Friday, April 15, 2011

"Eu me adoro cantando"


Jogando baralho com amigos, ela cantarola, ajeita cartas na mão, joga a cabeça pra trás, ouve o som da própria voz em um aparelho de som ao fundo, exclama "ah, eu me adoro cantando", e gargalha. A personagem é Nana Caymmi, o filme, Rio Sonata. Fui vê-lo na quarta-feira passada, em uma sessão especial do Reserva Cultural, provavelmente meu cinema preferido em São Paulo, ao lado do Cine Livraria Cultura, dos poucos que restam com alma, identidade.

Eu não sabia nada sobre o documentário, mas a simples referência a Nana Caymmi me fez vencer um monstruoso congestionamento na cidade (por conta do último show do U2?) e me proporcionou uma das noites mais memoráveis dos últimos tempos. Nana e seu irmão Dori Caymmi estavam lá. E também meu querido Zuza Homem de Mello, que me apresentou ao som de Nana há 28 anos, quando ela lançou o extraordinário álbum "Voz e Suor", que contava apenas com o piano de César Camargo Mariano e a voz de Nana.

O filme foi produzido pelo suíço George Gachot (não consegui descobrir se ele tem algum parentesco com o piloto Bertrand Gachot). Aqueles do copo meio vazio diriam "que pena, precisa vir um estrangeiro para produzir um filme sobre uma cantora como Nana Caymmi". Os do copo meio cheio - incluindo-me entre eles - prefeririam o benefício do olhar estrangeiro, distanciado, capaz de enquadrar Nana em moldura feita de percepções, não de estereótipos.

Porque o estereótipo, o senso comum, a visão estreita tendem a pintar Nana como cantora sofisticada, de elite, difícil. A visão ampliada de Gachot levou à tela uma cantora rigorosa com suas escolhas e, sobretudo, consigo mesma(singela, Nana em dado momento revela que é difícil cantar músicas como "Ponta de Areia" e "João Valentão", e fica evidente que a dificuldade está menos nas músicas e mais no tom desafiador que ela e seus maestros se impõem). Rigor à parte, Nana revela-se realizada em seu ofício, exercendo a profissão de cantar com um hedonismo que transparece em vários trechos do filme, como o "eu me adoro cantando" do animado carteado.

Quando o letreiro anunciou o final do filme, fui tomada de certa decepção e até exclamei: "mas já?". Eu assistiria e ouviria aquele documentário por muito mais tempo. A música de Nana seria suficiente para justificar esse apego, mas a beleza do filme também há de ser destacada. Gachot foi ao ponto: contextualizou Nana em um Rio - sua terra natal - nublado, sombrio, melancólico. O tom de sua voz de lamento, o lamento dos olhares e gestos simples das pessoas retratadas no filme. Porteiros, crianças brincando no subúrbio, donas de casa, camelôs. A Nana de Gachot não é sofisticada, blasé, intangível, difícil.

Sem ser linear, e sem se preocupar em ser documental, o filme vai reconstituindo a história de Nana, mostrando cenas do seu cotidiano, mesclando-as com imagens do passado. A diva que se apresenta ao lado de Tom Jobim no instante seguinte é uma mulher de quase 70 anos à procura dos "óculos para longe", encontrados depois de certo esforço na bolsa enorme. A cantora alçada à popularidade em anos recentes, graças a temas de novelas, ganha depoimentos de gente de várias tribos - do ex-marido Gilberto Gil ao Tremendão; de Milton Nascimento a Mart´nália. E vai falando sobre cantar e amar e sobre cantar o amor, definindo-se uma cantora de Bossa Nova que ninguém nunca assim reconheceu (Milton decifrou-a: na Bossa Nova, cantava-se baixinho, e Nana tem esse vozeirão...). A diva refere-se ao irmão Dori como um de seus compositores preferidos, e o chama de Dorivalzinho, transportando para a tela uma intimidade familiar que não nos pertence, mas que enche o filme de uma ternura que nada tem a ver com a cantora sofisticada que sempre se pintou.

Em uma das sequências mais divertidas do documentário, no que parecem ser os bastidores de um show, Nana, Miúcha e Maria Bethânia improvisam sobre uma canção de Dorival. Bethânia, gestual dramático, altivo, comandante, lança o primeiro verso, dá o tom. Miúcha embala, quase tiete entre as duas prima donas. Nana apodera-se da batuta, baixa o tom da canção, gestual maternal e firme, recoloca em seu lugar a moreninha da sandália do pompom grená da canção de seu pai. Uma brincadeira, quase um duelo de vozes, ou de estilos. Perdoe-me, mana, Nana ganhou.

E o pai - a origem - é quem vem encerrar o filme, em uma sequência bela, inesquecível, recontando a história de "Acalanto", a canção de ninar que fez para Nana, a diva que casou-se cedo, foi para a Venezuela, teve três filhos, separou-se, venceu festival, casou-se com Gil sem nunca olhar para a Tropicália ("não entendi aquilo até hoje, se alguém quiser me explicar..."), e trilhou sua carreira baseada em um princípio básico - o prazer de cantar. Simples assim.

Se eu tivesse essa voz, Nana, eu também iria me adorar cantando.

4 comentários:

Mauro Chazanas said...

Alessandra, que família musical, não? O pai, os dois irmãos, ela. Li em algum lugar que a mãe
cantava maravilhosamente, não sei se tem algo gravado.
Voce se lembra de mais exemplos de famílias que brilharam?
Taí um teste de memória - não vale googlar - pra passar o intervalo entre Barça mais 5 x Real
Madrid desta vez 1 e o GP da China.
Na música, começando pela de concerto, tem os Bach, três que saiba. Dois Strauss.
No jazz, tem meia dúzia de Marsalis. No cinema barra teatro dos Estados Unidos tem os Barrymore,
quatro. Os Irmãos Marx. Quem mais? Bom, se misturar as atividades daí tem o diretor Vincent Minelli,
sua mulher Judy Garland e a filhota, a Liza. Se valer isso então tem o Roberto Rossellini, sua
consorte Ingrid Bergman e a filhinha Isabella.
Na literatura tem os dois Dumas, os dois Veríssimo. No jornalismo brasileiro os dois Kfouri.
No esporte não tem muita coisa não, né, Alessandra? Futebol, por exemplo, talvez assim de
craques mesmo só o Ademir e o pai dele, que as crõnicas dão conta que era fenomenal, Sr. Domingos.
Agora, se descambarmos para a, conforme a rotulou o filósofo, atividade mais nobre dos humanos,
a política, daí então é uma festa nos nossos rádios. Kennedy, os Maia do DEM, os Tatto do PT.
Voltando à arte, será que existe ou já existiu família mais interessante que os Simpsons?
Bom sábado, uma dica que a Nana certamente aprovaria:
"Bess, You Is My Woman Now", na versão que dá pra achar no You Tube, Rattle, White, Haymon
e depois com a Ella e Mr. Louis, pra comparar.
(queria muito que a Nana tivesse gravado esta canção, talvez com Emílio Santiago, já pensou?).

Ron Groo said...

Eu fiquei contente em ler sobre o filme/documentário, e fiquei sim um tantinho chateado pelos motivos que te fizeram citar "os do copo meio vazio"

Gostaria de que os cineastas/documentaristas daqui parassem de celebrar pseudo importantes, ou de glorificar bandidagem (Aquele filme do ônibus no Rio é o fundo do poço)e passassem a dar a devida importância a gente que merece.

Além de Nana, que foi honrada e honrou a nós e ao Gachot também poderiam ser feitas películas sobre grandes nomes deste nosso vasto universo musical: Sérgio Sampaio, o próprio Dorival Caymmi, (eu não gosto, mas) Cauby Peixoto... As cantoras do Rádio.

Mas é sonhar demais. Por enquanto fico feliz em ao menos poder assistir este.

Raros da Web said...

Parabéns pelo blog!

Paulo Levi said...

Que legal, Alessandra! Passei por aqui pra ler sobre automobilismo, e encontrei o seu ótimo texto sobre a Nana Caymmi e sobre esse documentário que eu não conhecia, mas que preciso ver de qualquer jeito. Nana é mesmo uma grande cantora, uma das maiores que este país já teve. E tanto faz a nacionalidade do Gachot, o importante é que alguém finalmente teve a iniciativa de fazer essa homenagem mais do que merecida.

Um abraço,
Paulo Levi
(www.adverdriving.blogspot.com)