Wednesday, May 27, 2009

Button no túnel do tempo


Há pouco menos de quatro anos, no auge das discussões sobre o "Mensalão", escrevi a coluna abaixo no GPTotal. O personagem principal, vejam só, era Jenson Button. Mas não o Button piloto, habilidoso. O Button dos bastidores, que guerreava na Justiça para poder pilotar para a Williams, e depois para não pilotar mais.

Convido os leitores a ler esta coluna e a refletir, quatro anos passados, sobre algumas questões por ela levantadas.

Adianto que, mesmo distante das discussões sobre ética, tão em moda na época do "Mensalão", continuo pensando como naquela época. E adianto mais uma conclusão minha: Button talvez não imaginasse que sua batalha para ficar na então BAR seria a senha para ele se tornar campeão tanto tempo depois.

Divirtam-se!

///

A ética segundo Jenson Button

Talvez seja só fruto do desencanto. Ou porque muito se tem falado de ética ultimamente. Vai ver estamos todos desiludidos, achando que está tudo errado e nunca terá jeito. Mas, lembrando do passado recente, vejo-me tentada, no final de 2004, a escrever sobre Jenson Button. Não o fiz porque o enfoque não era Button como piloto, mas uma circunstância extra-pista, deixei para lá. Ele, agora, volta à carga. E talvez porque todos estejamos indignados, refletindo e dados a desabafos, acho que inglês Button cabe no contexto e chamo a discussão sobre a ética, a ética na Fórmula 1.

Button assinou contrato com a Williams em 2004, estando preso por outro compromisso à BAR até o final de 2005. O piloto e a nova equipe queriam passar por cima do atual empregador, efetivando a troca de time já neste ano. Chegaram a anunciar a mudança, a BAR quis valer seus direitos e a troca de argumentos e interpretações terminou na Justiça. Ganho de causa para a BAR, que manteve o piloto.

A briga do inglês com a BAR foi pública. Ele trocou acusações e insultos com o então chefe do time, David Richards. Mas, como decisão de juiz não se discute, Button reintegrou-se à equipe. Foi nesse momento do contencioso, no ano passado, que me assanhei a escrever sobre a ética segundo Jenson Button. Naquele momento, saltou-me aos olhos a naturalidade com que o piloto e a BAR deram continuidade às suas relações. Insatisfação, rompimento, brechas legais, ações judiciais, uma briga! E, no fim da conversa, Button ficou na equipe e até parecia bem contente. Deve ter contribuído, no armistício, a saída do desafeto Richards da BAR.

Mas, na minha visão algo provinciana e muito idealista do mundo e das relações humanas, essa naturalidade soou estranha. Imaginei-me naquela circunstância em um ambiente profissional, e não consegui absorver a perspectiva de continuar trabalhando em uma empresa contra a qual eu tivesse uma contenda. Coloquei-me na pele do empregador e tive certeza de que não gostaria de ter, em meus quadros, um colaborador insatisfeito que foi à Justiça para não trabalhar mais para mim.

Essa, admito, é a visão de uma pessoa idealista. É claro que acima das convicções pessoais está o interesse financeiro que rege o negócio, e a Fórmula 1, emoldurada como esporte, é na essência um grande negócio. Button deve ser gente boa, tem cara disso, pelo menos. Mas, como todo grande jogador ou aspirante a tal, eventualmente deve dobrar-se às circunstâncias e ir contra seus sentimentos mais íntimos. No fundo, ele queria ir para a Williams. No fundo, deveria estar constrangido por ter de ficar. Na prática, não há nobreza de sentimentos que vença os argumentos dos contratos e o veredicto dos tribunais.
Mas eis que a temporada de 2005 consolida-se como um grande e retumbante fracasso para a Williams. Na pista e nos negócios, a Williams vai mal, conseguindo pódio em Mônaco – a sempre imprevisível Mônaco – mas patinando no resto do mundo. Pior que o presente é a perspectiva de futuro, diante da ruptura com a BMW e a longínqua perspectiva de ter motores Toyota em 2007. Até lá, vai de Cosworth, vislumbrando uma temporada cumpre-tabela.

Não que Button e a BAR estejam em situação muito melhor. A equipe levou suspensão por duas corridas, abandonou qualquer aspiração ao título logo no começo do campeonato, por conta desse gancho. Mas a perspectiva da BAR – praticamente o braço esportivo da Honda – é muito mais alvissareira que a da Williams. Livre em 2006, Button pode concretizar o sonho de correr para a equipe de Frank. Pode, mas não deve ir. “Ser campeão vale mais do que ganhar muito dinheiro”, disse o inglês recentemente, explicando porque deve ficar onde já está.

A lógica é irrefutável: assumir o compromisso com a Williams certamente fará com que o inglês encha os bolsos de libras esterlinas, mas não lhe dará a mais remota chance de ser campeão. A Williams, que já subiu e desceu a montanha russa da Fórmula 1 por diversas vezes, parece ter encontrado o caminho definitivo da ladeira abaixo. Button, tido e mantido como potencial campeão nas últimas temporadas, começa a ver sua carreira entrar na zona perigosa da estagnação. Ou realiza as previsões logo ou se torna um piloto comum, entre tantas promessas que viraram fumaça depois de causar furor em suas primeiras aparições.
O limiar entre um campeão e um piloto comum não está necessariamente na habilidade ao volante, mas nas decisões acertadas. Quem viu o francês Jean Alesi desafiar Ayrton Senna no GP dos Estados Unidos de 1990 não pode duvidar de sua capacidade técnica. Alesi, no entanto, virou um piloto comum ao dar um mau passo na carreira: em vez de ir para a Williams, preferiu o caminho da Ferrari. Histórias como essa devem povoar a mente de Button quando ele se vê diante da encruzilhada de sua vida. Ir para a Williams – e manter o compromisso firmado – provavelmente vai lhe custar a carreira. É jovem, tem talento, quer vencer, rasguem-se os papéis. Quem pode culpá-lo?

Em um determinado momento de sua carreira, Button quis anular seu compromisso com a BAR. Agora, é a palavra dada à Williams que se desmancha no ar. Na essência das duas atitudes, o desejo de ganhar – dinheiro e títulos. Pela glória e pela grana, é isso que rege o mundo, por que esperar algo diferente na Fórmula 1? Como atacar um jovem piloto que se forjou esportista de elite ouvindo preceitos como “o segundo colocado é o primeiro entre os perdedores”?

Criamos nossos jovens repetindo, em casa ou nas universidades, que o importante é vencer. O bom executivo é um “rolo compressor”. O atacante que faz muitos gols é um “matador”. O competente, em qualquer área, é “fera”. Aquele que passa por cima, mata ou ataca suas presas é o vencedor. Como esperar o cumprimento da palavra dada, se isso contrasta tanto com a definição própria do conceito de vencedor, aquele que tudo pode, que não tem limites?

5 comments:

Ingryd Lamas said...

Aonde assino??
Concordo com cada virgúla, principalmente com os dois últimos parágrafos. Sempre dizemos que a ética é o principal, e que "o importante é competir". Mas essa não é a verdade, pelo menos não a verdade por baixo das máscaras. Só é valido aquele que vence, como você disse, o bom competidor não tem lugar perto do muitas vezes campeão, é nesses pequenos detalhes que costumo analisar uma pessoa, e o quão ética ela é. Não verdadeira, pq na maioria das vezes pensamos dessa forma sem nos darmos conta, já que o que sempre aprendemos desde o berço.
Ética é para os fracos.
É o que nos é dito desde a antiga Roma sem que percebessemos.



bjoos

Ingryd Lamas said...

Falei tanto e não falei da F1 uheuheuheuheue
Button é mesmo um cara de muita sorte, e pra mim só tem uma explicação: ele deve ter feito algum trabalho muuuuuuuuuuuito forte em algum terreiro quando passou pelo Brasil, isso explica perfeitamente o carro queimando no fim da ultima corrida...
Ele chegou a ser o piloto comum, chegou a amargar mais esquecimento que Barrichello, e aí está ele, campeão sem ainda o ser, depois dessa, vai ser levado a glória para sempre, e Barrica vai ganhar mais um título e recorde, o de mestre das escolhas erradas, tal como Alesi, seu maior erro talvez tenha sido o de ir pra Ferrari, ou talvez o de continuar nela.


bjos

Smirkoff said...

Legal, Alessandra. Lembrou-me uma conversa que tive outro dia com uma amiga, em que ela contava que tentou explicar ao filho adolescente que em nossa juventude a palavra "ambição" tinha uma conotação negativa. O garoto, muito inteligente por sinal, não entendeu...

Elias said...

Concordo. Acho que tudo é valido pra se tornar campeão. Se a ética fosse predominante Schumacher e Senna não seriam os mitos que são hj.

Fabrizio Salina said...

O interessante é que o Button foi extremamente ético em todo episódio que envolveu a saída da Honda da F1. Foram inúmeros relatos sobre a força que deu aos colegas, a recusa em ir pra outra equipe quando era cotado para a Toro Rosso, enfim ,parece que o rapaz antes de se ajeitar dentro das pistas, resolveu a vida fora delas.