Sunday, January 29, 2006

A parábola do tremoço


Dizer que ele havia nascido no Mercado Municipal não é bem verdade. Nada nasce no mercadão, mas foi ali que ele se conheceu como gente, ou como tremoço. Sempre ali, submerso na água de conserva, vizinho das azeitonas, família grande e diversificada, com variedades verdes, roxas, pretas, nacionais, chilenas, portuguesas. A dele era única: todos ali eram tremoços, sem outras variações de cores ou procedências. Mais adiante, conviviam os multicoloridos picles, gente meio ardida, mas boa gente. E cebolinhas, berinjelas, pimentões se enfileiravam na encosta da barraca, como formando escolta para os nobres tomates secos e fundos de alcachofra, novos ricos recém-adquiridos pelo gosto gastronômico nacional. Era só um tremoço nessa multiplicidade de existências e enquanto muitos aspiravam a terminar os dias na dispensa chique de alguma mansão dos Jardins, ele acalentava um sonho prosaico – queria conhecer o estádio do Canindé.
A aspiração do jovem tremocinho soava como piada, como se esse paraíso perdido de fato nem existisse. Ele vivia no embate permanente de dois mitos. Ao mesmo tempo em que se recusava a acreditar, com todas as suas forças, na máxima de que todos da família eram insossos (“Somos uma drágea sem gosto que, quando adicionada de sal, fica com gosto de sal”), pegava-se com fé monumental à certeza de que, sim, existia tal estádio de futebol e que ele, sim, era o único no mundo onde se vendiam tremoços.
Lá do fundo do balde, com o peso de décadas de crença e de centenas de tremoços sobre si, ele vibrava em silêncio pelo dia que seria colhido pela concha bojuda, que o transportaria para um saquinho transparente e de lá ele percorreria pouquíssimos quilômetros até chegar ao Canindé. Não se importava de ganhar o mundo com o status de um simples “pode deixar”. Isso parecia uma desonra para muitos. A cena era clássica. “Por favor, 150 gramas de tremoço”, frase seguida de movimentos ágeis do balconista, manipulando concha, saquinho e balança como armas sagradas do varejo. Os digitais da balança apontando o peso extrapolado. “Deu 165 gramas, pode deixar?”, frase invariavelmente acompanhada de um complacente “Pode deixar”. Desonra para uns, alforria para ele. Ganharia a avenida, veria o São Vito de frente, seguiria em direção ao norte, percorreria um trecho da Cruzeiro do Sul, chegaria à Marginal e pronto! O Canindé.
Seus companheiros de balde e salmoura riam de suas pretensões. “Tu vai é acabar em um boteco da Luz, mastigado por uma puta entediada”, praguejava um. “Pára com isso, moleque, que Canindé, que nada. Torce para ir para a Vila Madalena, aquilo é que é vida.” Ele sofria em silêncio salgado. Engolia. Até que um dia...
O casal fazia suas compras em harmonioso conchavo quando um quarto de provolone parecia apontar para o fechamento da conta, ao que o homem acrescentou – “Ora, pois, vou levar um bocado de tremoços, já que verei a Lusa amanhã no Canindé.” Por uma daquelas improváveis conjunções geográfico-astrais, o tremocinho estava quase na superfície. Quase desfaleceu de ansiedade ao ecoarem tais palavras em seus minúsculos orifícios-ouvidos. Pela primeira vez, o tremoço tremeu. Sentiu a concha resvalar-lhe o dorso, escorregou para cima de outro tremoço, ficou fora da conchada. Rezou. Haveria padroeiro de tremoços desesperados? A água toda se revolveu. A concha saiu e voltou à água, colhendo-o pela borda. Enquanto a água era escorrida, ele assistiu, horrorizado, a alguns iguais serem devolvidos à tina. “Coitados, que infortúnio!”, gritava, e mais se apegava ao santo desconhecido, para não sofrer também ele tal sorte. Mas a conchada foi grande e o experiente balconista, num golpe de vista, jogou no saquinho só uma parte dos eleitos, enquanto pesava. O digital avançava, 130, 140, 150 gramas. Com um sinal de cabeça, inquiriu o freguês se deveria continua, ao que o português respondeu. “Ponha, pode colocar tudo!”, e só então a concha inteira vazou para o saquinho e só então o tremocinho se aquietou. Passaporte carimbado, ele iria ao Canindé.
As horas que se passaram entre o drama da balança e a chegada ao estádio foram mais longas que toda a sua existência, devidamente registrada no prazo de validade da etiqueta.
Mas enfim chegou o domingo, e o bigodudo simpático que o livrara dos grilhões do mercado logo depois do almoço acomodou-o, e a seus colegas, em uma diminuta caixa de isopor, na companhia de latas com um líquido amarelo alcoólico. Essas entidades ele não conhecia, mas supôs que se dariam bem, ao ouvir do homem uma frase com teor de provérbio: “Nada combina tão bem quanto cerveja e tremoços.” Rumo ao estádio!
Foi uma seqüência de choques. Do frio da geladeira ao calor da arquibancada. Do silêncio do tonel à turba animada. Sua cabecinha redonda girava. Nem o balde dos picles era tão colorido quanto a torcida organizada, com suas camisas verde-rubras, suas bandeiras, seus bonés. Nenhum balconista era mais barulhento que os bumbos, apitos e cornetas. E os fogos! Nossa Senhora dos Tremoços, que susto! Mas era lindo, era quente, era muito mais do que ele poderia sonhar. Esperava o momento em que o portuga iria sacá-lo do saco e tragá-lo com um generoso gole da cerveja já não tão gelada. Morreria feliz. O jogo já havia começado. Ele pouco entendia dos gritos destemperados do bigodudo agora nervoso, menos ainda dos gestos em direção àquele homem de preto, que se movia tão apagado naquele espetáculo technicolor.
Não podia imaginar seu destino. Em vez de terminar no estômago no torcedor, semi-digerido e afogado em cerveja, de repente viu-se arremessado em direção ao campo, de aperitivo transformado em munição de uma agressão inofensiva. “Foi pênalti, seu filho da puta!”, foi o grito de guerra que o catapultou em direção ao gramado. Tinha mesmo sido pênalti, mas o homem de preto marcara falta. E ele foi aterrissar bem ao lado do homem agredido e da bola, quase na risca branca que delimita a grande área. A tensão era imensa e vários jogadores circulavam, e gesticulavam, e falavam, e todos quase o pisavam a cada passo. Novamente, o tremoço tremeu. Um deles chegou mesmo a pousar a chuteira sobre sua cabeça. A enorme sombra que fez do dia ensolarado um breu tristonho foi sua salvação. Chuteiras de travas altas! E foi no improvável espaço entre uma trava e outra que ele ganhou sobrevida. Quando olhou para o lado, um planeta gigante tinha vindo habitar seu universo. Gigante, redondo e branco. Estava ao lado da bola. Mas tão ao lado que sentia o cheiro de couro. O alvoroço de minutos antes cessou. Um silêncio de tonel preencheu o espaço, ao longe escutava apenas a voz anônima da torcida. De repente, pensou ficar surdo. Um apito estridente, bem ao lado, saído da boca do homem de preto. A senha. Ao apito, um jogador correu em direção à bola e aplicou-lhe um chute com a força de mil carregadores de caixas de frutas. O deslocamento de ar foi tamanho que voaram todos: bola, pedaços de grama, e ele. A turma - bola, grama, tremoço, unida - descreveu uma longa curva no ar, chegou ao ápice da parábola e caiu, junta, de repente, sem chance para o goleiro, no canto esquerdo do gol. O estádio explodiu em gritos, bumbos, apitos, cornetas, fogos. Um tropel de jogadores correu para se abraçar. Outros ficaram cabisbaixos. O jogador que tinha desferido o tal chute correu para dentro do gol, pegou a bola, beijou-a. O tremoço, não. Ficou ali, no canto esquerdo do gol, glorioso como um gol. Terminou seus dias entre tufos de grama, grãos de terra. Nunca soube se era de fato insosso, porque nunca se aventurou goela abaixo. A um mito, pelo menos, sobreviveu. O Canindé de fato existia, e tremoços são servem apenas para mastigar, mas também, ou antes, para serem atirados no juiz.

(Inauguro meu blog com o texto que faz parte da corrente de contos sobre tremoços, criada pela Vange Leonel e pela Marcia Bechara, abraçada pelo Pedro Alexandre Sanches, inspiradores e instigadores deste blog.)

21 comments:

Cynthia said...

Hilário, show de bola...
Nossa Senhora dos Tremoços, você não dorme mais?
Beijinhos e mande bala.

Débora said...

Excelente!
Aprendi a saborear tremoços com seu pai, nosso querido Quique.
Como ele gostava!!!
E o Lucas já vai pela mesma linha!

Brunno said...

Meu Deus que mááááximo!

Olha só...tem uma pitada de Luiz Fernando Verissimo que é simplesmente delicioso!

Eu já gostava das suas colunas... agora é que eu te apoio pra fazer um livro de contos...hehehehe

Beijos e muito sucesso!

Anonymous said...

Ahahahahahaha... adorei, Alê!

Que texto delicioso (muito mais do que um tremoço, petisco que nunca me apeteceu).

Adorei a leveza e o humor da narração. Minha Nossa Senhora dos Tremoços!

Beijinhos,
Tati.

Pedro Alexandre Sanches said...

êêêêêê!!!

Vange said...

muito bom!! como eu te disse lá no blog do Pedro, vc tem estilo, adorei.

márcia said...

AI AI e eu que fiquei aqui toda troncha de emoção-tremoça com a epopéia do seu tremocinho no canindé, alê! o máaaaaaaaximo!!!!
chuteira de travas altas!

vange, ela sabe mais de futebol que a gente, prontofalei!!!!!!

Guilherme said...

Ale!!!
O texto está fantástico!!!
Como sempre, aliás. Já disse isso antes e repito, você é a minha "Mario Prata".
Beijão!
Sucesso!

Gomes said...

Que estréia, mocinha... Sem sacanagem, um conto épico. Você, que vive editando autores obscuros, está na hora de fazer o seu livro.

Beijos, senti-me homenageado. Claro que já não atiro tremoços no campo. O futebol virou uma viadagem tal que nem isso posso fazer mais. Na falta de outra opção, engulo. Sem sal.

Rizzo said...

Save a Lusa, salve o rabo do tatu, quem caiu foi tu!

Freakinger said...

Ahhhm, tremoço no Canindé, agora sei pq o Flavio Gomes colocou um link pra cá no blog dele...
Achei genial o ritmo do texto, termina tão redondinho quanto a bola em jogo!
E pra mim, pareceu mais parábola do que conto, com tanta gente que se acha insossa e com sonhos considerados bestas!
Parabéns e espero ansioso um livro seu.

Luciano Balarotti said...

Alessandra, parabéns pelo conto. suas colunas no GP Total são ótimas mas este exercício ficcional é incomparável.

Agora tenho mais um blog eleito para uma visita diária.

Anonymous said...

Mas, afinal de contas, o que é um tremoço? Alguém aí deu a dica de que seria um petisco, mas se é verdade, é de origem portuguesa?

Lico said...

Alessandra,
Ir ao Canindé e nao comer tremoços é mesmo como ir ao Vaticano e não ver o Papa, mas isso não é privilégio de bigodudos que falam "ora, pois".
A maioria dos meus amigos que também torcem pra Lusa comem tremoços e nem por isso tem sotaque tuga ou bigodão.
Tirando essas discriminações ingenuas (mesma coisa que a velha mazela de personagens nordestinos que tem 'Oxente' em todas as suas falas e são relacionados sempre com a seca por falta de conhecimento maior do escritor de um povo tão rico) e de uso gratuito de linguagem chula, o seu texto é bem divertido.
Como comedor inveterado de tremoços, vou olhar pra eles com mais cuidado daqui pra frente, mas fica a dica pra que não venha futuramente a escrever coisas do tipo "era uma vez, uma loira burra" sabendo que pode desenvolver um texto tão consistente.

Véio Gagá - BH said...

Alê (que intimidade, hein?), comecei seu blog pelo segundo post, já comentado, mas este primeiro está mais gostoso do que tremoço com cerveja no Canindé. Ganhou um visitante diário.

Abraço! (Já estou íntimo, mesmo...)

Alessandra Alves said...

Obrigada pelos comentários elogiosos de todos.

Apartes:

Gomes - sinta-se mesmo homenageado. É claro que o português da história é inspiração direta do meu pai, mas você sabe que, hoje, ocupas a cadeira de lusitano mais ilustre da minha vida!

Lico - desculpe se o ofendi com as palavras chulas mas, se você é mesmo freqüentador de estádio, há de saber que torcedor nenhum fala "Oh, senhor juiz, creio que vossa excelência se equivocou, posto que a infração ocorreu dentro da grande área, tendo sido pênalti e não falta." Na real, é só "Foi pênalti, seu fdp". Espero que você não tenha se sentido ofendido por tais palavras terem saído da pena de uma mulher, loira, sim. Não foi isso, foi?
Quanto ao estereótipo português-torcedor da Lusa-comedor de tremoços, é claro que isso é uma metáfora, uma imagem pinçada do imaginário, uma brincadeira. A obra é de ficção e o personagem coadjuvante da história, como disse ao Gomes, acima, foi livremente inspirado no meu pai, que não era português (mas filho de portugueses), não freqüentava o Canindé, mas torcia pela Lusa e usava bigodes e comia tremoços.

Em tempo - devo confessar que escrever esse conto libertou-me de um antigo trauma. Quando era criança e freqüentava o mercado, com meu pai, ficava olhando aqueles tonéis de tremoços e morria de nojo ao pensar que alguém poderia passar por ali e dar uma cusparada naquela água. Sei lá de onde me vinha idéia tão punk!

Anonymous said...

Muito bacana essa crônica. Ou parábola. Enfim... Mas o legal mesmo é que, além da qualidade indiscutível do texto e da narrativa envolvente, o cenário de tudo é o glorioso estádio do Canindé, onde eu mesmo já tive o prazer de mastigar alguns tremoços. Da próxima vez que for a assistir à minha querida Lusa e vir o vendedor de tremoços, com certeza vou lembrar do seu blog...

_Eduardo Abreu

Lico said...

Oi de novo, Alessandra!

Não me entenda mal, pois dei boas risadas com seu texto. Nunca imaginei que alguém pudesse traduzir numa crônica a história de um tremoço do qual eu simplesmente como pra comemorar um gol ou jogo na cabeça de um bandeirinha safado mesmo que não vá doer.

Foram apenas críticas de um leitor a um texto profissional como o seu, detalhes que posso estar contribuindo pra que seus textos melhorem e que vc pode dar ouvidos ou não, caso concorde ou não com a crítica. Continue o bom trabalho!

Ah! E por favor, pelo bigode do todos os padeiros, nunca dê uma cusparada num tonel de tremoços, ora pois! :-)

Peixoto said...

Tratando-se de uma recomendação do FG, encontrar um material de boa qualidade era uma barbada.

Findo o texto, uma sensação inevitável: assombro.

Administrador por formação, que em algumas vezes cogitei trocar os números pelas letras, desisto e me resigno. Não daria mesmo pra enfrentar uma concorrência deste nível...

Parabéns!

Alessandra Alves said...

Peixoto, não desista! Eu sou jornalista por formação mas sou forçada a também administrar minhas coisinhas. O assombro também me assalta: como consigo?

Se eu consigo, você consegue, persevere!

De verdade, obrigada pelas palavras.

Anonymous said...

Obrigado por Blog intiresny