Sunday, December 10, 2006

A lata

Eu li a notícia hoje, cara. Um navio cargueiro foi interceptado pela Marinha Mercante do Rio. Estava cheio de bagulho no barco, velho, da melhor qualidade. Parece que era da Holanda. Dá pra acreditar? O mais incrível você ainda não sabe. Jogaram a mercadoria toda no mar, cara, tudo numas latas enormes. Pensou o que vai acontecer com isso? Já, eu já pensei, bicho. Se uma dessas latas vem parar aqui na praia...

Elvis se levantou, sacudiu o corpo inteiro, sacudiu o pêlo, abanou o rabo. Quando o cara começava a viajar desse jeito, falando com ele como se fosse gente, era sinal de que ia cair no sono. A praia de Paúba era quase selvagem nessa época, dava mesmo pra dormir legal. Elvis ficou por ali, meio de guarda, o cara embarcou. Teve o sonho recorrente de que voltara a tocar. Era engraçado, porque ele nunca pensava nisso acordado, fazia anos não via os caras, mas sempre sonhava com a bateria, com solos e tambores e pratos e o sonho terminava sempre igual, quando um dos caras, o irmão mais velho, lhe tomava as baquetas e furava o tambor da batera alugada.

Acordava dando risada. Que louco esse cara, que loucos todos nós. Mas naquele dia não chegou no tambor furado, acordou antes com os latidos do Elvis. O bicho estava quase no mar, latindo para alguma coisa que vinha boiando. Sentou, sacudiu a areia e o sono, focou os olhos. A coisa brilhava. Era metal. Um cilindro de metal. Era uma lata. A lata. Uma fé estranha o arrebatou. Não tinha sido à toa a notícia da manhã. Navio, Rio, Paúba, litoral norte. Ela tinha chegado até ele, era ela. Elvis tinha o pêlo molhado, parecia querer alcançá-la para ele. O cara levantou, tirou a camiseta, correu até a arrebentação, nadou em direção à lata. Quando estava a uma braçada da coisa, sentiu o hálito canino muito perto. Elvis roçou-lhe o pêlo e ele agora sim acordou. Um bode infernal, a cabeça pesando chumbo presa à areia. Custou a levantar e a acreditar. Só sonho, então.

Elvis o seguiu no passo lento. A cabeça começava a entrar no eixo de novo, sem perder o foco na lata. Era fim de tarde e a fé ainda o guiava. Foi até os barcos, conversa jogada fora com os pescadores de sempre. A bermuda amarrotada guardava uma nota, presente aos homens do mar. Se encontrarem alguma coisa parecida com o que eu falei... Promessa de ganho em dobro, redobraram a atenção.

Subiu a serra de volta, outra semana de selva cinza à espera das verdes ondas, céu azul e o prateado da lata. Os jornais davam seqüência da história, as latas se perdiam e se achavam em praias cada vez mais improváveis, e ele pensava se uma delas chegaria lá. O mundo da velocidade era seu dia, pilotos, corridas, notícias para a imprensa, mas à noite ele se transmutava, se teletransportava para a orla, deixava de ser urbano, mutante virado em caiçara, pensava no mar. A sexta-feira chegou e ele chegou a acreditar que os olhos de Elvis lhe diziam algo. Não tinha sol, talvez nem descesse. Elvis engoliu um latido triste. Desceu.

Sim, Elvis tinha razão, os homens do mar encontraram. A lata. Era a mais exemplar, pura, eficaz e perfumada porção de nirvana que ele já tinha provado com todos os seus sentidos. Naqueles dias, teve até vontade de ligar para os caras, aquilo valia um revival. Nem tinha como. O mais novo vivia num sítio, o mais velho, parece, estava em Minas, a mina, essa não estava nem aí. Desculpe, babe, essa lata eu vou guardar. Candidamente, acomodou-a numa mala de viagem e lá ela ficou por meses, sendo sorvida aos poucos, iguaria fina e rara.

A velocidade o levou para bem longe de Paúba, mares do norte, céus mediterrâneos. Com ele, um jovem e loiro piloto, acompanhado do pai. E a mala. Vida de assessor de imprensa tem dessas coisas. O menino tinha talento mesmo, um bom patrocinador, fazia sua estréia nas pistas da Europa, depois de uma carreira fulminante de sucessos por aqui. Tinha que ter assessor de imprensa, e lá estava o cara, com a mala que antes abrigara a lata. Na Itália, aeroporto, alfândega, passaporte, visto, bagagem, perguntas de praxe, o menino tinha nome italiano, oriundi, capice? Tudo certo com os papéis, nada de errado com os nomes, só não se entende esse pastor alemão, policial canino farejando sofregamente a bagagem. Não toda a bagagem. A mala, aquela mala. Pai e piloto impacientes. O que há com essa mala? Esvazia a mala, nada de errado com ela. Não há nada de podre na mala. Não há nem nunca houve. Houve uma vez, não podre. Fina iguaria. Uma lata. A lata.

14 comments:

Alessandra Alves said...

Este post, uma peça de ficção livremente inspirada em fatos folclóricos reais, é dedicado ao amigo, jornalista e baterista Dinho Leme e à memória de seu cachorro, Elvis. Sim, Elvis morreu.

Com um agradecimento especial a Pedro Alexandre Sanches, pela íntegra da entrevista com os Mutantes e a história do tambor furado, disponível no link logo ali ao lado.

Paulo de Tarso said...

Essa história é "da lata", como ficaram conhecidas as coisas boas, finas, de boa procedência, depois que o episódio das latas ocorreu no Rio de Janeiro.

Marcio Gaspar said...

Meninos e meninas, eu vi! Eu VIVI o famoso 'verão da lata'... E tb conheci o peludo e simpático Elvis. Parabéns Alessandra, bela homenagem!

Mauro Chazanas said...

Alessandra, que lindo! Vou de novo ser chato e repetitivo: não nos prive do teu talento, escreve um livro!
Olha a coincidência: assisti dias atrás "O Diabo a Quatro", onde aparece essa história das latas ao mar.
Mudando de assunto, por falar em diabo, parece que ele está se recusando a receber o Pinochet em seus domínios, vai estragar o ambiente.
Ótima semana, Alessandra, todas e todos.
Pra compartilhar(e não perder o costume) com todo mundo: ouvindo agora tangos(e é só tangos e de vez em quando notícias e crítica cultural com locutoras e locutores que são uma simpatia só):
www.2x4.gov.ar
Pra lembrar: hoje é o dia internacional do tango.

Alessandra Alves said...

paulo: e eu quase usei como título "da lata", em vez de "a lata", por esse significado mesmo que você apontou, mas preferi usar as mesmas expressões, no começo e no final.

marcio: eles merecem! obrigada pelo elogio.

mauro: mais uma vez, obrigada pelo incentivo. esse dia vai chegar, não sei quando, mas vai. não vi esse filme, que tremenda coincidência, né? minha inspiração para escrever sobre o tema foi a imperdível entrevista feita pelo pas. sobre o episódio recente no chile, parece que a coisa estava feia mesmo no andar de baixo. lá já estavam artur, humberto, emilio, ernesto, joão batista, um monte de argentinos. tá feia a coisa, mas tenho certeza de que é por lá mesmo que ele vai ficar, por muitos e longos anos.

Marcia W. said...

Oi Alessandra,
não aparecem mais "Solana Star" como antigamente!!! Adorei o seu post. Gostaria de contar um pouco do impacto das latas no Rio mas só me ficou uma vaaaaaga lembrança. abs
http://www.local6.com/news/10519280/detail.html

Alessandra Alves said...

marcia w: putz, ontem tive um ótimo almoço com o dinho e ele me contou alguns detalhes a mais da história. não foi uma lata que ele conseguiu, mas três!

nos próximos dias, vou postar mais dessa conversa de várias horas que tivemos ontem.

Alessandra Alves said...

márcia w.: eu li a notícia que você me mandou! as coisas estão mudando, mesmo, né? hahahaha

Anonymous said...

Latas, já faz tanto tempo assim? Eu estava de férias no Espírito Santo e por lá soube do aparecimento de várias. Que viagem!
bsb_motta

Milton said...

A lata mitológica chegou ao sul, é claro.

Rolam várias histórias sobre a maravilhosa lata. Será que não há mergulhadores a fim de procurar por mais....?

Beijo.

Alessandra Alves said...

motta: acho que o fato foi em 1989.

milton: "os escafandristas virão revirar sua casa, sua alma, suas coisas, retratos, em vão...". será? só que elas boiavam, né? se afundou, dançou...

Alessandra Alves said...

pôxa, ninguém notou que a primeira frase da história é uma citação beatle. "i read the news today, oh, boy" - a day in the life...

Anonymous said...

Alessandra, sensacional... O espólio do Solana Star, jogado as pressas em águas internacionais, chegou ao litoral brasileiro, mais ou menos, em setembro/outubro de 1987... Iguaria fina, mas de efeito tão deproporcional - á época -, que como disse Paulo de Tarso, acima, "da lata" virou figura de linguagem....

Carol said...

Gente, estou precisando de pessoas que tenham vivido esse verão da lata e tenham histórias interessantes para contar!
Estou fazendo um trabalho sobre isso.
Quem puder colaborar, mandem e-mail! Vou ficar muito grata!
carolmeyer20@yahoo.com.br