinha noção alguma de tudo isso, achava que 15 anos era só uma convenção, data redonda, sei lá, e embarquei em todos os bailes daquele 1985 e mais um pouco. Tinha dois modelos rosa, dancei com os recos e até fiquei com um ou dois deles, coisa inocente de uns beijinhos, sem mão boba sequer. Tinha consciência de nada. Minha família votava no Maluf. Demorei a me tocar sobre o que aquilo representava. Mas foi minha mãe, tão ciosa da data e da ocasião, quem preparou a festa toda. Não me perguntou em nenhum momento como eu queria ou o que eu queria. À época, abril de 85, o primeiro presidente civil após 21 anos de militares, estava pra morrer. E minha mãe lamentou que os soldadinhos mais bonitos da Aeronáutica estivessem de plantão em Brasília, hahaha. Os mais feios, portanto, estavam na minha festa, realizada num salão militar, ali no quartel da Tiradentes. Quando estava todo mundo embalado na diversão, alguém avisou no microfone que a festa se encerraria à meia-noite. Foi um balde.
A vantagem é que agora a Manu vai fazer 15 anos e isso nem me passa pela cabeça, muito menos pela dela, fazer qualquer coisa parecida. Amém.