Sunday, March 21, 2010

O dia em que Senna me fez chorar


Pode parar. Não é 1º de maio, não é Ímola, não tem nada a ver com Tamburello. O dia em questão aconteceu bem antes, em 1991, e meu choro pós-adolescente não teve tanto a ver com o piloto, e mais com meu noviciado no jornalismo.

Eu havia começado a trabalhar na Folha de S.Paulo em maio daquele ano. Entrei para ser redatora e, como tal, escrevia textos sobre vários esportes, atualizava tabelas diversas, fazia notinhas e o detestável IndiFolha, um quadrinho que era publicado sempre no canto esquerdo inferior da capa do caderno e trazia números interessantíssimos, como a média de gols das últimas dez edições do Campeonato Belga. Mas todo mundo na redação do Esporte sabia que, se pudesse, eu escreveria preferencialmente sobre corridas, sempre.

E, naturalmente, foram sobrando umas pautinhas de automobilismo aqui e ali para eu fazer. Às vésperas do GP do Japão, quando Senna conquistou seu tricampeonato, fui escalada para cobrir o embarque do piloto em Cumbica. Sim, crianças, Senna era tão importante que a gente cobria o embarque dele, para todas (eu disse todas) as provas do ano. Diga-se que ele divulgava sempre, por meio de sua assessoria, os horários exatos do seu embarque. Fazia bem esse papel de aparecer muito na imprensa, e talvez tenha sido o primeiro piloto realmente midiático da Fórmula 1.

Seria relativamente fácil se fosse só ir ao aeroporto, seguir a coletiva, voltar para a redação e escrever. Mas a Folha sempre teve suas idiossincrasias, suas reinvenções da roda, suas viagens alucinadas na definição da pauta. Senna indo e o papa João Paulo II vindo. O que uma coisa tinha a ver com a outra? Nada, claro. Mas saí da redação com a seguinte frase ecoando nos ouvidos: "Hoje, queremos que todos os nossos entrevistados falem o que acham da vinda do papa ao Brasil. Pergunte ao Senna."

Era uma ideia impraticável, risível, sem pé nem cabeça. As coletivas do Senna eram uma bagunça, pela multidão de repórteres, assessores, seguranças, fãs. Ele habitualmente se exasperava, respondia algo ríspido as perguntas que não lhe interessavam, guardando o semblante de messias para o momento de gravar para a TV e tudo o que não precisava ser acrescentado a esta balbúrdia era uma pergunta sobre o papa. O papa?

Putz, se eu perguntasse isso na frente dos meus colegas macacos-velhos de outros veículos era capaz de levar uma vaia, de ser motivo de piada até hoje. Não, eu não podia fazer essa pergunta no meio da coletiva.

Mas, franguinha de leite como era, me angustiava com a ideia de não cumprir a ordem da secretaria de redação. Então, esperei a coletiva acabar e fui andando atrás de Senna pelo saguão do aeroporto. Eu, vários seguranças, fãs e... fotógrafos diversos. Consegui me aproximar de Senna e fiz a pergunta mais idiota da minha carreira: "Senna, o que você acha da vinda do papa ao Brasil?". Ele respondeu o óbvio: "Não acho nada." OK, missão cumprida, volto para a redação.

Matéria escrita, jornal fechado, recebo uma ligação do nosso editor à época, Mario Andrada e Silva, que tinha ido ao Japão cobrir essa corrida. Dei um relatório básico de como tinha sido a reunião e, no final da conversa, comentei o pedido esdrúxulo da secretaria de redação. Do outro lado da linha e do mundo, Mario me inquiriu, já respondendo: "Você não perguntou, né?" Admiti que tinha perguntado e, antes que explicasse a condição da pergunta - que eu não tinha passado o carão no meio da coletiva, mas quase no tête-à-tête com o piloto - Mario me fuzilou via embratel. "Você é louca!!! Como vai fazer uma pergunta dessa na frente de toda aquela canalhada da imprensa?! Você vai virar a piada dos setoristas de Fórmula 1!"

Cheguei a perguntar o que deveria fazer em relação ao pedido da alta chefia, mas era óbvia a resposta. Eu deveria saber que Senna não responderia nada relacionado ao papa, claro. Deveria no mínimo argumentar diante do pedido. Ou simplesmente voltar para a redação de mãos vazias, como de fato voltei, sem ter me exposto a fazer uma pergunta tão descabida.

Voltei para casa, abri a porta da sala e caí no choro, assustando meus pais, naturalmente.

No dia seguinte, para coroar meu mico, vejo a capa do caderno de Esportes do Estadão. Senna entre uma multidão, andando por Cumbica. Do seu lado direito, uma jovem redatora, com cara de susto. Mario tinha razão: a canalhada da redação não perdoou. "Olha a Alessandra aqui, de papagaio de pirata do Senna!"

16 comments:

Arawak Deserter said...

E cadê a tal da foto?!?!?! :O)

Joubert Amaral said...

Alessandra, a história é deliciosa por si só e fazem parte do nosso aprendizado profissional.

Parabéns por ter tido a coragem de contar, agora... gostaria de ver a tal foto hehe.

Ricrg said...

E a foto??? hehehehe

Cynthia said...

Põe a foto...
Quem nunca pagou micão? Adorei a história... e olha que, depois de "véia", tem dia que eu também tenho vontade de chorar por causa do trabalho....

Edu said...

Olha só, como suas história são marcantes!!! Você já contou essa, eu me lembrava até dos detalhes. Não sei se foi o mesmo texto, mas sei que foi a mesma história. Legal. Mostrar a insegurança e divulgar uma dessas coisas que nos fazem corar até sozinhos na cama demonstra o quanto progrediu e o quanto tem orgulho da sua história.
Parabéns.

Elizandro Rarvor said...

Só um detalhe, não foi o Ayrton que te fez chorar, foi a secretária da redação ou a alta chefia e por último, você mesma.

Você sabia que não poderia fazer a pergunta e ainda bem que a fez de forma discreta.

Em fim, não foi um mico tão grande, aliás, acho até que não foi mico.

Anonymous said...

Muito boa essa história. Lembro de ter lido no GP Total.

Celinho Boy said...

Adorei esta história!!! Imagino se a pergunta tivesse sido colocada no jornal. Pelo que você contou o Senna era um showman, diferente de muitas pessoas famosas que sequer divulgam com quem estão namorando ou onde vão casar. Pois é, falta a foto. E parabéns pela marca. Acelera, Alessandra!!!!

PS- Você se lembra quando o Bussunda fez a seguinte pergunta para o Senna "Ai, Senna! Alguma vez alguma namora sua disse pra você, 'Acelera, Ayrton'?" Senna ri todo envergonhado e responde: "Já!"

Ron Groo said...

Eu daria um dedo para passar por este mico.
A história, desculpe Alessandra, mas hoje soa hilaria.
Agora, veja pelo lado bom, não era para o Piquet que você tinha de perguntar... Imaginou?

martico said...

Até que enfim, alguem falando uma verdade nua e crua sobre o mito.Com minusculas. Como piloto, sem reparos, mas como pessoa, um lixo.Vi muitas vezes pessoas serem maltratadas, porque as cameras não estavam ali, e segundos depois o bom moço, já com as tvs posicionadas, era uma beleza no trato.Vc tem a minha admiração, num dia desse, em contar uma verdade.

Edu said...

martico, o Senna um lixo como pessoa? Onde você leu isso no texto? É você quem acha isso né? Qual é seu problema? Foi mal tratado por alguém que gosta só porque você é chato e acabou em crise de autoestima? Vá ler mais rapaz, tem problema de interpretação. Qual você queria que fosse o desfecho? Que ele pegasse a Alessandra no colinho e dissesse "ô cuti-cuti de repórter inexperiente, conta pro titio Senna o que te fizeram me perguntar na redação, aqueles bobos". "A verdade nua e crua"... Como diaria meu pai: "Mas quá".

Verde said...

UHAUHAUHAAUHHAUHUAHUAUHA, malditas pautas de jornalão.

Excelente história! Mas ainda bem que essa pergunta não foi para o Piquet.

dionea said...

Muito boa a história! Ainda acho que mandaram os repórteres perguntarem sobre o papa só de sacanagem! hahahaha...

Carlos said...

Bela história!

Adorei o "idiossincrasias", fez (quase) todo mundo correr para o dicionário, arrasou...

renatapiani2010 said...

alessandra me add no orkut e renatapiani2010@hotmail.com me add eu me chamo renata piani no orkut nao tem fotos tinha no outro saiu nao sei como agora a minha amiga vai colocar um monte me add por favor

Sidney said...

Legal a sua estória...você errou e o Senna também errou..mas se você perguntasse para o Piquet acho que a resposta seria pior ainda...mas o Émerson ele ia dar uma resposta bem legal...