Wednesday, June 14, 2017

Minha namorada é meuzovo

O poeta Vinicius de Moraes, autor da letra de "Minha namorada"

Minha educação cultural começou pela via do "bom gosto". Lia clássicos, estudava música em conservatório, procurava os filmes mais estrelados pelos críticos. Foi importante para construir o hábito de fruição da arte.

A vida adulta desconstruiu quase tudo. Gente como Paulo Cesar de Araújo e, acima de todos, Pedro Alexandre Sanches, foram muito responsáveis por isso. O que é "bom gosto"? Por que Bossa Nova é melhor do que Funk? Marcel Proust ou história em quadrinhos? Ingmar Bergman ou Jackie Chan? Por que UM ou OUTRO?

Nessa desconstrução, o hábito de despir os medalhões e enxergar para além do rigor dos versos. Por exemplo, o machismo inerente em alguns "clássicos" da música brasileira. E nunca mais consegui ouvi-los sem que a editora feminista que mora em mim gritasse essa desconstrução.

"Minha namorada", música de Carlos Lyra e letra de Vinicius de Moraes, por exemplo:

Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
(Nota da editora feminista: o cara já está assumindo – você é gata e estou a fim, aqui estão minhas condições, vê se você se enquadra)
Se quiser ser somente minha
(Nota da editora feminista: somente minha, entendeu? Quer tomar posse)
Exatamente essa coisinha
(Nota da editora feminista: chamou de “coisinha”, miga. Não preciso nem ir além na objetificação da pessoa, na diminuição etc. né?)
Essa coisa toda minha
(Nota da editora feminista: minha, minha, minha – esse cara é o Tio Patinhas?)
Que ninguém mais pode ser
(Nota da editora feminista: ah, mas que beleza de verso capcioso: ele diz que ninguém mais pode ser dele desse jeito. Jura de fidelidade? Vai nessa... Em algum lugar ele disse que ELE não pode ser de ninguém? A obsessão aqui é você, miga)
 Você tem que me fazer um juramento
(Nota da editora feminista: opa! Não basta a carta de intenções dele. Você tem que jurar por ela)
De só ter um pensamento
(Nota da editora feminista: não é  só que você não pode ser de ninguém mais. O cara quer vigiar até o que passa pela sua cabeça)
Ser só minha até morrer
(Nota da editora feminista: OK, a intenção pode até ter sido “um amor eterno, por toda a vida”, que será desconstruído adiante, mas esse “até morrer” me deu um arrepio)
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
(Nota da editora feminista: jeitinho, devagarinho – tudo da família da “coisinha” lá de cima)
Essas histórias de você
(Nota da editora feminista: claro que você só vai ter histórias de você para contar para ele, porque o bofe está querendo te colocar numa gaiola, vai falar do que mais?)
E de repente me fazer muito carinho
(Nota da editora feminista: é pra isso que você está lá, afinal)
E chorar bem de mansinho
(Nota da editora feminista: oi? O ideal de romance para esse psicopata é te ver CHORANDO? Esse homem é um sádico)
Sem ninguém saber por quê
(Nota da editora feminista: essa eu não sei nem por onde começar – ninguém vai saber... por quê? Porque briga de marido e mulher ninguém mete a colher? Porque “eu posso não saber por que estou batendo, mas ela sabe por que está apanhando”? Ou simplesmente porque ele acha – e gosta da ideia – de que mulher chora à toa?)
Porém, se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
(Nota da editora feminista: peraí, esse mundo maravilhoso que ele está descrevendo tem mais a oferecer...)
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
(Nota da editora feminista: pronto. Ele acabou de depositar em você a responsabilidade pela vida DELE.)
Você tem que vir comigo em meu caminho
(Nota da editora feminista: até que demorou para ele dizer, de novo, o que você TEM que fazer)
E talvez o meu caminho seja triste pra você
(Nota da editora feminista: Rá! Não falha nunca: “estou avisando antes, não vá reclamar depois”)
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
(Nota da editora feminista: não tinha ficado claro, ainda, que você não vai poder olhar pros lados?)
Os seus braços o meu ninho
(Nota da editora feminista: porque, obviamente, ele TINHA que te colocar no lugar da mãe dele)
No silêncio de depois
(Nota da editora feminista: depois do quê? Do ato? Silêncio? Vira pro lado e dorme?)
E você tem que ser a estrela derradeira
(Nota da editora feminista: você TEM que ser, entendeu?)
Minha amiga e companheira
(Nota da editora feminista: porque, além de namorada, amada e mãe, você também tem que exercer aquela camaradagem dos amigos, aquela compreensão, aquela companhia nos programas que ele quiser fazer etc.)
No infinito de nós dois

(Nota da editora feminista: considerando que o poeta em questão apregoava o “infinito enquanto dure”, é só juntar lé com cré: ele sabe que o troço vai acabar – como sempre acaba – mas enquanto durar, é tudo do jeito dele, entendeu?)

Nego do Borel e Anitta: aqui, não

Mais de cinquenta anos depois dessa estética e da lógica da Bossa Nova, a música popular continua idealizando o comportamento das mina. O Nego do Borel, por exemplo, chora o desprezo da moça que partiu seu coração e que agora, como prêmio, pode virar só "um pedacinho do esquema dele". Mas... sinal dos tempos, Anitta responde que nunca quis esse coração ("minha namorada" é meuzovo). Bossa Nova melhor que Funk? Pra quem?  

6 comments:

Anísio FC said...

Mocinha coisinha feministinha do meu coraçãozinho....
Apesar da ironia aí de cima fecho completamente contigo, venho tomando simpatias por Anitta atualmente, só dá pra perdoar um pouquinho - bem pouquinho - Vinicius situando a letra a seu tempo, essa coisinha fofinha e machistinha era quase banal à época!

Alessandra Alves said...

Exatamente, Anísio FC. Há um contexto histórico/cultural que precisa ser levado em conta. Mas é muito mais o julgamento artístico que eu gosto de discutir, porque é óbvio que "artisticamente", Vinicius de Moraes tem um valor imensamente maior que o de Anitta mas, ao impor a lógica do "bom gosto", é como se a gente tivesse que comprar um pacote fechado: aquela estética, com aquela mensagem. Opa, epa... Aquela estética pode falar mais alto à minha formação cultural, mas aquela mensagem me agride. E acho que uma evidência da maturidade (como consumidor de produtos culturais) é exatamente separar uma coisa da outra. Obrigadíssima pelo comentário :)

totiy said...

A genialidade da bossa nova nao esta nas letras (aquela do lobo bobo , aiaiaiai) a g5enialidade da bossa nova esta na batida 2/4 do violao de Bbaden Powel e Joao Gilberto nos acordes com setima maio e nona de tom Jobim formando riquissimas melodias admiradas mundo afora por musicos de todas as vertentes , mas isso é outra história . . .

Sonia Altman said...

Acho bom deixar claro que toda esta "análise" da Letra, é do próprio Carlinhos Lyra, que vem mostrando isto ha 20 anos , e se desculpando por um Machismo que nem era percebido.
Não podemos destruir artes e artistas sem considerar o momento em que foi feito. Sou anti machismo, mas cultura geral é fundamental.

Rebello said...
This comment has been removed by the author.
Rebello said...

Eu não estou bom de articular hoje a noite por vários motivos, mas a minha vontade era de escrachar, não quem se acha dona da verdade por pensar que se emancipou. Não, é mais profundo que isso. É questão de cultura mesmo, de vivência, de lugar do ser. Nisso eu constato o vácuo pelo qual passou o brasileiro de umas décadas para cá. É como se tivessem passado um aspirador no cérebro, sugado quase tudo e deixado apenas um vestígio de ser humano, uma quase memória de decência, de identidade do ser. Seria bom eu dar alguns exemplos aqui para situar melhor o que eu quero dizer, mas se ainda não conseguiram sacar pelo que já foi dito nem vale a pena porque de fato é caso perdido. Melhor irem celebrar parada gay que dá mais certo.
A questão essencial aqui é o amor. Lembra daquilo que está subentendido em "Baby, I love you. Baby, I need you. Baby I can't live without you. Baby come back to me"? Pois é, não existe mais. O subentendido, repito. Foi perdido na tradução! Porque o explícito banal e o pueril aculturado suplantaram a sublimidade há décadas, e o que restou foi triturado pelo rolo compressor da contra-cultura, rock, heavy metal, hip hop, rap e funk. Não restou nem o pó porque já foi todo cheirado misturado com fubá. Então, tentar dizer o que para essa geração de completos imbecís que nem sabem o que é família, quanto mais uma companheira de idílio em quem voce possa olhar nos olhos a fragilidade da vida e dizer: voce quer ser minha namorada? E haver espaço suficiente depois disso para silêncio vivo. Ou olhar o feminino na sua pureza e sentir a leveza de um coração palpitando em um simples toque de mão. Claro, eu só posso estar delirando, certo? E uma letra destas do Vinícus é um insulto! Quem poderia ser companhia para um machão moderno, tipo a um que dessensibilizou-se por ter se acostumado às notícias de guerras no oriente médio que matam pelo menos duas dezenas entre crianças e idosos por missão para mostrar serviço à pátria. Ora, as mulheres se acostumam com isso, ou com tipos vestidos de grife bebericando Martinis secos em bares de hotel porque já não esperam por nada melhor. Não quero chover no molhado, mas o feminismo criado pelos Rockefellers ja fez a lobotomia, e o terceiro sexo é a sensação libertadora do momento!